Na origem das rodas de samba os couros dos instrumentos eram esquentados pelo fogo. O calor afagava quem se reunia ao seu redor. Era o início, o prenúncio de festa. Esse fogo é o mesmo que encanta a humanidade há milênios, desperta encantamento e também causa medo. O fogo iluminava as noites de samba e agitava as sombras dos dançantes pela madrugada.

As noites de samba se perpetuaram, já não é mais preciso o fogo para esquentar os couros dos tambores e tamborins. É na cidade de São Paulo, a que o poeta Vinicius de Moraes chamou de túmulo do samba, onde o fogo fátuo dos campos-santos se espalharam pela cidade em várias esquinas. Era o G.R.C.E.S. Mocidade Alegre que fez Morada no bairro do Limão.

Para o ano de 2012, a escola atiçava seu povo com dicas do enredo, assim como o fogo que teima em faiscar antes de se tornar labareda: “Nos meus olhos reluz a verdade… Veio de mim a coragem para um novo tempo… A inspiração para uma nova realidade ao ‘meu’ povo!!!”.

Como uma candeia que ilumina nosso caminho, o enredo do carnaval era traçado nas cabeças dos carnavalescos Sidnei França e Márcio Gonçalves, de onde surgiu o enredo: “Ojuobá – No Céu, os Olhos o Rei… Na Terra, a Morada dos Milagres… No Coração, um Obá Muito Amado!”. A escola estava propondo uma homenagem ao escritor baiano Jorge Amado através da narrativa de um dos seus livros mais famosos: “Tenda dos Milagres”, que nos traz uma denúncia social.

As linhas da escrita de Sidnei França traçaram que um Ojuobá, filho de Xangô, clama por justiça ao povo negro, sendo atendido pela divindade com o fim da escravidão no Brasil. Mas quem seria Xangô? Xangô é o fogo e também é o trovão. Xangô é a divindade da justiça. É o rei da cidade de Oyó, que carrega consigo o seu Oxê (machado de dois gumes) em defesa de seus filhos que lhe pedem por justiça. Logo, um Ojuobá são os olhos de Xangô no Ayê (Terra).

Na cidade de Salvador de outrora ficou o preconceito aos negros e “de que adianta liberdade, sem igualdade?”. Xangô atende mais uma vez ao clamor de seu filho e faz da cidade um recanto da mestiçagem do povo e ilumina as ideias do escritor Jorge Amado. O autor de vários livros importantes à literatura brasileira escreve “Tenda dos Milagres”, que é um retrato da convivência da sociedade e do sincretismo religioso que era vivido na cidade de Salvador.

Jorge ganha reconhecimento por seus livros terem quebrado várias barreiras da intolerância. É no Ilê Opó Afonjá, terreiro (templo) do candomblé em Salvador, onde ele ganha um dos seus maiores reconhecimentos. Foi nesse terreiro que ele é consagrado como Obá de Xangô, por Mãe Senhora, importante sacerdotisa da religião do candomblé. Ser um Obá significa pertencer a uma das doze cadeiras concedidos aos amigos e protetores do Ilê (casa de candomblé). Salve o grande Obá!

Após o lançamento do enredo, cabia aos compositores a feitura do samba que seria o canto dos sambistas da Morada. Logo no início da disputa, um samba desceu na quadra como um trovão, se mostrando forte e encantador ao ser entoado pelas vozes. Como num rito de um barracão (templo) de Candomblé, as luzes se apagam, o som dos cantores cessam, a bateria continua e as vozes na escuridão vibram o samba. É a dança de Xangô com oberó (alguidar de barro) com fogo. É a chama da da justiça dançando ao som do trovão: “É fogo, é trovão, é justiça!”.

