Por Sérgio Almeida Firmino

Mikhail Bakhtin (1895-1975) definiu, em sua obra “A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: Contexto de François Rabelais (1494-1553), o caráter popular e folclórico das festas carnavalescas, que nasceram na época do Pré-Romantismo. Com efeito, os românticos tentaram excluir a espontaneidade e a riqueza das manifestações em praça pública. Também caracterizavam o humor e o riso condições reprováveis, mesmo após especialistas do folclore e da historia literária tomarem o estudo do riso e do humor, do ponto de vista cultural histórico ou literário.

O riso, portanto, ocupa as obras populares líricas e épicas. Bakhtin asseverou, no entanto, a expansão da importância das festas populares na Idade Média e no Renascimento, tempos nos quais eram bastante consideradas. Dentro dessa diversidade, formas infinitas de manifestação do riso e do humor, severamente reprovados pelas religiões, nasciam naturalmente no contexto do convívio humano, opondo-se, na cultura oficial, ao tom sério religioso e feudal daquela época.

Os festejos poderiam estar relacionados ao “risus paschallis”, nas festas agrícolas, como na “vindima” celebrada também nas Cidades. A vida cotidiana era muito representada por meio do Carnaval. Com efeito, sempre presente, o riso, a sátira, a comicidade, o humor em praça pública, onde eram escolhidos “bufões” e “bobos” que assistiam as cerimônias sérias, parodiando a presença dos reis e rainhas.

Segundo Bakhtin, as festas públicas carnavalescas, os ritos e cultos especiais, os bufões, os tolos, gigantes, anões, os monstros e palhaços de diversos estilos e categorias possuem, dessa forma, estilo próprio, beleza, cores, comicidade, criatividade de uma cultura cômica popular, incidindo diretamente sobre a cultura carnavalesca.

O riso carnavalesco era esperado pelo cidadão medieval para criticar, satirizar a realeza, a nobreza e até mesmo a Igreja. Tudo se podia reagir no Carnaval – ou melhor, no riso carnavalesco -, que era, em primeiro lugar, patrimônio do povo, certamente, inerente à própria natureza do período festivo. No riso carnavalesco todos riem, o riso é geral, é a desconstrução universal, algo que atinge a todas as pessoas.

Bakhtin atribui a François Rabelais (1494-1553) o posto de grande porta-voz do riso carnavalesco popular na literatura mundial. Não se deve confundir comicidade e prática do riso, como sendo sua prática vulgar, muito pelo contrário. A comicidade latina da Idade Média tem seu apogeu no Renascimento e nas obras como, por exemplo, “O Elogio da Loucura”, de Erasmo de Roterdã. O cuidado com o qual, célebres autores ocidentais, sustentaram a importância do Carnaval diante de suas obras causa certa surpresa e inquietação em se estudar o tema.

Os festejos do Carnaval na Idade Média, em conjunto com ritos e atos cômicos, ocuparam lugar muito importantes na vida do homem comum medieval. O evento nasce, portanto, da necessidade do homem de sorrir, alegrar-se e participar da criatividade que os eventos propiciavam.

O Carnaval era a própria vida, representada pela gente que ansiava pela liberdade de suas personagens. As interpretações sem cenário, sem palco, sem atores, sem espectadores. Tudo isso, não foi concebido para ser um espetáculo teatral, entretanto, o Carnaval para o cidadão da época era a sua segunda vida.

A festa compreendia a concentração de todos os ritos e espetáculos cômicos da Idade Média, de acordo com Bakhtin. As festas carnavalescas, assim como outros ritos, formavam um elo com as festas religiosas. No entanto, o Carnaval não foi concebido atrelado a qualquer manifestação, ou de qualquer fato da história litúrgica sagrada, até mesmo de nenhuma festa de santo.

O Carnaval abolia as relações hierárquicas que marcavam outras festas oficiais. Estas sim tinham por finalidade indicar as desigualdades sociais. Nos eventos oficiais – ou mesmo litúrgicas -as personagens apresentavam-se com suas insígnias e respectivos títulos; havia intenção em segregar, ao contrário das festas carnavalescas.

Durante o período festivo todos eram iguais. Reinava uma forma especial de contato, livre de barreiras sociais impostas pela severidade exigida daquela época. Com efeito, o Carnaval em melhor juízo criou maravilhosos hereges, formadores de opinião, filósofos, pensadores, intelectuais que utilizavam dos risos, verdadeiros caldeirões culturais, gigantescos redutos de conhecimento permitidos pela hermética Inquisição cristã ou mesmo pelos regimes políticos vigentes, somente naquele intervalo de tempo.

