Por Pedro Migão

Lembranças, muitas vezes, ficam nas memórias. Mas, se não são registradas, se perdem.

O fenômeno das escolas de samba cariocas tem, em números redondos, 90 anos. Desde a ideia do jornalista Mário Filho (sim, o mesmo que dá nome ao Maracanã) de criar um “concurso de samba” a fim de preencher o período do ano sem futebol em seu jornal “Mundo Sportivo”, décadas e anos e noites de desfiles se passaram.

Um parêntese se faz importante, aqui: o leitor pode se perguntar se, com o desfile tendo aproximadamente 90 anos, há escolas mais antigas que isso. Este processo é fluido, não estanque, ainda mais em época onde o samba fazia a transição de algo perseguido pela Polícia, coisa de “vadiagem”, para algo aceito socialmente e, até, sendo utilizada como forma de legitimação perante à população por parte do poder constituído.

Então, manifestações carnavalescas embriões de escolas de samba já existiam antes mesmo das escolas se definirem como tal. Os sambas do Estácio, de Oswaldo Cruz e da Mangueira são anteriores à Deixa Falar (depois Unidos de São Carlos, depois Estácio de Sá), à Portela e à Mangueira enquanto agremiações consolidadas e estruturadas.

As agremiações atravessaram muitos tempos nebulosos, mas sempre resistiram. Não pararam em tempos de guerra, mas a Portela era imparável e foi heptacampeã. Atravessaram as tensões políticas dos Anos 60 e 70, em sua maioria adesistas, em outras subvertendo o sistema contando a história do negro e de seus heróis – alô Salgueiro!

Na década de 80, com a redemocratização, a liberdade também marca de forma generalizada o cotidiano da Sapucaí. Em um novo palco, desenhado e construído em tempo recorde.

Mas também a década de 80 marcaria o início de uma era. Em 1985 o Império Serrano veio com o enredo “Samba, Suor e Cerveja, o Combustível da Ilusão”, sobre a cerveja e patrocinado por uma marca ainda na ativa. A década de 90 e a primeira do novo milênio trouxeram uma miríade de enredos deste naipe, desde “CEPs” até coisas como homenagem a shopping center ou a empresas de aviação – neste caso, duas no mesmo ano.

Curiosamente, o enredo que marca o fim desta era de enredos patrocinados é o mais emblemático destes: por R$4 milhões a Unidos do Porto da Pedra cantou as virtudes do iogurte, em samba enredo que, segundo os autores Cláudio Russo e André Diniz, veio com uma série de expressões que necessitavam estar na composição que foi à avenida.

A escola acabou rebaixada – e pensar que este enredo por muito pouco não parou na Portela…

De lá para cá, a retração dos patrocinadores devido à crise econômica (especialmente, mas não somente) trouxe uma arejada nos enredos, que comandaram um forte renascimento do samba de enredo. Hoje, temos composições que não ficam nada a dever em qualidade a composições inolvidáveis dos tempos de outrora.

O leitor pode ver que, em cerca de 500 palavras, contei quase um século de história. Mas, claramente, isso não é suficiente.

Mais que isso: as histórias e, especialmente as estórias do carnaval e das escolas de samba estão se perdendo. Personagens fundamentais da história estão morrendo e levando para o túmulo todo o conhecimento adquirido e, não só isto, a memória da festa.

Neste ano sem carnaval, alguns abnegados estão se esforçando para registrar em vídeos, lives e podcasts um pouco que seja destas memórias. Histórias como, por exemplo, da Águia Redentora, que misturou em uma única alegoria o sagrado e o profano, o símbolo da cidade e o da Portela.

O ano de 2021 marcará o primeiro desde 1932 sem o desfile oficial. Em 1952 não houve julgamento devido à chuva (e, reza a lenda, a uma manobra do Império Serrano), mas houve o desfile oficial. No ano seguinte, inclusive, a Portela esquentou a garganta e a bateria com um samba que era claramente uma alusão ao julgamento invalidado.

Com isso, quando formos pensar no que foi o ano de 2021 para as escolas de samba cariocas, nos lembraremos de todos estes esforços de registro dos tempos passados. As lives, os vídeos, os podcasts, os futuros livros (ao menos dois estão em gestação) irão nos contar não somente as memórias dos carnavais vividos, mas também a do carnaval que não ocorreu. E evitar que as histórias e estórias continuem a ir para o túmulo sem serem registradas – alô, você!

Também podemos pensar em 2021 como um ano de reflexão. Critérios de julgamento, critérios de governança, a inserção das agremiações em suas comunidades… As escolas só resistirão se deixarem de existir em função dos 65 minutos de desfile e pensarem como um verdadeiro clube comunitário, aglutinador de uma comunidade os 365 dias do ano.

Histórias resgatadas, estruturas pensadas… Há muito sendo feito e a se fazer.

No final tudo vai passar e, assim, poderemos todos vacinados voltar à Sapucaí ano que vem e brindar o retorno da festa – logicamente, com uma boa IPA.

Pedro Migão é economista, dono do canal de YouTube dedicado às memórias do carnaval Ouro de Tolo e membro do Conselho Fiscal da Portela
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