Você pode amar ou odiar a estética de Paulo Barros, mas não pode negar que ele é o artista que mais mudou o padrão dos desfiles depois da era Joãozinho Trinta. Ao completar 16 carnavais no Grupo Especial e voltar para a casa onde conquistou três de seus quatro títulos, Paulo Barros concedeu ao site CARNAVALESCO uma longa entrevista para a série ‘Entrevistão’.

O artista falou da conturbada saída da Viradouro e avaliou que faltou calma tanto dele quanto da escola para não desfazer o casamento de forma abrupta. Foi questionado por projetos que não deram certo, casos da Mocidade em 2015 e Vila Isabel em 2018 e derreteu-se ao falar da Portela: ‘É diferente de todas as outras’.

Você declarou recentemente que o samba da Unidos da Tijuca para 2020 é o mais bonito de sua trajetória no carnaval. Por que você acha isso?

“Não sei te responder. Não faço a menor ideia. Mas acho que é a partir de sentimento. É um samba que serve de uma maneira perfeita ao nosso desfile. Entendedor de samba todo mundo é. Eu não entendo nada, confesso. Falo que gosto do que eu ouço. Talvez seja o melhor samba da Tijuca comigo aqui na escola”.

Como esse tema de arquitetura e urbanismo aparecerá em termos de imagens? Monumentos? Construções?

“Esse enredo faz uma passagem na antiguidade. A história da arquitetura começa nesse momento. Minha carreira como carnavalesco começou observando o passado. Fernando Pinto, João 30, Rosa Magalhães, Renato Lage. Mas o foco do enredo é a cidade do Rio, a beleza. Falaremos de causas que o homem deixou de lado, preocupado sempre em criar sem pensar nas consequências. Tem aquecimento global, lixo, reciclagem. Hoje um projeto arquitetônico tem essas preocupações, para não agredir o meio-ambiente. Por isso aqui será a capital mundial da arquitetura. Aqui temos uma floresta dentro do espaço urbano. Praias, montanhas. Obviamente terminamos cantando um lugar melhor para se viver, fazendo um link com a favela, um local que sofre por conta do abandono”.

Tem uma pegada critica então?

“Não. Tocamos nesse ponto trazendo por que chegamos nele. É mais um alerta de consequências”.

Sua volta na Tijuca foi muito festejada. Você se considera um ídolo da escola?

“Não me considero nada. Sei que é um lugar onde tenho livre acesso, estou em casa, comecei aqui. A maioria das pessoas está aqui desde a minha primeira passagem. Talvez, o festejo venha dessas pessoas que eu já convivia. Se fossem outras pessoas provavelmente não haveria essa intimidade”.

O barracão da Tijuca está atrasado?

“Eu posso dizer que é um ano de dificuldade financeira, e todos nós sabemos. Esperamos que esse quadro seja revertido para o ano que vem. Estas fazendo um projeto dentro da realidade e para que dois, três dias antes estejamos aptos a desfilar. Se você olhar para o barracão da Tijuca você verá cinco ‘DNAs’. O DNA foi um carro que as pessoas olhavam para o barracão e diziam que não ia ficar pronto e já estava pronto. Dizem que o barracão da Tijuca está atrasado. Para mim está pronto. Esses comentários não ajudam, só atrapalham, criam expectativas negativas. Acho maldade, falta do que fazer. Convido essas pessoas a ajudar meia-hora por dia ao invés de ficarem disseminando besteira. Serão muito bem-vindas”.

É um carnaval à imagem e semelhança do estilo Paulo Barros?

“O DNA que eu digo é o conceito. Eles talvez fujam do conceito arquitetônico do carnaval. Isso tudo é decorrente de um projeto pensado na realidade. Não posso fazer extravagância sem lastro financeiro. É uma questão de administração. Não adianta fazer uma alegoria gigantesca e as outras serem capengas. A gente distribui essa verba igualmente para equilibrar”.

E a experiência no Anhembi, em uma escola de massa como os Gaviões da Fiel?

“Em São Paulo o regulamento é muito particular. Algumas pessoas o chamam de amarrado. A gente perde e ganha o carnaval na pasta. Semelhante ao livro abre-alas aqui. E é a verdade. Estou tendo reuniões infinitas para definir as nossas pastas. É ela que nos tira ponto. Ano passado vi escolas com desfiles impressionantes plasticamente e que desceram. Desceu por que então? Por causa da pasta. É uma cilada no sentido de você fazer uma defesa coerente”.

Como está sendo essa divisão entre Rio e São Paulo?

“Está sendo exaustivo. Vou toda semana, fico dois dias lá e três aqui. Não dá para se dedicar 100%. Tenho uma equipe lá. É uma experiência nova, um processo de execução diferente do meu. Há de haver paciência de lado a lado. E à distância é muito pior. Os mesmos problemas que tenho aqui têm lá. A verna em São Paulo é menor. Também fizemos um projeto baseado naquilo que temos. É matemática”.

