Rodrigo Neves, mais conhecido como mestre Moleza, lidera uma das baterias sensações do carnaval paulistano nos últimos anos. Vencedora do prêmio Estrela do Carnaval no ano de 2019, a ‘Cadência da Vila’ é famosa por executar várias bossas durante todo o percurso na avenida e, também, pelo seu andamento cadenciado, pois o nome da batucada já diz. Moleza está indo para o seu nono carnaval na Unidos de Vila Maria. É um profissional totalmente identificado com a escola e comunidade, tanto é que virou membro da direção de carnaval da agremiação. O diretor de bateria está há muitos anos no carnaval, mas começou a sua história como ritmista e, contou à equipe do CARNAVALESCO, características da ‘Cadência da Vila’ e, também, grandes inspirações dentro de sua trajetória.

O surgimento do apelido ‘Moleza’

“Eu comecei a tocar com uns 13 anos lá na Águia de Ouro. Na época, não tinha essa coisa de escolinha de bateria e, quando eu entrei, para tocar, fazer shows e apresentações, acho que Deus me deu um dom de tocar, aprender rápido as coisas e o mestre Juca me chamou para fazer essas saídas e eu era o mais novinho lá dos ritmistas. Os caras bebiam e eu era moleque, ‘caretão’ e ficava dormindo em cima dos instrumentos. Aí eles vinham naquela pilha lá de ‘po, você é mole’. Então, esse negócio de moleza pegou. Todo apelido que a gente não gosta, pega. Hoje, se alguém me chamar de Rodrigo na rua, acho que eu nem olho para trás”.

O entrosamento com Wander Pires

O intérprete Wander Pires, chegou na Vila Maria em 2018 e vem liderando o carro de som com muita autoridade. Mesmo com menos tempo de casa, o cantor também já tem grande identificação com a comunidade da ‘Vila mais famosa’. O mestre Moleza contou brevemente como funciona essa interação entre Cadência da Vila e Wander Pires.

“Ambos trabalhamos pela escola, mas antes disso, eu era e continuo sendo muito fã dele. Eu acho que é que um cantor que está em alto nível há muito tempo, começou há anos e é um cara que eu tenho gratidão de poder trabalhar. Eu assistia ele pela televisão, já considerava ele o melhor cantor de samba-enredo e hoje eu posso trabalhar com ele. Essa admiração, favoreceu essa questão. Ele está muito entrosado com a Vila Maria. Você percebe isso na felicidade do semblante dele, na tranquilidade e a gente se fala meio que duas vezes por semana com aqueles áudios extensos, com aquele ‘jeitão’ dele. A gente conversa sobre bossas, é um cara super aberto e procuro ouvir sempre a opinião dele. Não é o jeito que você fala, é como você fala. Ambos temos uma admiração mútua. É uma sintonia grande e é por isso que tem dado certo”.

O andamento cadenciado da bateria

“Já é um gosto antigo, desde quando eu nem tocava. Se a gente pegar os desfiles da Tiradentes, que eu não tive a oportunidade, os desfiles antigos do Rio, eu acompanhava isso mesmo muito pequeno. Eu tinha aquela coisa de quando tivesse uma oportunidade de comandar uma bateria, eu faria algo parecido com aquilo. Lógico que buscando uma modernidade, pois tudo evolui. E aí, quando você começa a trabalhar, não pode fazer as coisas sozinho. Tem diretor de harmonia, de carnaval, presidente. Então, vai mesclando essas ideias até o ponto que se tem credibilidade para poder implantar o seu estilo. Isso vem com o tempo, com o resultado de bateria, juntamente aos quesitos que estão ligados à bateria. A partir do momento em que você consegue imprimir um andamento cadenciado, mas se ouvindo e a harmonia e a evolução da escola conseguem tirar 10, eu acho que fica sem argumento dos críticos falar algo. Então, você implanta uma marca que vira sua identidade. E aí tem essa questão de tendências. A gente tem muito o nosso estilo e acreditamos na nossa verdade para disseminar e colocar o nosso legado. Enquanto alguns vão para um caminho, a gente vai para o inverso. Quando você opta por isso, vai ter muitos elogios, muitas glórias, mas também vai acabar recebendo muitas críticas. Temos nossa convicção com muito estudo, muita técnica de audição e materiais”.

Equilíbrio entre os naipes é o trunfo

Claramente, a Cadência da Vila é uma bateria que se dá para ouvir todos os instrumentos juntos e de forma limpa. É outro diferencial da batucada da Vila Maria. Por isso, para Moleza não existe um naipe que se diferencie dos outros. Todos são importantes para cadenciar o samba.

“Não existe um naipe trunfo. A bateria da Vila Maria é um conjunto. A nossa característica é que todos os instrumentos devem aparecer e, quando estão tocando juntos, vocês não vão ter dificuldade de ouvir qualquer naipe. Essa é principal diferença. Toca caixas, repiques, surdos, chocalhos, agogôs, cuícas e sem colocar aquela famosa mão no ouvido para forçar, você vai ouvir tudo, diferentemente de outras baterias que têm as vedetes mais aceleradas ou com outro instrumento em ascendência. Já a nossa, é equilibrada para ter esse som agradável de se ouvir”.

A troca de informações com as baterias do Rio de Janeiro

“Eu comecei a desfilar no Rio em 2005 e tenho vários amigos e influências lá. A troca e o respeito é muito grande. Acabou essa distância entre carnaval de São Paulo e Rio, principalmente no meu segmento. Tem muita gente que vem desfilar aqui e muita gente vai desfilar lá. Eu vou para o Rio, tiro várias fotos, as pessoas me param para parabenizar o meu trabalho. Uns dão aquelas críticas boas e construtivas para se ouvir. Então, aquele bairrismo entre as baterias não existe. Temos grupos em comum entre os mestres de Rio e São Paulo e é aquela resenha e a gente troca muita ideia”.

As inspirações de mestre Moleza

“Aqui em São Paulo, as minhas inspirações são o mestre Juca da Águia de Ouro e o mestre Sombra da Mocidade. Eu falo deles e é engraçado e o estilo da bateria deles é diferente do estilo da minha. Eu sou aquele cara que pego coisas boas, mas não tenho aquele cara que coloco no altar. Eu preciso enaltecer, porque desde jovem eu trabalhei e aprendi muita coisa e, através deles, eu despertei esse interesse de estudar esse próprio estilo que eu tenho”.

Moleza também contou a sua inspiração de mestre do carnaval carioca. “No Rio de Janeiro tem alguns, mas acho que quem marcou época foi o Odilon. Da minha geração é o que de repente contou mais coisas do que se ouve hoje dentro das baterias. Sou fã do mestre Casagrande, mestre Marcão, mestre Lola, mas acho que o mestre Odilon está a um patamar acima do estilo que eu gosto”.

A Vila Maria é a quinta escola a passar pelo Anhembi na sexta-feira de carnaval (22) e mestre Moleza irá para o seu nono desfile com a agremiação. Mais uma vez, a Cadência da Vila vai em busca dos 40 pontos. Caso alcance o objetivo, será a quinta vez desde 2013 que a bateria conseguirá tal feito sob o comando de Moleza, sendo o quarto ano consecutivo com a pontuação máxima.

Outra curiosidade é que desde 2014, o quesito nunca perdeu nenhum décimo dentro do julgamento, visto que há o descarte nas apurações. Realmente, é um gigante trabalho que mestre Moleza e seus diretores da Cadência da Vila têm feito. E os indícios são sempre de melhora a cada carnaval.

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