Dando continuidade ao especial que visita os barracões das escolas de samba para o carnaval de 2019, o site CARNAVALESCO entrevistou o profissional da escola de samba Sociedade Rosas de Ouro. Responsável por todo o desenvolvimento do enredo, o carnavalesco André Machado segue para o seu terceiro carnaval na agremiação com o enredo autoral: “Viva Hayastan”, uma grande homenagem ao país europeu Armênia.

“O enredo do carnaval de 2019 da Rosas de Ouro vai falar sobre a história e cultura Armênia. Logo quando lançou nós tivemos a preocupação porque existe um certo preconceito com enredos considerados ‘CEP’. A Armênia tem uma cultura que as pessoas desconhecem, elas não sabem que lá foi o local onde a Arca de Noé ancorou. Foi também a primeira nação cristã, tem o alfabeto próprio, isso aguçou a minha vontade de fazer um enredo sobre”, ressalta.

André Machado expõe que ideia surgiu enquanto assistia programa de TV e defende que proposta não tem nenhum motivo financeiro.

“Estava no processo do carnaval de 2018, e assistindo ao documentário do Globo Repórter sobre a Armênia, me interessei pela cultura e trouxe a ideia pra escola. Nós tivemos a preocupação até no título do enredo, porque as pessoas iam achar logo de cara que o tema existe por questões financeiras, e não é. A Sociedade Rosas de Ouro tem parceria com a BESNI, e nem sabia que os donos são da Armênia. Pensei em colocar o título do enredo ‘Viva Hayastan’, que quer dizer ‘Viva Armênia’, e colocamos esse nome pra provocar a curiosidade das pessoas, de ir pesquisar e isso surtiu efeito. Antes de criticarem, elas procuraram saber o significado”, explica.

A Armênia tem uma extensa história, são mais de três séculos de existência. E sobre o processo de apuração, André responde que contou com uma ajuda de armênios para destacar os principais pontos.

“A gente fala de uma civilização que tem mais de três mil anos, e foi um desafio condensar essa história em cinco carros alegóricos e dezenove alas. Assim que tive a ideia do enredo, procurei a comunidade de Armênios no Brasil, localizada em Osasco. O secretário de cultura me ajudou muito com o processo de pesquisa, pegamos os pontos principais. Mesmo as pessoas não conhecendo a cultura do país, nós escrevemos de uma forma que ela consiga entender o enredo. Vocês vão ver uma escola muito fiel à história”.

Imagem de Seu Basílio estará presente no 5° carro alegórico

A última alegoria contará com uma surpresa emocionante aos sambistas apaixonados pela Rosas de Ouro. Isso porque a imagem de um dos fundadores da agremiação, Eduardo Basílio, estará presente abraçando o brasão do país homenageado. André revela segredo e afirma mesmo padrão nas cinco alegorias.

“A homenagem vai ser um ponto alto, inclusive foi a primeira alegoria a ser confeccionada. Eu priorizei porque as pessoas falam que o último carnaval da Rosas não foi tudo aquilo mas começou muito bacana, e foi piorando durante o desfile. Então comecei com o último pra gente terminar de uma forma bem legal, com o mesmo acabamento do abre-alas”.

Barracão para 2019 é o mais adiantado dos último três anos

A Rosas de Ouro sofreu nos últimos anos com o cronograma de barracões, onde retoques eram feitos momentos antes de entrar na avenida. O carnavalesco afirma que mais de 80% já está pronto e promete um grande desfile.

“Graças a Deus é o carnaval mais adiantado dos últimos três anos. Primeiro que a gente está voltando com o padrão Rosas de Ouro e segundo que esse enredo me possibilitou a mostrar uma cultura nova. Estou com uma equipe que trabalhou comigo em outras escolas e que não tive nos últimos três anos. Temos tudo pra fazer uma grande carnaval”.

Além dos imprevistos com alegorias, André Machado foi alvo de críticas na internet em relação ao seu trabalho na azul e rosa da zona norte. Ele comenta sobre problemas financeiros e assegura força total nos próximos anos.

“Eu sou muito criticado com os meus dois últimos carnavais, no primeiro não tanto porque a escola acabou ficando entre as campeãs. As pessoas costumam falar ‘cadê o padrão Rosas de Ouro’ e ‘cadê o padrão André Machado do Pérola Negra’. Todo mundo sabe da questão da crise, a escola teve muitos problemas nos carnavais passados e a gente procurou colocar todas as dívidas em dia pra poder voltar com a qualidade nesse ano e com força total em 2020”.