O que você acha da participação dos carnavalescos no curso de jurados?

“Essa prática está voltando. Da última vez que eu fui acabaram com a presença dos carnavalescos. Acho que a culpa foi minha (risos)”.

Se você pudesse definir o projeto plástico da Tijuca em uma palavra, qual seria?

“Design. Por que arquitetura é design puro. O samba diz ‘curva-se o concreto’. Uma referência aos trabalhos de Niemeyer. Apaixonei-me tanto por essa frase que estou produzindo um carro da catedral de Brasília”.

Arquitetura pode parecer algo frio?

“Em 2004 fiz enredo sobre ciência em que diziam que seria uma pedra de gelo. Não existe enredo ruim. Existe ideia ruim. Você precisa ter a sacada em algo aparentemente distante do carnaval em folia. Alguns anos atrás criei polêmica brincando com alguns críticos de carnaval. Eu acho o pré-julgamento muito ruim. Não se pré-julga nada. Em 2012 bateram muito no enredo do iogurte, na Porto da Pedra. Na época eu disse que adoraria tirar leite de pedra. Curvar o concreto já é uma poesia por si”.

A saída da Viradouro deixou todos surpresos. O que aconteceu naquele momento?

“Ali faltou calma, dos dois lados. Faltou entendimento da escola e paciência de minha parte. Sou muito explosivo. Na hora os presidente jogaram algumas coisas, eu joguei outras. Acabou criando-se esse desentendimento. Mas um dos melhores momento da minha vida foi fazer aquele carnaval. O sentimento de carinho pela Viradouro permanece”.

E a Portela?

“A Portela é uma coisa pesada. O envolvimento que tive com eles foi muito forte. É claro que é uma escola diferente. Não vou dizer que sou um portelense nato, mas a minha passagem lá me marcou de verdade. Diziam que não daria certo. Mas é o que eu falo, as redes sociais possibilitam a qualquer um falar o que quer na hora que quer. A resposta veio na avenida”.

Como artista te entristece a situação calamitosa do Acesso?

“Isso tudo é muito sofrido para o artista. Mas acho que é uma regra para a vida. A união faz a diferença. Por que os presidentes, dirigentes não se unem? A gente vê um grupo de pessoas que brigam entre si, visando seus próprios interesses. Como o acesso vai crescer se não conseguem se entender? Aí culpam os governos. Não estou dizendo que o poder público não tem que participar, lógico que tem. Mas se o carnaval fosse de fato um business lucrativo não precisaria pedir nada. Os governos iriam querer participar. Olhem as grandes cidades do mundo que viraram potências turísticas. Nós temos o maior espetáculo da terra e não conseguimos fazer nada. Ficamos 364 dias no ócio. Quem aparece aqui fora do carnaval não tem um show, não tem nada. Não conseguimos criar um calendário anual? Gerar interesse das empresas? Tem alguma coisa errada. E para mim é essa falta de união”.

Que balanço você faz da sua carreira?

“Eu mereço um reconhecimento próprio para mim. A palavra carnavalesco para mim é uma questão superada. O meu entendimento do que faço é no aspecto de gestão. Quando vejo uma pessoa na curva, ouço que as pessoas comentam que dou sorte. É gestão, conhecimento, acompanhamento, conhecimento. Não estou dizendo que não pode dar errado. Eu tive um problema, em 2005, aqui na Tijuca. Dei uma ordem para que as pessoas só subissem no carro no Setor 1. O carro entraria sozinho. Chega um diretor baixa uma ordem, a coreógrafa aceitou, o carro não suportou e a direção quebrou. Quando chegou ao setor 3 uma gaiola despencou na frente do jurado, perdi um décimo e o carnaval. Eu não saio daquela curva enquanto não passa o último componente. Considero-me um cara trabalhador dentro de um projeto que domino cada parte. Eu gostaria de ter uns 10 irmãos gêmeos (risos)”.

A gestão de pessoas é o segredo de seu sucesso?

“Vou contar algo que aconteceu no desfile de 2019. Aquela alegoria do cemitério que tinha aquele moto descendo. O presidente Marcelo Calil me indagou sobre a possibilidade de a moto dar defeito. Aí eu disse que era um problema, de fato. Ele então comprou outra moto. Dentro da alegoria havia m local pra guardar as motos. Os mesmos sistemas de saída de fogo foram implementados nas duas. Testamos e ensaiamos até o erro, no caso de dar defeito. Cada uma das pessoas envolvidas sabia de suas responsabilidades. Se desse algum problema era só trocar a moto. Uma segunda pessoa substituiria. No fim do desfile perguntei se havia dado tudo certo. O técnico disse que a moto pifou e ela não foi trocada. Um procedimento que não levaria 40 segundos. Se você tem uma função dentro de um projeto e não o realiza é incompetência. É apenas isso”.

Temos visto o surgimento de uma nova geração de artistas. Deixa-te animado essa nova safra?