A própria Igreja adequou-se àquelas manifestações maravilhosas ao permitir que o povo extravasasse para receber, na Quaresma, todo alento e purificação pelos excessos cometidos. Aparentemente na visão de qualquer inquisidor, o folião medievo era um bufão, louco, alucinado, justificado seus atos, simplesmente, por relacionar-se ao tempo do Carnaval.

O riso popular é muito mencionado por Bakhtin, para quem os estudos sobre o riso levam o leitor a uma ambivalência entre sátira e riso, satisfazendo a alegria tão somente. A cultura cômica popular, as obras verbais- até hoje apresentadas no Carnaval alemão desenvolveu-se em legítima ousadia do que criticar: abusava-se da sátira, usava-se uma espécie de liberdade de expressão, fundamentalmente nos festejos carnavalescos medievos. A ambivalência do riso festivo também muito apresentada na literatura festiva e criativa, algo típico da Idade Média.

A duração das festas carnavalescas medievais, principalmente nas grandes cidades, chegava a três meses por ano. Daí a consciência de renovação e da alternância. A beleza da reconstrução é a chave de todo o processo do Carnaval. Há necessidade de nascer e morrer e renascer no próximo ano.

A simbologia carnavalesca com sua linguagem, forma, riqueza, originalidade e criatividade, atravessou tempos e mundos. Essa linguagem carnavalesca ganha enorme importância secular, viajando no tempo através de Erasmo de Roterdã (1466-1536), William Shakespeare (1564-1616), Miguel de Cervantes (1547-1616), Lope de Vega (1562-1635), entre outros de uma longa lista. Há necessidade imperiosa de trazer os nomes desses mestres, autores consagrados, que em suas obras enfatizaram passagens surpreendentes da presença ocidental, semi-religiosa, quase sempre política, satírica, que o Carnaval manifestava.

Com efeito, entenda-se Carnaval como talvez a única forma cidadã de protestar, de criticar sem ser punido pela severidade dos séculos V ao XVIII, protestos esses contra a alta dos impostos, a rigidez abusiva da Igreja, o trabalho exaustivo do campo, a pilhagem e a exploração por parte da nobreza, a corrupção.

Com efeito, o Carnaval em praça pública era usado naturalmente para estabelecer – intencionalmente ou não -uma derrubada temporária das barreiras hierárquicas entre as pessoas e a eliminação de certas regras e tabus vigentes da vida cotidiana. Era criado um tipo de comunicação ao mesmo tempo ideal e real entre as pessoas. Com efeito, a construção do Carnaval em praça pública na Idade Média, caracterizava-se pelas grosserias, expressões e palavras injuriosas, às vezes bastante longas e complicadas.

O que mais interessa neste contexto são as grosserias blasfematórias dirigidas às divindades. Essa ambivalente mudança de prática com relação ao uso das festas carnavalescas, usualmente aceitas e mesmo aos olhares de uma Inquisição rígida aos hereges, tinha no Carnaval certa atmosfera de liberdade de expressão. Talvez essa seja a razão do equívoco religioso em nomear o Carnaval como uma festa profana.

O Carnaval não é uma festividade pagã ou profana. O étimo dessas palavras nada tem a ver com a preciosidade historiográfica que envolve o Carnaval. Se profano é tudo que não pertence ao âmbito do sagrado ou que seja estranho, que não pertence à religião, não se aplica ao Carnaval. Não há nada mais religioso do que a construção de uma escola de samba, por exemplo, permeada por simbologias de religiões e doutrinas de matriz africana.

Desde sempre, os ritos do Carnaval estão totalmente ligados a religiões e crenças antigas. Com efeito, esse período é uma festa do camponês medievo, do aldeão, uma festa popular do povo, que trabalha com o suor no rosto, que habita um “pagus”, que vive para seu sustento no ambiente rural ou na aldeia rústica. Partindo dessa premissa etimológica, o Carnaval, pode ser caracterizado como festa pagã. Esses ajustamentos de linguagem, essas explicações são muito importantes para que possamos discutir os temas com conhecimento de causa. Não é raro autoridades, pessoas cultas, religiosos fervorosos, caracterizarem o Carnaval e os desfiles das Escolas de Samba como festas do “capeta”, diabólicas ou outras expressões grosseiras, tabuísticas.

Alguns desses absurdos devem merecer certa atenção, para que se possa defender o Carnaval de tentativas de minimização de uma manifestação cultural popular com argumentos errados, dos quais essas pessoas não sabem ou não podem explicar. Percebe-se nesses argumentos construções, infundadas, equivocadas, sem base, acrescidas de uma maldade incontrolável, em criar uma imagem ruim do Carnaval e dos desfiles das Escolas de Samba, em algo distorcido da sua refinada realidade, empoderada de enorme criatividade e beleza.