Conheça o desfile

1° SETOR

“Se a gente fosse seguir a ordem cronológica da Armênia, teríamos uma parte que não seria tão legal de contar, que é a história do genocídio que aconteceu em 1915. Não consigo imaginar como a gente iria contar uma parte tão triste, onde no desfile tem pessoas alegres, contentes, mandando beijo pra arquibancada e sambando. Então a gente colocou essa parte logo no inicio, até pra justificar a parte da vinda desse povo ao Brasil. Pra você ter uma ideia do tamanho disso, existem treze milhões de armênios no mundo, mas apenas três milhões moram lá, por isso esse povo está presente nos cinco continentes. Logo em seguida tem uma ala dizendo ‘apesar de tudo que eles sofreram, hoje eles estão presentes pra contar a história’, e a partir disso a gente começa a desenvolver o nosso enredo. O abre-alas vai falar do Éden. Não existe uma comprovação histórica de que o Éden foi na Armênia, mas vertentes da bíblia acreditam que sim. Vamos fazer uma referência ao paraíso, o dilúvio e a Arca de Noé. Logo em seguida tem alas que são os povos que formaram a Armênia. As baianas vão falar da Deusa Asterix, que por coincidência foi uma Deusa que distribuía rosas como símbolo do amor”.

2° SETOR

“A gente vai falar dos povos que começaram a invadir lá, que foram os povos assírios, os persas, gregos e os romanos. O carro vai representar o Hayk, que é o patriarca da Armênia, e Tigranes, que foi um grande rei que conseguiu estender o território. É como se os heróis tivessem sido representados por duas figuras, protegendo e defendendo a sua nação dos grandes invasores”.

3° SETOR

“Aqui a gente vai falar da chegada do cristianismo, pra quem não sabe foi São Judas Tadeu e São Bartolomeu que apresentou o cristianismo para os Armênios, mas como eles adoravam os Deuses pagãs, logo de início não foi aceito pela grande maioria. Depois entrou a figura de São Gregório, na época tinha partes que queria viver no paganismo e São Gregório não aceitava isso. Ele foi preso num poço, viveu por 14 anos. Nesse tempo apareceu 38 virgens que vieram de Roma, o rei se apaixonou por uma delas e ela não correspondia. O rei ficou muito doente, apaixonado, e o único jeito de se curar era soltando São Gregório. Ele foi solto e celebrou uma missa para o rei, onde foi curado. O rei pergunto para Gregório o que ele poderia fazer pra recompensar, ele respondeu que queria que a Armênia se tornasse um reino cristão, e à partir daquele momento todos se tornaram cristão. Existe algumas batalhas que também tiveram com os cristão presentes no setor. Existem muitos locais pagãos que viraram igrejas”.

4° SETOR

“Como a igreja patrocinou colégios, escolas e universidades, e como eles criaram um novo alfabeto próprio, houve um processo onde as pessoas tiveram mais acesso a cultura. Teve um movimento literário muito importante presente em uma ala, e logo atrás tem o nosso quarto carro que vai falar da cultura. Vamos prestar uma homenagem ao Charles Aznavour, que foi um grande cantor que morreu ano passado. Vamos falar de artesanato, música, comidas e também o alfabeto. Tem uma ave que é muito utilizado no alfabeto, as letras são desenvolvidas a partir desse pássaro. As alas que seguem falam da independência, que foi um fato muito importante. A gente fala do Xadrez, porque para os armênios é o esporte número um, as crianças desde pequenas são obrigadas a aprenderem a jogar”.

5°SETOR

“Vamos finalizar com o carnaval Armênio, que acontecesse na mesma data que o nosso, mas como lá está no inverno, as pessoas costumam usar roupas mais pesadas, mas existem máscaras e eles confeccionam bonecos. Como é uma nação extremamente cristã, eles pulam os quatros dias de folia e na quarta-feira de cinzas jogam o boneco no rio como renuncia do profano. O último carro é a figura do Seu Basílio como representante maior da nossa escola abraçando o brasão Armênio. Hoje onde fica a praça Armênia e a estação de metrô Armênia, era o local onde os sambistas se concentravam para desfilar na Tiradentes. Até isso indiretamente a Armênia tem uma ligação com nós, paulistanos. Faremos uma homenagem aos fundadores da escolas que desfilaram na Tiradentes. A gente decidiu fechar dessa maneira pra mostrar a alegria desse povo”.

Ficha Técnica

19 alas
5 alegorias
2.300 componentes
500 fantasias destinadas ao povo armênio

História do carnavalesco André Machado

“Eu sou carioca e cheguei aqui em São Paulo há 20 anos pra desenvolver o carnaval da Barroca Zona Sul, logo depois eu fui pra Imperador do Ipiranga, passei pela Nenê, Império de Casa Verde, Pérola Negra, X-9 Paulistana e há 3 anos estou no Rosas de Ouro. Eu sou formado em desenho de moda e estou no carnaval desde os 13 anos, onde ajudava os carnavalescos do Rio de Janeiro a desenvolver os seus projetos, como na Mangueira, Portela, Paraiso do Tuiuti. Mas me firmei mesmo aqui, constitui família e não fiz outra coisa além do carnaval. Eles sempre tiveram carinho com profissionais do Rio de Janeiro, e com isso eles fizeram eu acreditar que o meu sucesso seria em São Paulo. Estou muito contente e pretendo continuar a minha história como carnavalesco aqui”.

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