Em ‘História para ninar gente grande’ o carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira, vai trazer para o maior espetáculo da terra heróis que não constam nos livros de história. A proposta do desfile da verde e rosa é despertar senso crítico em uma população ‘ninada’ por aspectos da história que coloca o povo à margem das lutas e decisões.

O artista recebeu a reportagem do CARNAVALESCO no barracão da Mangueira e adianta que em seu desfile dois setores inteiros (de cinco) serão dedicados à história do índio no Brasil. (Fotos: Oscar Liberal)

“Esse é o meu carnaval mais difícil, mas ele também é artisticamente onde estou mais bem colocado. Estou na plenitude no sentido de fazer algo que acho preciso ser falado. Eu sou estudioso da cultura indígena. A história do índio no Brasil é uma das maiores perversidades da sociedade brasileira. O brasileiro não se reconhece indígena, com uma das maiores populações da América Latina. Aqui todo mundo é índio. Existe a construção de uma narrativa proposital, de associar o índio ao opositor do progresso. O cristianismo o associou a um ser sem alma. Propositalmente eu dedico dois setores inteiros à cultura e à resistência indígena. O mangueirense vai conhecer a história do negro herói e não escravo. A escola de samba precisa fazer as pessoas conhecerem Luiza Mahin, Danara, Luiza Garcia, Francisco José”, conta Leandro.

Leandro Vieira, como se diz na gíria moderna, ‘chegou chegando’. O impacto gerado pelo seu desfile de estreia pela Caprichosos de Pilares o levou à Mangueira. Na verde e rosa foi campeão em seu ano de estreia. Colhendo os frutos de um artista politizado e com aguçado senso crítico, Leandro Vieira revela à nossa reportagem que a escolha do enredo da Mangueira é uma reação ao projeto Escola Sem Partido, que segundo ele busca gerar cidadãos ‘sonolentos’.

“Eu sou uma pessoa com senso crítico. Em 2018 fiz uma coisa que achei importante, ter o estalo do enredo a partir de uma antena ligada com o cenário moderno. Fiz um carnaval através da defesa do meu ponto de vista. O enredo de 2019 surge da discussão do aspecto da Escola Sem Partido. Quais os interesses de se produzir uma sociedade sem senso crítico, que não pensa, que não questiona a história? Pra mim é negar a representatividade e negar com uma população ninada. A partir daí passei a buscar a construção de uma narrativa da história crítica do Brasil, com um viés de representatividade popular. A Mangueira é formada por descendentes dessas minorias. O enredo é para ‘acordar’ gente grande. O Escola Sem Partido quer ninar gente grande. A história que quer dizer que quem concebeu a abolição foi um representante do estado e não a luta negra. Ora, quando a princesa assina a lei os escravos já viviam em uma condição diferente. Por que os heróis são os bandeirantes e não os índios? O monumento às bandeiras é um tributo ao genocídio indígena. Erguem-se essas bandeiras através de uma lógica elitista. Colocam o povo em uma condição de espera. Parece que precisam sempre de alguém para fazer história no seu lugar”, questiona Leandro.

‘Não veio do céu, nem das mãos de Isabel’. O verso do samba mangueirense para muitos indica que o enredo da Mangueira visa a desconstrução da Princesa Isabel, responsável por assinar a Lei Áurea, que tornou livres os escravos no Brasil em 1888. Mas não se trata disso. Leandro explica que a questão envolvendo a abolição que ninguém conta nos colégios é que quatro antes, no Ceará, já haviam negros libertos.

“Minhas pesquisas começam antes da formatação de um enredo. Gosto bastante de ler. Isso vai acumulando uma determinada bagagem. Há muitos anos tomei conhecimento da história de Luiza Mahin. A partir disso passei a perceber que existiam personagens que precisavam ser contados. O mais surpreendente de tudo para mim foi o fato de a abolição no Ceará ter vindo antes do Brasil, quatro anos. Quem desencadeou esse processo foi um um mulato pobre. Isso é muito representativo. Alguém estudou isso no colégio? Através de uma revolta iniciada no porto do Ceará, despertou a consciência do povo negro. A quem interessa esconder isso?”.

‘Se não fosse carnavalesco seria professor de história’, diz Leandro Vieira

Ao se propor a contar a história que a própria história não conta, Leandro Vieira pisa em terreno arenoso. Como reagirá o meio acadêmico, de professores e historiadores, a uma temática que se propõe a desconstruir os livros de história? Leandro Vieira garante que recebe diariamente elogios de professores de história e que se não tivesse seguido a carreira artística enveredaria para as salas de aula.

“Eu tenho uma relação maravilhosa com meus professores de história. Aos 17 anos minha única opção era passar para uma universidade pública. Eu queria fazer Belas Artes e me inscrevi na UFRJ. Mas nas demais eu fiz história. Se eu não fosse artista seria professor de história. O Luiz Antônio Simas foi a primeira pessoa fora do meu convívio particular a tomar conhecimento do meu enredo. Recebo diariamente elogios da classe dos professores, repercussão boa. Já usaram o enredo em aulas e provas. Isso prova que minha narrativa é aceita pelo pensamento acadêmico. Eu não estou inventando uma história”, destaca.

Nos bastidores da Mangueira, Leandro Vieira deixou clara sua preferência pela obra que a verde e rosa vai levar para a Marquês de Sapucaí em 2019. Ele considera o samba 100% do sucesso de um desfile e admite que já teve composições de sua preferência derrotados na disputa.

“O samba de qualidade pode representar 100% de um título, no sentido de contribuir para a conquista. Eu busco hiper valorizar o samba. Os outros quesitos são perfumaria. O meu trabalho é estar à altura da obra da escola. Aqui na Mangueira eu sempre tive liberdade para pensar e demonstrar. Nas reuniões declarei meu posicionamento, mas já perdi samba em 2016 e ganhei em 2017. Eu elegi desde o princípio esse samba mas não foi esse fato que o fez ganhar. A Mangueira possui um grupo de pessoas que decide”, explica.

Ausência de Chiquinho não afeta construção do carnaval, segundo carnavalesco

A Mangueira sofreu um duro golpe neste pré-carnaval. Além da crise que assola boa parte dos barracões da Cidade do Samba, o seu presidente foi preso em novembro do ano passado. Sem o mandatário, Leandro garante que o carnaval não sofreu qualquer abalo no aspecto do segmento do cronograma.

“No meu trabalho o impacto foi de zero. Não houve nenhum impacto. A Mangueira possui uma estrutura muito bem definida. Chiquinho delegava funções em cada setor e essas pessoas tocavam cada departamento. As duas pessoas de confiança dele para tocar o carnaval somos eu e Alvinho. Nesse sentido nada mudou. A crise não me afeta. Ela só atrapalha o cara que fez carnaval com grana. Eu desconheço o que é bom nesse aspecto. Fiz Caprichosos de Pilares em 2015, a Mangueira nunca nadou em dinheiro. Enfrentei ano passado um corte de verba de R$ 1 milhão. Talvez isso preocupe quem estava acomodado com uma condição de fartura”, afirma.

Com cinco alegorias e 26 alas, Leandro Vieira é um carnavalesco que gosta de preservar o segredo do desfile e opta por não explicar os setores do desenvolvimento do enredo. Apurando com pessoas da escola e observando a sinopse fica entende-se que os setores abordarão aspectos históricos através de segmentações, como a história indígena (que estará em dois setores), a negra e a política. Sempre abordando como narradores da narrativa personagens que a história não conta.

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