As Escolas de Samba são o ápice do refinamento criativo, são pequenas indústrias artísticas, que emergiram de dentro dos festejos carnavalescos do passado e da mistura étnica africana. São movimentos de raríssima beleza, acompanhados de especificidades sutis próprias. Ao se referir sobre o Carnaval brasileiro, há de se prestar muita atenção quando se for mencionar o que é uma Escola de Samba. Para o pesquisador cultural Haroldo Costa, “Escola de Samba é a melhor tradução do Brasil e do que é ser brasileiro, porque é o espaço mais democrático que existe, que pertence a todos e onde todos convivem com o mesmo objetivo, procurando na mesma tradição, algo que a Escola de Samba faz reviver, renascer com toda propriedade. A Escola de Samba é o retrato do Brasil”.

Com efeito, o Rio de Janeiro foi beneficiado culturalmente, impondo-se diante de outros lugares por sua densa historiografia cultural, da qual faz parte a Escola de Samba, com a riqueza de sua mistura étnica, pluralidade excêntrica, extravagante, infinitamente bela. Desde 1931 a expressão “Escola de Samba”, inventada pelo compositor Ismael Silva no bairro do Estácio, contagia o mundo.

Perguntei ao amigo Ricardo Cravo Albin se ele poderia definir o que é uma Escola de Samba. O brilhante pesquisador cultural rebateu com outro questionamento: “mas com qual viés? Formal, político, simbólico da música, dança e espírito carioca, investimento turístico? Minha lacônica e simplória resposta foi imediata: “tudo isso, meu amigo!”

Espero que os equívocos ou intenções em desconstruir o Carnaval e principalmente as Escolas de Samba, estejam com seus dias contados. Do ponto de vista econômico, o Carnaval já demonstrou números bastante interessantes e merecem a atenção dos governantes, empresários e de alguns céticos. É fonte geradora de recursos e desenvolvimento econômico para todas as regiões do Brasil. Se, na Idade Média, já possuía característica envolvida nas atividades de laboração e comemoração dos resultados de uma colheita farta, no século XXI movimenta bilhões de reais, que podem ser reverberados em políticas públicas para uma gestão de qualidade.

Essa magnífica indústria criativa cultural do Carnaval é uma realidade no presente e no futuro. O ciclo virtuoso entregue pelas Escolas de Samba é um universo pouco explorado. Elas podem ser configuradas como entidades culturais de especificidades voltadas para a criação, no entanto, são verdadeiras mega empresas em pronto estágio de desenvolvimento econômico, empregabilidade, comércio e exportação de espetáculos e seus produtos, com capacitação e inovações constantes.

Alteridade é uma palavra especial e deve ser ensinada a todas as pessoas e principalmente àquelas que cultuam religiões. A formação intelectual de um povo desenvolve-se quando se entende o outro, quando cada um se coloca no lugar do outro. Somente assim há o entendimento comum da convivência, mesmo sendo com crenças e culturas diferentes.

Não se deve sobrepujar ou mesmo tentar mudar o que o outro acredita, sente ou tem vontade de crer ou ser. A alteridade nos remete ao respeito ao outro e ao que ele pensa. As religiões, por exemplo, são muito importantes. Negar isso é perigoso, pois poderá nos levar a outro estágio. Ainda pior é não aceitar a cultura alheia, menosprezar ou tentar destruí-la. O contraste, a distinção, a diferença, a pluralidade têm qualidade virtuosa no desenvolvimento do ser humano. Haroldo Costa nos ensinou ao dizer: “(…) Escola de Samba é o espaço mais democrático que existe, onde todos convivem com o mesmo objetivo”.

Referências:
Bakhtin, Mikhail Mikhailovitch 1895-1975 A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais- tradução de Yara Frateschi Vieira – São Paulo: Editora de Universidade de Brasília.

1 Cultura-História – século XVI 2. Rabelais, François (1494-1553) Crítica e interpretação 3. Sátira- História e crítica I Título II Série

Agradecimento: Agradeço ao Jornalista Flávio Amaral pela revisão e atualização do Artigo.
Agradeço as orientações do economista Marcel G. Ballassiano

Sérgio Almeida Firmino é Assessor Especial da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa – Economia Criativa do Carnaval. Diretor do Instituto Cultural Cravo Albin. Fundador e ex– Diretor Executivo do Instituto Cultural Candonga.

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