“Olha que glória, que beleza de destino para esse menino Deus reservou”. Há gloria maior que ser homenageado em enredo por uma escola de samba? Em 2001, após o monotemático carnaval de 2000 sobre os 500 anos do descobrimento do Brasil, algumas escolas apostaram em enredos biográficos. A Unidos da Tijuca cantou Nelson Rodrigues, a Grande Rio buscou inspiração no profeta Gentileza e a Tradição apostou no mais popular comunicador da televisão brasileira, Senor Abravanel, ou, como é mais conhecido, Silvio Santos. E a aposta da escola do Campinho rendeu, se não a melhor colocação – até hoje o 6º lugar de Passarinho, passarola, quero ver voar, em 1994 –, o mais famoso desfile de sua história.

E o destino traçou um elo entre Silvio e a escola. Em 1978, no LP Vida boêmia, João Nogueira gravou Moda de barriga. Ludicamente, um trecho da música exaltava apresentador: “O dia que barriga virar moda realmente vai ser fogo pra poder me aturar. Ninguém vai resistir aos meus encantos e a TV do Silvio Santos vai querer me contratar”. Em 1984, João deixou sua querida Portela para acompanhar outros bambas da azul e branco de Oswaldo Cruz que fundaram a Tradição. Na nova agremiação, o sambista se tornou referência, compondo, em parceria com Paulo Cesar Pinheiro os primeiros cinco sambas enredo da escola, entre os carnavais de 1985 e 1989. Contudo, quis o destino que João Nogueira partisse meses antes de a história de Silvio Santos
tomar a avenida nos braços de sua Tradição.

Hoje é domingo, é alegria. Vamos sorrir e cantar! é o título do enredo sobre a vida do homem do baú, desenvolvido pelo carnavalesco Orlando Júnior. A Tradição, segunda escola a desfilar no domingo de carnaval, faria um dos desfiles mais aguardados. Toda a expectativa era fruto, além da popularidade do apresentador, da grande rivalidade existente entre as duas principais redes de televisão do país na época: o SBT, a TV do Silvio Santos que João Nogueira cantou, e a Globo, dona dos direitos de transmissão dos desfiles. Diante dos comentários sobre a possibilidade de não transmitir a homenagem ao concorrente, a Globo precisou lançar nota alegando que “as agremiações têm liberdade de escolha de seus enredos e a emissora não vai prestigiar ou discriminar nenhuma escola por causa de um tema específico”. E assim ocorreu. Na noite de 25 de fevereiro de 2001, Silvio Santos era cantado na Globo.

As arquibancadas da Marquês de Sapucaí cantaram em uníssono “Silvio Santos, cadê você? Eu vim aqui só para te ver” enquanto o abre-alas prateado manobrou para entrar na passarela, trazendo o apresentador à frente do condor, símbolo da Tradição. A cabeça da escola e todo o primeiro setor vieram em branco e prata, remetendo às origens gregas da família Abravanel. A comissão de frente representou Midas, conhecido na mitologia grega como um camponês que se tornou rei da Frígia e ganhou de Baco o poder de transformar tudo o que tocasse em ouro. Ignorando que o poder não era um dom, mas uma maldição, uma alegoria da ganância humana, a referência a Midas no desfile é um elogio à capacidade empreendedora de Silvio. A sinopse do enredo conta que desde a infância humilde na Lapa e pelas ruas do Centro do Rio de Janeiro, o menino tinha um olhar visionário para ganhar dinheiro.

Sem grandes preocupações com o rigor cronológico dos acontecimentos, a narrativa do desfile mostrou os nascimentos das diferentes facetas de Silvio Santos. O camelô, o locutor, o animador de plateias, o homem de negócios. O branco e o prata do início deram lugar, então, a outras cores, sobretudo aos tons de azul do pavilhão da Tradição. Para contar essa história tão conhecida e de forte ligação afetiva com o público, Orlando Júnior concebeu fantasias e alegorias a partir de elementos muito conhecidos, facilitando a leitura e a comunicação com as arquibancadas. Assim, a barca da Cantareira, o circo, o peão do Baú e o Troféu Imprensa, tomaram a avenida. Várias personalidades do SBT, como Gugu Liberato, Ronald Golias, Ratinho e Hebe Camargo também ajudaram com sua popularidade a levantar os foliões.

O samba foi alvo de críticas em todo o pré-Carnaval. De letra simples e melodia pouco inventiva, não caiu nas graças dos sambistas mais tradicionais, que o chamavam de marcha. Contudo, foi promovido em clipe nos intervalos dos programas do SBT e se transformou em um fenômeno popular nas ruas do Rio de Janeiro, especialmente entre as crianças. No desfile, a boa participação das arquibancadas e o bom desempenho do intérprete Celino Dias garantiram boas notas.

Sorte. A trajetória de Silvio Santos é atravessada pela sorte em toda a narrativa. A sorte de não ter sido levado ao juizado de menores e sim à Rádio Guanabara quando foi detido; a sorte de ter arranjado emprego como locutor em Niterói que lhe permitiu observar uma oportunidade de negócio na barca; a sorte que o levou a São Paulo quando a barca ficou fora de operação; a sorte lançada na Telesena; a sorte que o livrou da presidência da república. E que sorte levou Silvio Santos a ser enredo na Tradição? Após anos lutando contra o rebaixamento, a escola de João Nogueira conquistou um 8º lugar que por uma colocação não a levou ao desfile das campeãs, mas imortalizou o homem do baú nas páginas da história do carnaval das escolas de samba do Rio de
Janeiro.

Autor: Renan Basilio – Jornalismo ECO/UFRJ, coordenador de qualidade
acadêmica/OBCAR, membro do OBCAR/UFRJ.
Leitor orientador: Vinícius Natal – Doutor em Antropologia e Sociologia/UFRJ,
Pesquisador OBCAR/UFRJ.
Instagram: @obcar_ufrj

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