Por Gustavo Maia. Fotos: Allan Duffes

A Acadêmicos do Jardim Bangu abriu a terça-feira de carnaval na Intendente de Magalhães com um samba potente puxado pelo intérprete Lucas Donato. A tricolor da Zona Oeste apresentou na passarela de Madureira o enredo “Da Mãe África aos Filhos do Brasil: a Força Ancestral que Atravessa Gerações”. A jovem escola, criada em 2016, mostrou que almeja conceder ao Leão de Xangô, seu símbolo maior, um lugar de destaque no carnaval carioca.

Harmonia

O carro de som comandado pelo jovem Lucas Donato sustentou dignamente o canto da escola. Lucas desfilou com uma maquiagem corporal que simulava as chagas e o sangue a escorrer sob golpes de chibata, mostrando que integra a dinastia dos cantores performáticos. Os componentes do Leão responderam bem aos intérpretes, mas uma pequena parcela não cantou o samba com a potência que a obra pedia. Nos minutos finais do desfile, parte do sistema de som local foi desligado, revelando certa timidez do chão da tricolor. Era notável que o canto caía significativamente após os refrãos.

Evolução

Os componentes do Jardim Bangu evoluíram com correção: sem correrias ou interrupções no andamento da escola. Os muitos destaques de chão ao longo da exibição, assim como uma ala coreografada, integraram-se perfeitamente ao cortejo, conferindo-lhe fluidez e ocupando os espaços necessários.

Samba-enredo

O hino escolhido pela Acadêmicos do Jardim Bangu para 2020, embora não possa ser considerado uma das melhores obras deste carnaval, funcionou bem para a proposta do desfile, com destaque para a potência dos refrãos, que levantavam o canto da comunidade. O samba-enredo mereceu ainda o mérito de contar com clareza a narrativa criada pelos carnavalescos da escola.

Bateria

A bateria do mestre Dilsinho de Xangô sustentou o ritmo da Acadêmicos do Jardim Bangu. Um dos destaques da exibição foi o naipe dos agogôs, que garantiu o suingue pedido pelo samba. Os ritmistas executaram uma bossa que fazia referência aos ritmos do maracatu e maculelê, cantados no samba, levantando o público das arquibancadas. A rainha Dani Santanna cumpriu com elegância seu papel à frente dos músicos, sempre reverenciando o público e os julgadores, sem perder o samba no pé.

Mestre-sala e Porta-bandeira

O casal que teve a honra de conduzir o pavilhão da Acadêmicos do Jardim Bangu, Rômulo Diniz e Lyvia Bergmann, exibiu-se com vigor e elegância em todos os módulos de julgamento. Com uma bela fantasia em tons acobreados e vermelhos, o casal manteve o sorriso no rosto durante toda a apresentação. Rômulo e Lyvia, no auge da juventude, souberam aproveitar as bossas da bateria na coreografia para os jurados. Na dança, destacaram passos em alusão aos ritmos e cultos africanos, sempre executados com maestria. Ao fim do desfile, depois de completadas as quatro apresentações sob julgamento, Lyvia sentiu -se mal e foi acudida por seu companheiro e por diretores da escola. O episódio reforçou a garra da bailarina ao longo do desfile, que em nenhum momento expressou qualquer desconforto.

Comissão de frente

A comissão de frente foi formada por componentes da velha guarda da escola, senhoras em sua maioria. A apresentação, portanto, fugiu às expectativas do público e dos jurados contemporâneos, que cobram surpresas, roupas impactantes e coreografias elaboradas. Por outro lado, a apresentação dos componentes elegantemente vestidos enquadra-se na proposta do enredo, que aborda as raízes ancestrais, a tradição e a sabedoria, passando pela contribuição africana ao carnaval.

Alegorias e Adereços

A escola trouxe para a avenida duas alegorias e um elemento cenográfico. O abre-alas apresentou os símbolos da escola: o Leão e o Machado de Xangô. O destaque da alegoria, entretanto, foi o time de mulheres empurradoras, que deram toda a sua força para que o carro cruzasse a avenida com tranquilidade. O elemento cenográfico do desfile manteve a boa execução da alegoria de abertura, mas, dessa vez, em tons prateados que serviram muito bem à escultura de Iemanjá. A alegoria que encerrou a exibição foi a de maior destaque, decorada com flores multicoloridas e elementos do carnaval carioca, trazendo o cenário da folia para a avenida.

Fantasias

O conjunto de fantasias da escola da Zona Oeste foi um dos destaques do desfile. As roupas mostraram cuidado na concepção e no acabamento. A variação de materiais e de cores afastou a monotonia. O tapete cromático desenhado pelos carnavalescos se destacou desde a abertura do desfile, com fortes tons de dourado, e soube atender às exigências do enredo. As baianas da escola foram vestidas com luxo e bom gosto, recebendo aplausos da plateia.

Enredo

A narrativa criada pelos carnavalescos Ismael Costa e André Araújo seguiu a linha tradicional dos enredos de inspiração negra. O desfile mostrou como a cultura africana contribuiu para a formação da nação brasileira, destacando a religiosidade negra e manifestações de resistência como a capoeira e o samba.

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