Vitória retumbante

Tenho lembrança de um bom número de campeonatos que contaram com grande nível de aceitação depois de serem anunciados no dia da apuração. A diferença está  em que, desta vez, o nível de aceitação se deu no exato momento do desfile. Pelo menos ali junto ao
pessoal que fazia a cobertura no domingo.

Na tarde da apuração os números tornaram a vitória incontestável. Se adotarmos o conceito
"quesito pleno", aquele em que a escola obtém nota máxima de todos os cinco julgadores, veremos que a Tijuca fechou 60%, contra apenas 20% da vice campeã Grande Rio, 30% da Beija Flor. A Vila Isabel só fechou 10%, bem como o Salgueiro. Mangueira fechou 20%.

A escola não perdeu mais de um décimo em nenhum quesito.

Uma vitória que trouxe à luz as mais variadas interpretações e prognósticos de pessoas apaixonadas e envolvidas com nosso carnaval, inclusive eu. Umas a demonstrar
preocupações com descaminhos, eventuais exageros. Algo assim como uma "paulobarrização" excessiva do carnaval. Outros a saudar os novos tempos que estariam por vir.
Já há vários carnavais passados temos visto em bom número de escolas as marcas do vitorioso carnavalesco.

A marca mais emblemática foi vista ainda neste carnaval na terceira alegoria da Grande Rio representativa da genialidade de Joãozinho
Trinta e de seu formidável colaborador Viriato Ferreira.

Na parte inferior do carro portas se abriam e fechavam , digamos, à maneira Paulo Barros, deixando sair os ratos que, com urubus, tanto marcaram um dia o carnaval carioca. Vejam que ali foram diretamente reverenciados Viriato e João, mas indireta e significativamente o homenageado foi Paulo Barros, em boa companhia.

Sabemos como os resultados oficiais, aqueles que premiam este ou aquele carnaval, acabam por apontar caminhos. A vitória retumbante alcançada, com a eloqüência dos números obtidos, estará apontando ou abrindo novos caminhos?

Não sei se não acredito ou se não quero acreditar que seja assim. Ou melhor, não desejo e nem acho que seja possível.

Ou ainda melhor, não desejo ver as escolas inventando fórmulas, copiando o estilo sob risco de, mal realizados, os desfiles perderem suas características predominantes de ópera e adquirirem características predominantes de circo, com espetáculos fragmentados e variados ( circo aqui referido na sua significação mais exata e positiva, absolutamente sem qualquer conotação negativa).

Na outra curva do caminho, lá atrás, a direção apontada por João Trinta pôde ser seguida na medida em que inevitavelmente
redimensionou alegorias e fantasias adaptando-as às novas dimensões do palco: o que era encenado no teatro do bairro passou a sê-lo no
João Caetano.

No caso presente a questão é outra. Trata-se aqui de mudança de linguagem, não de volume, de dimensões e de adequação de materiais.
No caso presente o que se vê é a mudança na forma de narrar, uma nova maneira de veicular "ideias" em função da adequada escolha de temas.

Neste carnaval o segredo maior, pelo menos para mim, ficou no nome do enredo. Muita gente questionou a máfia, os super heróis, o Michel
Jackson, pelo não entendimento exato do tema: a escola não se propôs a "revelar segredos" e sim revelar "o quê é segredo": a clandestinidade da Cosa Nostra, a cor de Jackson ou a identidade secreta de cada herói de quadrinhos.

Confesso que só descobri isto lá na Sapucaí.

Paulo Barros domina um tipo de linguagem, de "arte", incomum no carnaval. Uma "arte" específica que nem todo carnavalesco domina ou dominará, sem que isto signifique que é melhor ou pior que outro.
É bom lembrar que em toda essa ousadia de linguagem, nem sempre o resultado é o esperado, nem sempre "arrepia", digamos assim. Significa apenas que é a "sua arte", a sua maneira de narrar, de expor. Uma "arte" que foi honesta, tranqüila e dignamente reconhecida
por Renato Lage do alto de seus tantos e tantos vitoriosos carnavais.

Tenho para mim que a virtude maior, a grande contribuição de tão retumbante vitória, em seus números incontestáveis, é ter trazido ao desfile a imediata comunicação com o público.

O que tínhamos então  era uma platéia que apenas assistia ao desfile … via o desfile.

Entregava o ingresso via o desfile e ia embora, exceto quanto a enredos de facílima compreensão como o da Mangueira deste ano, como
Braguinha e outros mais.

A repercussão imediata e posterior do desfile da Tijuca, com aqueles números, deixa muito claro como esta mudança fez bem: fez a platéia participar da festa; viver o desfile intensamente como se viu naquela noite.

Nos dois grupos principais "assistimos" a desfiles de grande beleza e requinte com compreensão bastante complexa de suas propostas de enredo. E tem sido assim ao longo de todos esses anos.

O grande desafio dos desfiles para mim é este. Como fazer aquela quantidade de informação desfilada ir parar na alma de cada sambista presente ou diante da TV?

Como impedir que tanta informação fique na pista e vire pó? Como impedir que fique em cada mente unicamente a memória visual de luzes
e cores, taboas, ferros, isopores e borrachas revestidos de tecidos carnavalizados.

Como fazer com que o carnaval, como já repeti oitenta vezes, seja algo mais que um mero desfilar de carros bonitos? Ou será que o carnaval é só isto mesmo, só aquele momento?
Fico daqui torcendo para que uma vitória tão retumbante represente para os artistas do carnaval este desafio: a comunicação com o
público.

Um desafio que é infinitamente maior do que transformar a Sapucaí em um circo com atrações variadas e imediatas, como já me referi. O
desafio da evolução da linguagem, de uma nova maneira de narrar.

Um desafio que tem em Paulo Barros seu maior desafiador; um desafio trazido por ele. Um desafio que tem nele o maior desafiado.
Parabéns pela vitória.