Por Diogo Cesar Sampaio

Localizado na região Sul Fluminense do estado do Rio de Janeiro, o Vale do Café corresponde a um conjunto de 15 municípios que, durante o século XIX, foram responsáveis por 75% da produção de café consumido no mundo. E até os dias de hoje, as fazendas e lavouras do grão, mesmo que de forma indireta, são grandes fontes de renda para região, através do turismo. Mas engana-se quem pensa que o Vale do Café vive apenas das glórias de seu passado. Atualmente, a região tem no agronegócio a sua válvula propulsora. É esse Vale do Café, antigo e atual, que o Império da Tijuca promete trazer para Sapucaí em 2019.

O enredo intitulado de “Império do Café, o Vale da Esperança” foi uma alternativa encontrada pelo carnavalesco Jorge Caribé e pela agremiação de viabilizar o carnaval da escola, em meio a forte crise que a festa do momo vive. A intenção, ao fazer essa escolha, era de conseguir patrocinadores que comprassem a ideia e, de alguma forma, dessem alguma contribuição financeira ou suporte ao desfile do Império da Tijuca.

“A ideia do enredo surgiu de um amigo, que é um diretor da escola. Ele tem um veículo que poderia levar a gente até lá para tentar negociar e conseguir algum tipo de patrocínio. Isso foi vistoriado e está sendo acompanhado, até hoje, pelo presidente Tê (Antônio Marcos Teles, popularmente conhecido como Tê) e pelo diretor de carnaval Ailton. Eles tem ido a todas as prefeituras para tentar algum tipo de patrocínio. E o que deu mais certo é eles dividiram os custos em cotas e mini cotas, porque ninguém mais tem dinheiro para esbanjar. Isto funciona da seguinte forma: Um prefeito, por exemplo, pegou uma ala de 60 pessoas e comprou as fantasias para trazer o pessoal de lá. Já outra prefeitura gostaria que tivesse um trem. Daí, ela bancou a escultura do trem. Graças a essa ajuda que não paramos e conseguimos tocar o nosso carnaval. Não teve nenhum corte de funcionário. Pra mim, está mais fácil que no ano passado. As coisas, por incrível que pareça, andaram com mais tranquilidade”.

Ao decidir falar sobre a região do Vale do Café, Caribé acaba por revisitar um trabalho recente seu. No ano de 2013, o carnavalesco assinou na União de Jacarepaguá, também pela Série A, um desfile em homenagem a cidade de Vassouras, um dos principais municípios que formam o Vale.

“Existem algumas semelhanças entre o enredo desse ano, e o que eu fiz em 2013. Até porque, Vassouras está dentro do Vale do Café. Assim como Mendes, Valença… Então, subentende-se que é uma sequência de fazendas e de produtores. O diferencial é que são escolas completamente diferentes. Eu fiz em 2013 na União de Jacarepaguá, escola que estou como carnavalesco lá até hoje. Era uma escola da antiga Série B, que desfilava na terça de carnaval. Aí juntaram o grupo B com o A, e fizeram a Série A na sexta e no sábado. Inicialmente, era pra ser um carnaval médio e passamos para um grupo gigantesco, fora da nossa realidade, e conseguimos sobreviver e ficar no grupo. A diferença é que agora estou fazendo no Império da Tijuca, que é uma escola especial e que tem outra estrutura. Naquela época, eu fiz as alegorias num terreno a céu aberto, debaixo de uma lona de circo. Hoje faço num barracão atrás do sambódromo. A estrutura é muito diferente, a realidade é outra. Os componentes já estão acostumados a fazer grandes desfiles, o uso de materiais também mudou muito. Em relação a temática, realmente é muito parecido. E dá pra fazer mais uns dois ou três enredos do Vale ainda, pois tem muita história para contar”.

Segundo Jorge Caribé, o caráter histórico do enredo, se fará presente em boa parte do desfile, começando pela abertura da escola. É nesse início que o Império da Tijuca trará referências ao trabalho escravo, que foi pilar da produção de café na região. Com isso, mais uma vez a verde e branco do Morro da Formiga explora suas raízes, fortemente relacionadas às temáticas negras.

