Por Sérgio Almeida Firmino

Roberto DaMatta concentra excelentes reflexões em seu livro “Carnavais: Malandros e Heróis”, que trata de uma viva atenção sobre a sociedade brasileira e o que torna a sociedade brasileira diferente e única. O antropólogo explica com requintes de detalhes os vários aspectos e tendências, procedimentos e seus dilemas. Com um olhar crítico e aguçado, o autor de “Ensaios de Antropologia Estrutural” se debruça de forma acadêmica, provando sua capacidade intelectual para discutir os temas que serão abordados neste artigo.

Com efeito, segundo DaMatta, o Carnaval é uma criação social, que reflete aspectos mais profundos e básicos da nossa sociedade, que encontrou no Carnaval meios de apresentar realidades sociais e culturais em meio às rotinas perversas e complicadas do cotidiano.

De fato, precisamos do Carnaval. Não exaltar esse fenômeno com todas as nuances de suas manifestações – escolas de samba, maculelê, jongo, Boi Pintadinho, blocos de enredo, blocos de arrastão, bandas, frevo, Grandes Sociedades, marcha rancho -, enfim, variações regionais de riqueza cultural universal, incomensurável, seria como tentar destruir aos poucos a nossa própria essência de ser brasileiro.

O fenômeno cultural e social Carnaval, em especial as escolas de samba, precisa ser estudado (peço ao leitor que acesse Carnavalesco e leia “Uma Prosa sobre a Origem do Carnaval e a Importância das Escolas de Samba para o Rio de Janeiro”).

Ao estudar sobre o tema, torna-se menos difícil entender alguns contextos importantes. Se o Carnaval brasileiro, com suas escolas de samba, traduz a essência da nossa sociedade e o que é mais belo do ponto de vista cultural, social e econômico, há de se indagar: porque é tão combatido? É um bem nacional, diante do qual, infelizmente, vez ou outra, nos deparamos com certa ignorância cultural por parte de alguns gestores públicos, relutantes em aceitar o que somos e o que possuímos de mais belo. De fato, tentam destruir o que criamos enquanto cultura original, verdadeira e inata de um povo.

Este ano de 2021 é muito importante para a historiografia das escolas de samba, eternizadas noventa anos atrás no momento em que o compositor Ismael Silva atribuiu esse nome a esse tipo de agremiação e manifestação cultural, que, desde então, causa perplexidade pela grandeza e simplicidade que a expressão representa.

DaMatta é importante para ajudar a definir a importância do Carnaval, assim como a psicanalista e mestre em Psicologia Positiva Universidade da Pensilvânia (EUA), Drª. Flora Victória, que estudou a ausência do Carnaval. Sem os festejos do Carnaval em 2021, não houve a pausa em meio a labuta e as preocupações diárias, assevera a pesquisadora, ocasionando problemas de difícil análise clínica e psicológica em decorrência do ineditismo dessa ausência.

Desde o século XVII o Carnaval tem funcionado também como uma válvula de escape. O cancelamento da folia, infelizmente inevitável por conta da pandemia do novo coronavírus, que já vitimou mais de 275 mil pessoas no Brasil, pode significar problemas clínicos psíquicos de relevância no futuro.

As escolas de samba protagonizam, desde sua aparição, movimentos especiais de realização popular. Do simples cortejo à frente da casa de Tia Ciata, na Praça XI, até o exuberante espetáculo de dança, música, cores e muita criatividade na avenida Marquês de Sapucaí, temos um século de densa história. O que, no passado, fazia parte de um congraçamento de comunidades de samba e fantasias simplórias, tornou-se fonte de interesse de pessoas e grupos visionários e, de fato, amantes incondicionais do Carnaval.

Paira a pergunta no ar: se a chamada “contravenção” – ou melhor, os “contraventores” – não vislumbrassem os desfiles das escolas de samba; ganho e prazer, existiriam agremiações do mesmo nível das atuais? Melhor deixar esta resposta para um próximo artigo, no qual poderemos entrar na intimidade de alguns patronos, histórias, momentos inusitados e comentar sobre suas escolas de samba e seu amor incondicional ao Carnaval, além de, quem sabe, fazer revelações pouco lidas nos jornais, ou assistidas em documentários de duvidosa credibilidade.

