Volta por cima do samba-enredo

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Tentei. Juro que tentei ver o "especial" que a Rede Globo fez com os sambas-enredo para o carnaval 2010. Imaginei que poderia ser um passo importante para, quem sabe, a abertura de mais espaço para as escolas de samba na linha de shows da emissora. Os mais novos não
sabem, mas houve um dia em que as escolas participavam ativamente dos programas de auditório
das televisões e os sambas de enredo tinham mais espaço nas emissoras de rádio. A esta altura
da temporada não havia na cidade quem não soubesse cantar pelo menos os melhores sambas do ano. Quem tem mais de trinta há de lembrar disso.

A boa safra de 2010 – há, sem dúvida, alguns belíssimos sambas – me enche de esperanças sobre uma "volta por cima" do gênero. Mas isso depende também da mídia. Não adianta apenas ter bons sambas e uma excelente gravação como temos neste ano. A divulgação bem feita é essencial.

Final de ano é hora de encontrar familiares. Minha tia-avó, que durante muitos anos era a primeira
da família a comprar o disco, me disse sábado que ainda não tinha ouvido nenhum samba-enredo para 2010. Uma prova de que o samba não sabe "fidelizar" seus consumidores. Indiquei a ela que visse o programa de TV citado no início do texto…

Fiquei até com vergonha de ligar para saber o que ela achou. Se eu mesmo não consegui ver o programa direito (cochilei a maior parte do tempo), imagina ela, uma senhora de idade. O negócio passou na alta madrugada, quando a audiência é baixíssima. E foi muito mal produzido. Não havia sequer a letra dos sambas para que o telespectador pudesse entender o que era cantado.

Não sei se houve direção musical: o andamento apresentado foi fora dos padrões e a mixagem dos microfones fez alguns cantores de apoio encobrir a voz dos respectivos intérpretes oficiais. Não houve cuidado algum com a produção ou interesse em trazer mais informações sobre o espetáculo.

E o pior é que tem muita gente comemorando. Este é o problema: o samba se apequenou. Nos contentamos com migalhas, quando temos potencial para muito mais. Falta visão dos dois lados. O produto é muito bom e pode ser mais bem explorado.

No rádio, por exemplo, a gravadora deu exclusividade a uma emissora (que não lidera audiência nem abre espaço em sua programação
para o carnaval) e simplesmente não distribuiu o disco às demais. Quem toca é porque comprou o CD por conta própria nas lojas. Parece piada, não é? Mas é o profissionalismo mundo do samba.

"Para não dizer que não falei de flores", a Mangueira merece todos os aplausos pela iniciativa de produzir o seu próprio vídeo, com qualidade, e por encaixá-lo – aí sim – no horário nobre. Prova de que tem percepção do que representa no cenário cultural e de que tem
vontade de buscar algo mais. O samba como um todo precisa entender esta mentalidade. Talvez esteja faltando uma direção de marketing à
Liga.

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