Era o nono dia do mês de Janeiro de 2012, o barracão das alegorias se envolve em fumaça preta. Era o fogo. Fogo da destruição? A escola tinha como endereço do local onde fazia suas alegorias e fantasias de baixo de um viaduto. Era necessário elencar o prejuízo, renovar as forças e retornar aos trabalhos. Faltava praticamente um mês para o carnaval. As esculturas dos orixás foram preservadas e usadas no carro “O sagrado e o profano na Bahia de Todos os Santos”, sendo o sinal de que havia esperança à entrega do trabalho finalizado na avenida. Elas não foram atingidas pelo fogo: “Ouça o clamor de Ojuobá!”. No dia 18 de fevereiro de 2012 chegou: “Lá vem ela pra deslumbrar a passarela!”.

Ao pedido que o cavaco sorrisse, Clóvis Pê e sua habilidade de empolgar a Morada, e o rufar dos tambores da Ritmo Puro, comandada pelo Mestre Sombra, evocaram o fogo que estava em cada componente. Os olhos de cada componente brilharam, como na escultura de Xangô do abre-alas. Os oxés foram erguidos, a luta era pela vitória, era uma Mocidade incorporada de guerreiros da Justiça.

Uma capa de livro poderia ser vista: a comissão de Obás, os guerreiros guardiões que pediam a Exú (orixá que abre os caminhos) foi representado na figura de Robério Theodoro – um dos representantes dos maiores legados da Mocidade – o grupo Miscigenação. Após a comissão, um pede-passagem com escultura de guerreiros com os escudos formavam a palavra OJUOBÁ. Por fim, a figura central do Xangô, no centro do abre-alas, com os olhos iluminados, fazia cada componente acreditar que o fogo não foi destruidor, mas renovador.

A Morada do Samba incendiou o Anhembi, o trovão em forma de samba de enredo contagiou as arquibancadas. Aline Oliveira, rainha de bateria, estreou com garbo e samba no pé. Adriana e Emerson, casal de porta-bandeira e mestre-sala, que estiveram presentes nos campeonatos de 2007 e 2009, vestiam o amor entre Xangô e Iansã – orixá dos raio – e, mais um ano, bailaram na avenida. Os demais casais de porta-bandeiras e mestre-salas vieram representando a relação do orixá com suas outras: Obá e Oxum. Essa última de extrema criatividade e representatividade.

As fantasias da Mocidade eram um encanto, havia um estudo de cores que seguia o cortejo, a escola começou com as cores do fogo: vermelho e amarelo, seguiu colorida ao tratar do orixá e, quando o enredo se encaminhou ao livro e à Bahia, a escola foi clareando e pincelando o branco em vários momentos. Terminou com o branco sendo dominante, assim como as pinturas de Carybé, pintor baiano dedicado à poética dos terreiros e amigo de Jorge Amado.

As alegorias foram o símbolo do trabalho após o incêndio: luta e dedicação da equipe de barracão. Havia uma alegoria com a escultura de um cágado, outro signo de Xangô, que parecia caminhar pela avenida; uma outra com representação do casario histórico de Salvador, um requinte. As esculturas dos orixás que sobreviveram ao fogo giravam no centro do carro, pareciam celebrar a superação da escola envoltos de uma linda ornamentação de seis mil rosas de tecido. Para finalizar o desfile, um carro em branco e prata trazia toda a essência do enredo: uma grande escultura representando Mãe Senhora entregando a Jorge Amado o título de Ojuobá do Ilê Axê Opo Afonjá.

Os comandos que ecoavam a cada ensaio e desfile: “a vitória vem da luta, a luta vem da força e a força da união”, sintetizou a Mocidade Alegre no ano de 2012. A Morada do samba purificada pelo fogo de Xangô sagrou-se campeã. Fez-se a justiça.

– Kaô Kabecilê! Obrigado, meu pai.

Ojuobá foi ouvido.

  • Meus agradecimentos aos depoimentos de Sidney França e Edilmara.

Autor: Reinaldo Alves, biblioteconomia/UFRJ, membro OBCAR/UFRJ.
Orientador: João Gustavo Melo, doutorando em Artes/UERJ, Pesquisador OBCAR/UFRJ.
Instagram: @obcar_ufrj

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