Encarados com bons olhos por uns, odiados por outros, talvez os enredos em homenagem a localidades – chamados de “Enredos CEP” de maneira irônica no nosso mundo do Carnaval – seja um dos “gêneros” que mais desperta controvérsias. Desde o lançamento de um enredo CEP, críticos, Comunidades, torcedores, enfim, todos comentam a homenagem. Opiniões fervorosas à parte, fato é que, desde o final do século XX, como nos informa Luiz Simas e Fábio Fabato no livro “Para tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos” (2015), na esteira dos enredos patrocinados cada vez mais presentes, o Carnaval absorveu a realidade dos enredos CEP, apropriou-se de peito aberto da temática (e dos patrocínios) e lançou-se cada vez mais consistentemente a contar histórias sobre diversos lugares. Em 2012, não foi diferente.

Intitulado “São Luís – o poema encantado do Maranhão”, preparado pela Comissão de Carnaval daquele ano, a Beija-Flor de Nilópolis anunciava, já no título, a tônica do enredo que iria mostrar na Sapucaí: São Luís e o próprio Maranhão ganhavam destaque no Carnaval 2012, a cidade como metonímia do estado nordestino e de sua riquíssima cultura. O fio da narrativa do desfile, focado obviamente na capital maranhense (como consta na sinopse e demais elementos textuais presentes no Caderno Abre-Alas disponível no site de LIESA, juntamente com as notas e justificativas dos jurados), englobava temas que se desenrolavam de maneira cronológica e folclórica, desenhando a cidade (e, de quebra, a cultura maranhense mais ampla) a partir de subtemas que foram encadeados de forma fluida.

A sinopse começa destacando elementos que nos levam ao passado e início da história da cidade, trazendo à baila cenários caros à construção da São Luís que a Beija-Flor queria mostrar: aparece a “terra de palmeiras onde canta o sabiá”, uma “terra de encantarias” calcada em um paraíso idílico – Upaon-Açu – defendido pelos povos indígenas originários, porém cobiçado por três Coroas – França, Holanda e Portugal. Fundação, invasão, colonização, e a história continua.

Montado o cenário do enredo com o primeiro momento da cidade, a opção narrativa da Comissão de Carnaval calca-se subsequentemente no subtema da escravidão, perversa e cruel mancha vergonhosa na história brasileira. São Luís, construída à base de sangue escravizado, é retratada então a partir da imagem de um navio negreiro a atracar na cidade, relacionando-se, portanto, primeira e segunda partes da sinopse em um encaixe narrativo coerente do ponto de vista cronológico.

Da dor da escravidão, paralelamente, o enredo passa a cantar e ensinar a resistência da negritude, ressurgindo Upaon-Açu – “mística”, na história enredada – a partir da religiosidade afro-brasileira, havendo, portanto, uma ligação entre passado e presente, uma espécie de conjugação entre a história da cidade e a atualidade da capital do Maranhão, que fervilha cultural e religiosamente em ancestralidade africana: Voduns, Tambores de Daomé, Casa das Minas, Candomblé e demais religiões são o elo, por um lado, com a construção descrita no início da sinopse e, por outro lado, com continuação do enredo em uma São Luís agora “menos histórica” e mais atual e “atemporal”.

Na esteira da religiosidade e do sincretismo, a narrativa nos conduz ao novo subtema dos mitos, lendas e folclore, que dá lastro plástico ao enredo agora descolado da cronologia mais estrita/oficial da parte inicial. Passando a privilegiar a conjugação temática do conteúdo dos assuntos, surgem assombrações, Serpente Encantada, Sinhá Ana Jansen, festas, enfim, todos os elementos que, dentro da cultura popular ludovicense e maranhense, caracterizam a “São Luís nilopolitana” no recorte oferecido e pesquisado pela Comissão de Carnaval.

Já caminhando para o fim da proposta, e alinhado ao subtema antecedente, aparece a São Luís que ficou conhecida pelos epítetos “Atenas Brasileira” e “Jamaica Brasileira”, destacando-se a musicalidade e personalidades maranhenses que possuem relação com as festas citadas e com o carnaval carioca, em especial o saudoso Joãozinho Trinta, óbvia referência, portanto, à própria Escola de Nilópolis.

Ao fim, a sinopse termina apontando para o “futuro”, cujo elemento catalisador de uma possível “ascensão” da cidade se dá em torno da bauxita, abundante no solo ludovicense, de acordo com o Histórico do Enredo. Destoando um pouco do tom cultural de todo o trajeto enredístico, a sinopse finaliza fazendo reluzir um estranho “Eldorado da bauxita”, talvez um anticlímax ao belo desenho proposto até então.

Se as temáticas da religiosidade e do folclore, contudo, parecem ser o amplo e dominante centro pulsional da capital maranhense proposta pela Beija-Flor no seu enredo, o samba, feliz e poeticamente, conseguiu traduzir quase a integralidade do fio narrativo: na primeira estrofe, conjugam-se os elementos mais históricos (“Tem magia em cada palmeira que brota em seu chão/O homem nativo da terra/Resiste em bravura/A dor da invasão/Do mar vêm três coroas/Irmão seu olhar mareja/No balanço da maré/A maldade não tem fé sangrando os mares/Mensageiro da dor/Liberdade roubou dos meus lugares/Rompendo grilhões, em busca da paz/Na força dos meus ancestrais”), passando-se ao belíssimo primeiro refrão que exalta a negritude e a religiosidade (“Na Casa Nagô a luz de Xangô axé/Mina Jêje em ritual de fé/Chegou de Daomé, chegou de Abeokutá/Toda magia do Vodun e do Orixá”), seguido por uma segunda estrofe onde estão presentes folclore, lendas e Joãozinho Trinta, enquanto representante máximo das personalidades homenageadas pela Beija-Flor, para finalizar com um refrão que faz um jogo poético entre as palavras “sabiá” e “beija-flor”, referência à “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias, e um bonito resumo do enredo: “Meu São Luís do Maranhão/Poema Encantado de Amor/Onde canta o sabiá/Hoje canta a Beija-Flor!”.