A LIESA, fundada em julho de 1984, formou um grupo forte, com grandes agremiações, descontentes com a Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. A formação de ligas e associações não diminuiu a grandeza dos espetáculos e dos desfiles das escolas de samba, muito pelo contrário.

A disputa acirrada entre as escolas tornou-se o ponto alto dos desfiles. Os patrocinadores principais tornaram-se pontos de relevância para as agremiações, fortalecidas pelos seus investimentos convertidos em apresentações recheadas de criatividade e beleza a cada ano na Passarela do Samba. A união desses atores foi legitimada pelas ligas.

A ação de formar lideranças do Carnaval advém do ditado popular “a união faz a força”. De fato, os resultados financeiros são extraordinários. Se não houvesse lucro, talvez não existiriam escolas de samba, pelo menos não como as vemos atualmente. Com efeito, esse quadro é muito positivo.

O Carnaval observado pelo antropólogo DaMatta também se transformou em fonte de renda e trabalho criativo ensinado por gente especializada. Nasceram e proliferaram mestres, junto às escolas de samba, profissionais habilidosos, formadores de opinião, jovens de sensibilidade laborativa extremamente aguçada. A cadeia produtiva da indústria do Carnaval deve muito aos precursores e aos seus patronos, deve muito à Tia Ciata, que se sentava à beira da calçada para assistir os cortejos do Carnaval e ajudou a construir esta indústria do entretenimento para o futuro.

O Carnaval não é apenas carioca. Moldado de forma inteligente à teia produtiva fluminense no segmento do Carnaval, está presente nos 92 municípios do estado do Rio de Janeiro, que possui uma riqueza imensa e pouco explorada por seus políticos. Esses políticos sempre visitam o segmento do Carnaval nos dias que antecedem os pleitos do escrutínio, mas não retornam para construir uma parceria saudável e rentável para os seus concidadãos, possibilitando a criação de um ciclo virtuoso em qualquer cidade fluminense.

Diante disso, é oportuno se pensar na criação de Comissões Municipais de Carnaval, uma Comissão Estadual de Carnaval, além de Fundos Municipais Setoriais de Carnaval e o Fundo Estadual Setorial do Carnaval. A Lei nesse caso já está votada, em 07 de julho de 2015 e institui o Sistema Estadual de Cultura, facilitando a criação de fundos setoriais estaduais. No artigo 42 da mesma Lei há possibilidade de o gestor criar o Fundo Setorial do Carnaval.

A ausência ou pífia participação do poder público no segmento do Carnaval forçou a idealização de ações internas, como a criação de grupos de empresários e conhecedores de Carnaval e Escolas de Samba.

A LIESA, LIERJ, LIESB e ACAS, por exemplo, são a prova viva da forma como essas lideranças criaram, na capital, possibilidades para estabelecer autossustentabilidade e manter uma relação de entrosamento com o poder público. A Liesa desenvolveu com habilidade uma excelência na realização dos desfiles, conferindo à instituição a tarefa de organizar esse evento e de administrar a Cidade do Samba na zona portuária do Rio a partir de 2005.

Sem embargo, não apenas as escolas de samba saltaram de simples e humildes desfiles para exibições espetaculares, mas também as organizações populares de Carnaval de rua têm seu lugar, com a criação da famosa Sebastiana ou Folia Carioca. Essas manifestações culturais aprenderam a captar recursos para sua realização e a iniciativa privada, por sua vez, entendeu que Carnaval de rua também é um bom negócio. O mesmo vale para as emissoras de rádio e televisão, que realizam transmissões e negociam seus produtos a partir da exibição do Carnaval para o mundo todo.

Com efeito, ainda falta uma atenção especial para o Carnaval dos outros municípios. As demais 91 cidades do estado do Rio de Janeiro possuem uma riqueza pouco explorada pelos seus governantes, pela mídia e, de certa forma, por seus conterrâneos. Lideranças de Carnaval em todo o estado traçam o mesmo caminho da LIESA: organização, criatividade e algum apoio das Prefeituras. Essas instituições conseguiram respeito na qualidade cultural e popular de seus movimentos de inovação no interior do estado.