E se não bastasse à identificação da escola com a questão negra, também tem a do carnavalesco com tema. Ao longo de toda sua carreira, Jorge Caribé desenvolveu uma lista de desfiles que se utilizaram da estética e/ou da temática africana, principalmente ligada à religiosidade. Por isso, para Caribé, é sempre um trunfo falar do negro e da sua história.

“Ele é um enredo histórico. E todo mundo que estuda história, aprende o que é o Vale do Café. Todos sabem da minha loucura de fazer enredo com temática africana. E ao fazer as pesquisas para o desenvolvimento do enredo, descobri uma triste parte da história do Vale, em que os negros que vieram da África sequestrados, vieram mais de 300 mil como escravos só para o Vale do Café. A minha crença, religião e história de vida, além do que eu prático no dia a dia, é sequência da história do negro. Eu sou do candomblé e todo mundo sabe. Sou babalorixá, que tem uma casa religiosa. Sabendo que na África não tem candomblé, pois é algo tipicamente brasileiro, é saber que tudo isso veio desses 300 mil escravos. Quando se fala em negro, todo mundo pensa em Salvador, Bahia ou até Minas. Eu jamais podia imaginar que, no Rio de Janeiro, teria essa quantidade gigantesca de escravo para plantar café. É a parte que mais gosto do enredo”.

Já quando o assunto são os pontos fortes do Império da Tijuca para 2019, eles vão além da identidade negra, presente no enredo. E durante a conversa com a reportagem do site CARNAVALESCO, Caribé elencou alguns dos destaques, tanto em seu trabalho no barracão, como na escola como um todo:

“Para o meu gosto, um ponto forte em 2019 é a parte que fala de negros. O abre-alas é onde jogamos todas as fichas da escola. Eu acho que ele será o grande ponto alto da escola. Mas esse só um, entre vários. Nós temos uma comissão de frente maravilhosa que é feita pelo Scapin (Júnior Scapin, coreógrafo), temos um casal que a roupa está pronta, temos uma porta-bandeira de altíssimo nível que é a Gleice Simpatia, além do outro grande ponto alto que é a comunidade da Formiga. Temos também a bateria que ensaia o ano todo, a ala de baianas, passistas que vão até fantasiadas para o ensaio de rua… O Império é uma escola de raiz. Teremos mais um ano a Selminha Sorriso como destaque do abre-alas. Teremos a presença da mãe do Cazuza, que estudou na Universidade de Vassouras, que é uma das apoiadoras do enredo”.

‘Iremos brigar com quem acha que vai ser campeã’, declara Caribé

Indo para o seu segundo desfile a frente da escola, Jorge Caribé acredita que o carnaval de 2019 pode representar uma virada para o Império da Tijuca, que segundo o artista, até hoje, paga contas e dívidas referentes à passagem pelo Especial em 2014. Para o carnavalesco, o atual trabalho de barracão é superior ao que realizou em 2018, além de já ver uma estrutura interna maior esse ano.

“Estou no meu segundo carnaval aqui, já conheço melhor as pessoas, sei onde posso ir, falar e fazer. Eu me sinto mais a vontade por ter um carnaval mais sólido do que tinha em 2018. Ano passado não tínhamos dinheiro. A escola ainda está tentando se estruturar desde o rebaixamento em 2014. Ano passado, eu fiz as alegorias com muito material reciclado e alternativo. Esse ano foi mais fácil, porque não ficamos esperando nada. Eu e minha equipe começamos a arrumar adereços e montar, sem esperar um milagre. Antes nós éramos os irmãos pobres e íamos aos irmãos ricos. Agora não tem mais rico. Eles são os pobres e nós os miseráveis. E como nesse grupo não temos nenhuma escola com padrinho, não que seja contra, sou louco pra chegar um padrinho aqui, mas, como todas as 13 estão comungando do mesmo prato, da mesma bacia das almas, se não errar, eu acho que iremos brigar com quem acha que vai ser campeã. Aqui é o Império da Tijuca. Não é escola que vai catar componente, em cima da hora, para conseguir desfilar. Eu acho que, mesmo com toda a dificuldade, a surpresa será grande”.

E em meio a todas as dificuldades, oriundas de se fazer carnaval na Série A, com ou sem crise, é necessário trabalhar com a criatividade. E Caribé, tem uma larga experiência com isso. O artista é reconhecido, dentro do mundo do carnaval, por seu talento em trabalhar com materiais alternativos e reciclados.

