Há pouco mais de uma semana nos despedimos de uma das maiores vozes do carnaval: Dominguinhos do Estácio. Em 1998, o intérprete imortalizou o samba da vermelho e branco de Niterói, que homenageava Orfeu. No refrão, o trecho marcante que ecoava na Marquês de Sapucaí era “Hoje o amor está no ar / vai conquistar seu coração”.

Vinte e três anos depois, no sábado, dia 12 de junho de 2021, data em que comemora-se o Dia dos Namorados, dois personagens que tem muito amor para espalhar, escrevem novas páginas na história da Viradouro.

Marcus Ferreira e Tarcisio Zanon até 2019 eram oponentes. O primeiro foi campeão na antiga Série A em 2017 pelo Império Serrano e o outro conseguiu o acesso para o Grupo Especial por duas vezes com a Estácio de Sá. Juntos, foram campeões pela Viradouro em 2020.

Como não poderia ser diferente, o casal foi forjado no carnaval. Em conversa com o site CARNAVALESCO, Tarcisio contou que antes de entrar na Estácio, estudou sobre todos carnavalescos que já haviam passado pela escola, incluindo Marcus, que havia feito 2011 e 2012 na escola do São Carlos.

Dupla foi campeã na Viradouro em 2020.

“Nós nos conhecemos através do carnaval. Sempre digo que a folia nos uniu. Eu tinha estudado um pouco do trabalho de todos carnavalescos que vieram antes de mim na Estácio, portanto conhecia o trabalho dele. Sempre nos admiramos enquanto artistas e acabamos nos conhecendo por meio dos eventos de carnaval, depois trocando mensagens elogiosas ao trabalho um do outro, a partir daí, foi acontecendo”, explica o artista.

Marcus completa afirmando que a carência de materiais nos barracões da Série A também causou aproximação entre os dois: “Na Série A disputávamos. Um ano eu ganhei e outro ele. Além disso, nos ajudávamos muito trocando materiais, lógico que com consentimento das diretorias que abraçavam tanto o meu projeto quanto o dele”.

Após alguns anos de sucessos e outros de insucessos na Série A, veio em 2019 o convite da diretoria da Unidos do Viradouro para que o casal assinasse o desfile do próximo ano da agremiação. Segundo Marcus, já havia um pedido de admiradores do trabalho de ambos para que se unissem também no carnaval, mas nada concreto.

“Em 2019 quando tivemos a oportunidade da Viradouro de nos unir profissionalmente esse casamento se deu ainda mais, já que também passamos a dividir criações. Era algo que o público assistia nossos trabalhos na série A já pedia, para que nos uníssemos artisticamente. Nós também já tínhamos esse caminho em mente. Antes de mais nada, amamos o carnaval e sempre o estudamos juntos em nossas casas em horários de folga. Pra gente foi algo assertivo porque sempre primamos pelo melhor de nossos trabalhos, resultando numa boa aceitação. A Viradouro nos deu a oportunidade e nós caímos de cabeças nas criações. Vivemos ainda mais juntos por conta do trabalho”.

Apesar de terem construídos enredos que seguiam outras linhas narrativas nas escolas onde passaram, Marcus explica que a característica do fator emoção permeia os desfiles de ambos. E, na Viradouro em 2020, não foi diferente.

“Na Série A tínhamos uma diferença muito grande porque não se construía um carnaval totalmente do 0. As vezes ficávamos presos a questões administrativas desde as escolhas dos enredos. Receber o convite da vice-campeã de 2019 foi consagrador para nós dois. Pela trajetória que tivemos na Série A, de campeonatos e de muita luta, nós já esperávamos uma oportunidade, mas não imaginávamos que ela viria ainda em 2020. Quando veio, agarramos de todas as formas. Foi o primeiro encontro artístico nosso com a escola e colocamos em prática tudo o que acreditamos para o carnaval. E que será nossa marca para os próximos anos. Enredos assertivos, olhando para histórias que procuramos defender, com toque de emoção. Nós fazíamos isso nas escolas que passamos, eu um pouco mais porque o Tarcisio não teve tantas oportunidades de autorais. Mas todos puderam ver isso no Cristo Negro que ele fez em 2019. Gostamos muito de estudar a cultura popular e aprender sobre as histórias e personagens desconhecidos. Somos militantes de grandes histórias”.

Assim como em todas as camadas da sociedade, o carnaval também possui os frequentadores conservadores. Que não toleram erroneamente a orientação sexual alheia. Acerca disso, Tarcisio é firme em suas convicções e desabafa.

“Nós não vemos o carnaval como fundamento preconceituoso, racista e excludente. Até porque desde a pequena África o carnaval é construído por mãos pretas e abraça todas as questões. Estar nessa posição é de muita honra. Nós, que estamos dentro do carnaval, sabemos muito bem quem o constrói. São mãos homossexuais, negras, e de pessoas excluídas da sociedade que moldam os desfiles. O preconceito existe, é claro. Mas em algumas pessoas. E não na bandeira do carnaval como um todo. É preciso desconstruir esse pensamento. Estarmos nessa posição, de construir um carnaval, conquistar um campeonato, sendo um casal homossexual, levanta uma bandeira muito importante e temos o maior orgulho disso. Sabemos da responsabilidade exatamente de destruir qualquer pensamento que seja contra nossa classe, e das pessoas excluídas da sociedade. Torcemos para que em breve vejamos mais mulheres dentro do carnaval, por exemplo. Como carnavalescas, presidentes, mestres de bateria. A história foi moldada por elas, assim como mostrou nosso enredo das ganhadeiras”, finalizou o carnavalesco”

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