“Sim, pois estou doido para virar comentarista. Vou me vingar (risos). A nova geração precisa vir mesmo. O carnaval precisa de fôlego e ideias novas”.

Muitas pessoas criticaram bastante suas fantasias na Vila em 2018 por um excesso de efeitos. Você considera aquelas críticas justas?

“As fantasias serviram para o enredo. Ninguém é obrigado a vestir nada. Todas as pessoas sabiam de suas responsabilidades. Não atrapalhara o componente nem o desfile. Isso foi dito na época porque as pessoas gostam de criar culpados. Essas críticas não tem fundamento. Considero aquele desfile um dos meus grandes momento de criação e ninguém vai me tirar isso da cabeça. É um marco de transformação plástica. Fantasia de escola de samba é tudo igual. Tentei fazer algo diferente”.

Podemos esperar uma Tijuca fora do óbvio em 2020?

“Como transformar uma fantasia e design? É difícil. O julgamento para a leitura do figurino penaliza a gente. As nossas roupas serão explicadas através de outros elementos, que vocês verão a avenida”.

Outra polêmica foi no desfile da Mocidade de 2015, quando você nominou as alas. Qual era o objetivo ali?

“Aquelas plaquinhas eram perguntas. A minha intenção era instigar No fim do mundo você faria o quê? Você iria rezar? Cada um se questionava sobre o que faria no último dia. Vamos usar um artifício na Tijuca de 2020 para que as roupas se auto-expliquem”.

Dez anos depois, o que representa na sua vida ‘É Segredo’?

“Ele foi um divisor de águas de tudo. Eu estava voltando. Espero que esse ano seja um novo segredo”.

Por que tão poucas escolas vencem domingo?

“O campeão sai de segunda-feira por um motivo que não vou dizer senão eu fico desempregado. Mas eu sei sim”.

Tem algum xodó em relação à fantasia e alegoria para 2020?

“Eu nunca tenho esse xodó. Eu procuro criar coisas bem diferentes umas das outras nos meus desfiles. Posso repetir o sistema. Por exemplo: meu carro fala de lado e não de frente. Não é que eu não dê a importância para frente, mas minha cabeça funciona para os lados. Agora xodó eu não tenho”.

Como está sua participação no projeto da comissão de frente?

“A comissão faz parte de um projeto, que eu criei, então eu digo que ela também é minha. Não estou dizendo que o profissional que lá está não desenvolve seu trabalho. É algo pensado a quatro mãos. Às vezes eu não acerto é claro, sou humano. Criei uma expectativa em comissões no qual eu sou meu maior inimigo”.

Em algumas oportunidades não deu certo?

“Não deu. Faz parte. Na Vila em 2018, o equipamento não funcionou corretamente, ele não seria utilizado daquela maneira. Tive de mudar o elenco, fazer um tripé de última hora. Uma sucessão de erros. Tivemos que buscar solução. Faz parte também do trajeto de um desfile. Na Tijuca estamos com o projeto tudo caminhando bem. Pode ser que haja algo que eu precise mudar, mas fazemos estudos para que não aconteça”.

Você é um conhecedor da técnica de desfile. Essas mudanças no regulamento te preocupam?

“Regulamento é para ser obedecido. Se você tem menos tempo e para você tem de se organizar para passar. Já saiu há meses o regulamento”.

Os efeitos que você cria como surgem na sua cabeça?

“Adoraria ter uma gaveta com essas ideias. Não tenho infelizmente. Surge do enredo. Por exemplo: tenho em mente algumas coisas. Minha loucura era fazer um cemitério. Consegui fazer ano passado. Mas eu gostaria de ter uma biblioteca de ideias guardadas. Acho que o principal efeito é pensar no público. Essa é a mola propulsora do meu trabalho”.

Você acha que a linguagem do carnaval é muito amarrada?

“Eu venho quebrando esse conceito. Alegoria não precisa ser brilho, luxo, esculturas. O DNA me deu essa oportunidade. As pessoas olham meus carros antes de irem para avenida e acham feio. E eu concordo. É feio mesmo. Em 2012 aqui na Tijuca meu último carro eram três bolos. Forrei de preto, botei umas estrelas e um amigo me disse que era muito feio. Eu concordei com ele. O carro entrou no setor 1, saíram as pessoas vestidas de asa branca e o efeito causado fez esse amigo elogiar depois”.

Você pretende inovar nas roupas das porta-bandeiras?

“Nunca mais. Depois elas erram e botam a culpa em mim. Eu faço do jeito que elas desejam, geralmente com muito faisão. Tem uma história engraçada com o Marquinho e a Giovana. Cheguei aqui justamente no ano que eles chegaram. Ela me pediu uma roupa tradicional. Era em 2010. Ela ficou entre a comissão e o abre-alas, quase não foi notada. Foi assim em 2011 e 2012. Em 2013 ela pediu uma roupa diferente. Criei uma roupa toda negra que mudava de cor através do led. Ela foi uma grande parceira. Mas em outras escolas quando dava errado elas botaram na minha conta”.

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