“A minha inspiração vem do candomblé. Meu pai e minha mãe eram do candomblé. Então, eu vivi vendo as pessoas fazendo as coroas dos santos, usando máquina de costura para fazer babados, fitinha e saias. A minha inspiração vem dessa minha cultura e vivência religiosa. Eu vivia dentro de casa vendo minha mãe e meu pai montar ala, fantasia, destaque, e bordar. Meu pai tinha uma ala na Vila Isabel. Antigamente, não se colava nada, era tudo costurado com agulha, linha, paetê e miçanga. A minha criatividade para fazer carnaval vem daí, vem dos orixás, vem da casa do candomblé. Quando vou montar uma alegoria, eu penso nas grandezas das florestas, no brilho das Iabás, na simplicidade de Omolu, e assim vou trabalhando com as palhas. Eu sou um carnavalesco orgânico. Quem me disse isso foi o Chico Spinoza e jamais esqueci. Pois uso muitos materiais da terra. Muito material que está ligado ao culto dos orixás, como corda, palha e búzio, por exemplo”.

Entenda o desfile

O Império da Tijuca vem com 4 alegorias, sendo o abre-alas acoplado, e uma média de 2500 componentes. A agremiação, mesmo com a crise, não cortou nenhuma ala e novamente virá com um total de 23, mesmo número do último carnaval. E entre as curiosidades da escola está o número de destaques. Ao todo, terão 28 destaques no desfile, o maior contingente do Rio de Janeiro, entre todas as agremiações de todos os grupos, segundo o próprio carnavalesco Jorge Caribé. A verde e branco do Morro da Formiga será a quinta e penúltima escola a desfilar, no sábado de carnaval.

Setor 1: O Negô tá cansado de trabaiá… Trabaia… Trabaia Nêgo…

“A abertura serão os 300 mil negros. Será uma abertura africana dentro do Vale do Café. Um grande quilombo dos negros plantando café. O abre-alas terá sementes de café, além de levar o cheiro de café para Sapucaí. Nesse primeiro setor também retratamos a chegada dos barões vindos de Minas. Com a falência do ouro, eles vieram colocar a fortuna no plantio do café. Terão as mucamas que saíram das senzalas e foram para a casa grande, as festas, o alto consumo do café, as xícaras de porcelana, os bules, os bolos, os doces… A grande coincidência é que tem café na bandeira do Império. O Morro da Formiga era plantação de café, e isso também será lembrado”.

Setor 2: “Na hora em que a terra dorme, enroladas em frios véus, eu ouço uma reza enorme enchendo o abismo dos céus…” (Castro Alves).

“O segundo carro da escola é sobre Nossa Senhora da Conceição e a grande igreja da padroeira. Que também é padroeira do Império da Tijuca, que foi fundado em 08 de dezembro. Nesse setor temos a mistura de crenças dos negros com a crença do branco. Daí surge os cortejos religiosos, as festas da folia de reis, a festa do divino. Misturamos todas essas cores e cânticos quase miscigenados. Temos são Benedito, Santa Efigênia e começa toda aquela mistura”.

Setor 3: “Não candeia Clementina… Fui feita pra vadiá…” (Clementina de Jesus).

“Nosso terceiro setor traz a verdadeira Folia de Reis. Que tem no Vale do Café, e também tem na Formiga até os dias de hoje. Também vem nesse setor o legado que o café deixou para o Vale. Pois hoje, eles não vivem mais do café, e sim do turismo em todas aquelas casas maravilhosas que hoje viraram casas de exposição. As casas dos barões, fazendas lindas, com cortinas e móveis… Tudo isso virou turismo”.

Setor 4: O legado deixado pelo café.

“O último setor vai falar da ida das pessoas para o Vale e o que impulsiona ele hoje, como indústrias automobilísticas, criação de cavalo, universidade, cervejaria, o agronegócio. Apesar da crítica das pessoas por mencionarmos o agronegócio, temos que falar dele sim, porque faz parte do enredo. Vamos falar também de criação de animais correta, clonagem de ovelha e toda essa realidade do Vale hoje em dia. E encerramos com o último carro, que é a estação ferroviária, que nada mais é a mola mestra do Vale. Tudo é escoado através do trem. A última ala será o café do Vale com o café do Morro da Formiga”.

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