Densamente montado o cenário da história, com uma pesquisa e uma poesia vigorosas, o desfile não ficou atrás. Luxuosa, a Beija-Flor entrou na Avenida com impressionantes cinquenta alas e sete alegorias, sendo que a segunda fora “montada” em duas partes (parte A e parte B) separadas por uma enorme ala, uma inovação. Plasticamente, a Deusa da Passarela veio com uma estética belíssima, cujo ápice emotivo foi a última alegoria, com direito a uma réplica estilizada do Cristo Mendigo alocado acima de São Luís e de uma cadeira vazia onde viria sentado o próprio Joãozinho Trinta, falecido em dezembro de 2011 – uma emocionante e bela homenagem da Beija-Flor ao maranhense, à sua cidade e ao próprio Carnaval. Diante da grandiosidade do desfile preparado e da expectativa pelo resultado, não à toa, na época, Laíla, que dispensa apresentações, disse ter sido aquele o maior carnaval da sua vida.

Sexta escola a desfilar naquele domingo, dia 19 de fevereiro de 2012, a aguardada quarta-feira de cinzas rendeu um insosso quarto lugar à esperançosa Beija-Flor, que desejava melhor colocação para o aniversário de 400 anos da capital maranhense. Apesar da primorosa pesquisa, do belo samba, do enredo criativamente escrito – bauxita à parte – e do grande desfile, além dos quesitos mais técnicos muito bem avaliados (com exceção da penalizada comissão de frente com um décimo extra perdido por não ter se apresentado no setor 3), foi justamente o quesito “Enredo” que mais tirou pontos de Nilópolis. Com quatro notas 9,8, a “São Luís nilopolitana” parece não ter convencido os jurados.

No que se refere especificamente à realização do enredo, os quatro jurados justificaram a penalização da Beija-Flor pela velocidade com que algumas alas passaram na frente de alguns módulos, dificultando o entendimento do enredo, e, principalmente, pela inversão de alas, com especial atenção dada à ala 50, que veio fora de lugar. Todavia, no que diz respeito à segunda parte da avaliação do enredo – sua concepção –, algumas justificativas parecem desencontradas.

De um lado, o jurado Flávio Xavier justifica a penalização da concepção do enredo afirmando que se trata de um “enredo com densidade cultural, porém com excessos narrativos ocasionando rupturas de seus argumentos e subtemas, devido (a)o exagero (de) 50 alas”, argumentação na mesma linha do jurado Johnny Soares, cuja opinião é a de que se trata de um “enredo de densidade cultural que peca pelo excesso de ganchos e subtemas, prejudicando a exploração da ideia central que é homenagear a cidade de São Luís do Maranhão”.

De outro lado, com argumentos a favor da penalização quase inversos aos dos dois citados, o jurado Pérsio Brasil entendeu que “a exuberante agremiação Nilopolitana comemora honrosamente o 4º centenário da fundação da linda capital insular do estado do Maranhão, tão rica em história, cultura e belezas naturais. Carece porém o roteiro de uma visão mais abrangente da aniversariante, já que a ‘Cidade dos Azulejos’ apresenta aspectos tão diversos e atraentes como o Teatro Arthur Azevedo (o segundo mais antigo do Brasil), uma culinária riquíssima, o importante Porto do Itaqui (por onde é exportada a própria bauxita citada no enredo), os restaurantes-típicos (lá chamados de bases) etc…”, no mesmo sentido da justificativa enxuta da jurada Marisa Maline sobre a concepção do enredo, para quem foi um “enredo de abordagem limitada, podendo ser mais explorado, com conteúdo mais diversificado”, digno, portanto, de perder décimos.

Respeitadas as opiniões dos jurados, contudo fazendo um exercício intelectual e de crítica, é no mínimo incompreensível que dois jurados penalizem o enredo da Beija-Flor por “excesso” de informações, enquanto outros dois penalizem a Escola por “falta” de diversidade ou adensamento do mesmo conteúdo ou tema. O curioso é que, no tocante exclusivamente à avaliação da concepção do enredo, nenhum dos quatro jurados fez qualquer menção à concepção proposta pela Escola, explanada em minúcias no Caderno Abre-Alas, nem penalizou pelo que de fato fora construído e segmentado pela Comissão de Carnaval, mas se ativeram, de acordo com as justificativas escritas, ao que gostariam de ter visto mais ou menos. Novamente, respeitadas as notas, permanecem, como sempre, mistérios do Carnaval…

No toque do tambor de Nilópolis, por fim, é inegável que São Luís, no recorte proposto pela Beija-Flor, saiu da Avenida bem representada, lindamente desenhada, plasticamente exuberante e com um enredo bem delineado e encaixado em uma história que respeitou o proposto pela Comissão desde o começo. A Deusa da Passarela deixa-nos um belo Carnaval com o retrato de uma cidade culturalmente rica e pulsante, fazendo uma convincente réplica narrativa-visual a críticas que enredos CEP podem injustamente receber durante a temporada pré-Carnaval. Em 2012, São Luís apareceu magistral na Sapucaí e o desfile fez valer cada segundo dos espectadores… bem, bauxita à parte.

Autor: Clark Mangabeira (Escritor, antropólogo e professor doutor de Antropologia da UFMT. Pesquisador e orientador do Grupo de Pesquisa sobre Cultura Popular Caleidoscópio/UFMT e do Observatório do Carnaval/UFRJ).
Instagram: @obcar_ufrj

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