O cidadão natural desses municípios tem mais uma opção para assistir à folia ao vivo e a cores, como também participar dos festejos do Carnaval em sua cidade natal. Haja vista, o Carnaval de Nova Friburgo, Petrópolis, Campos dos Goytacazes, Angra dos Reis, São João da Barra, Nova Iguaçu, Cabo Frio, Maricá, Volta Redonda e Niterói. Por sua vez, lideranças do Carnaval nos municípios de Itaboraí e Teresópolis – esta última sem desfile de escolas de samba há mais de dez anos – estão trabalhando junto às autoridades locais para entrar na lista das ligas que realizam desfiles dessas agremiações e de outros movimentos culturais populares do Carnaval nesses municípios.

O Carnaval do interior reproduz, como uma mágica criativa, tendências e tradições pouco apreciadas pela sociedade fluminense e menos ainda pelos gestores públicos, magnetizados pelo esplendor dos desfiles das escolas de samba da capital. Infelizmente, atentam apenas para a Marquês de Sapucaí, cujos desfiles são, de fato, grandiosos, mas podem ser reverberados para outras regiões do estado, confortando seus concidadãos e os turistas, ávidos por um Carnaval de qualidade e gastos módicos. Os desfiles da Intendente de Magalhães deveriam ser mais explorados pelo poder público e empresários da região, em cujas imediações hotéis, pousadas, bares e restaurantes deveriam disputar espaço.

As 13 cidades da Baixada Fluminense somam uma população de mais de quatro milhões de pessoas, equivalente à de todo o Uruguai. Ao seu entorno adornam empresas de grande porte, capazes de sustentar tanto a construção de um Sambódromo como de fábricas ou indústrias de Carnaval, que poderiam abrigar as escolas de samba da região e despertar novamente as maravilhas culturais lá adormecidas há tantos anos. Caso o leitor ache improvável essa visão, assista aos desfiles do GRES Grande Rio, de Duque de Caxias ou do GRES Beija-Flor de Nilópolis, ou mesmo das 22 escolas de samba registradas de Nova Iguaçu. Os cidadãos da região teriam entretenimento próximo, o turismo fortalecido, além da rede hoteleira e do comércio em geral, como restaurantes, bares e demais serviços pungentes, com a receita muito bem-vinda para os municípios.

Outro espaço pouco explorado, diante da falta de interesse do gestor público, é a zona oeste da capital. Bandas, Blocos de Enredo, Blocos de Arrastão e outras manifestações de samba e Carnaval podem provocar qualquer tradicional liderança de blocos e bandas da cidade, pela sua criatividade e grandeza.

As lideranças de Carnaval dos municípios, inclusive da capital, acabam de criar a Federação da Indústria Criativa Cultural do Carnaval do Estado do Rio de Janeiro (FICCCERJ). Não se trata de uma liga, tampouco agremiação. Ela é uma instituição, que realiza a união das lideranças do Carnaval de todo o estado do Rio de Janeiro. Mesmo para as lideranças que ainda não promovem os desfiles de escolas de samba, como em Teresópolis, que luta para retomar as apresentações de suas agremiações, Magé e Volta Redonda, todas elas tendo deixado seu legado glorioso no samba com a rica história dessas cidades e seu passado muito especial. Felizmente, a partir da criação da FICCCERJ, quase tudo será possível realizar.

A Federação funcionará como uma plataforma de desenvolvimento econômico às indústrias do Carnaval e dará apoio às escolas de samba e ao Carnaval principalmente do interior do estado. Sua força reside no congraçamento e união de todas as lideranças de Carnaval do estado do Rio de Janeiro.

* Sérgio Almeida Firmino é assessor de economia criativa do Carnaval da Secretaria Estadual de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro e diretor do Instituto Cravo Albin

Referências:

DaMatta, Roberto: Carnavais, Malandros e Heróis: Para uma Sociologia do Dilema Brasileiro. Rio de Janeiro: Zahar (1979; 2* edição. 1980

DaMatta, Roberto: Ensaios de Antropologia Estrutural. Petrópolis: Vozes (1973; 2* edição, 1977)

Agradecimentos: Economista Marcel G. Ballassiano e ao jornalista Flávio Amaral

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