Campeões no primeiro ano juntos de trabalho como carnavalescos da Unidos do Viradouro, no Grupo Especial, a dupla Marcus Ferreira e Tarcísio Zanon conversou com o site CARNAVALESCO. Confira abaixo a entrevista especial com os vencedores de 2020.

O que esse título representa na carreira de vocês?

Marcus: “É uma grande consagração. Já tínhamos sido campeões na Série A, mas a experiência é totalmente diferente. A responsabilidade de estar no Grupo Especial, quebrar o tabu de domingo. Nenhuma escola antes na história ganhou o carnaval sendo a segunda escola do domingo. Estamos muito felizes, nós trabalhamos muito, a Viradouro trabalhou muito, nos deu total apoio. Estamos de alma lavada”.

Zanon: “É um divisor de águas. Um campeonato no Grupo Especial… Ganhar um título é um carimbo para qualquer profissional, como currículo de trabalho. Estar nesse momento na Viradouro, no momento que a escola vem nessa crescente com uma gestão fantástica, os presidentes super apaixonados pelo carnaval, a direção de carnaval eficiente… Foi um momento positivo para o mundo do samba como um todo pois sabemos que o carnaval sofre por conta da falta de verba e a gente vê a Prefeitura de Niterói investindo em cultura, investindo no carnaval. Isso prova para todo mundo a importância dessa questão financeira e o quanto as escolas do Rio precisam desse aporte financeiro. Contudo, apesar da crise foi um carnaval competitivo, as escolas se superaram e foi bonito de ver a competição”.

Vocês já passaram por outras escolas e fizeram bons carnavais, mas esse foi diferente. A estrutura e organização da escola foi fundamental para o sucesso do desfile?

Marcus: “Sem dúvida. Planejamento, organização, estrutura, vai além de qualquer investimento superior, de qualquer desarmonia no ambiente de trabalho. O carnaval carioca requer um planejamento. Não são os carnavais mais caros que são os campeões e o histórico comprova e constata isso. O planejamento e a organização regem tudo. Não somente dentro do barracão, mas também no dia do desfile, e aqui na Viradouro temos isso. Os dois diretores de carnaval respiram o trabalho deles e foram incansáveis no apoio e na dedicação com a gente. Os presidentes que são exemplos para qualquer gestão, até mesmo fora do carnaval, os dois tem um comando, uma liderança, um amor pelos profissionais e um amor incondicional pela escola. São lideres que são grandes exemplos para os sambistas. Todo mundo já sabe o quanto a Viradouro é uma escola de exemplo”.

Zanon: “É gestão, organização, um pensamento apaixonado pelo carnaval e planejamento. O carnaval precisa disso, se profissionalizar. Hoje, a Viradouro tem um barracão referência em diversos pontos como: segurança do trabalho, organização, almoxarifado. Temos diversos fatores que contribuíram para nossa criação sair da melhor forma possível. Sem apoio dificilmente um artista consegue. No Acesso conseguíamos, mas não era o plano A e aqui na Viradouro fizemos pois tivemos todo esse suporte de gestão.

Ainda nessa questão de estrutura e organização, qual ponto que vocês indicam como fundamental para que tudo tenha dado certo?

Marcus: “Eu acho que o respeito, o comprometimento. A figura do carnavalesco não é maior do que outro segmento, dependemos muito mais de todos os profissionais que estão na escola para poder erguer os nossos sonhos. Essa parceria que tivemos junto com os profissionais da escola, fizemos um carnaval que foi conversado o tempo todo, a escola nos deu liberdade e apoio, acreditou no nosso projeto, opinaram junto conosco no que estava sendo criado. Projetamos nossos sonhos e isso refletiu no olhar das pessoas, na arquibancada. Esse ano as escolas apresentaram um grande espetáculo, as escolas se reinventaram apesar da crise com grandes enredos. Grandes artistas sendo revelados e grandes mestres nossos fazendo trabalhos maravilhosos e nós enquanto artistas torcemos para o carnaval, pelo espetáculo”.

Zanon: “Concordo com que o Marcus falou, mas eu acho que o que sempre vai ser fundamental é uma boa equipe. É assim que se ergue um carnaval, não se faz carnaval sem uma boa equipe, comprometida, proativa. Esse ano fizemos um carnaval desafiador no sentido de proporções, no sentido de riscos e a nossa equipe o tempo todo enfrentou os desafios, vivendo cada momento sem medo, errando e acertando, até chegar na Sapucaí”.

A última alegoria passou momentos acessa e momentos apagada. O que houve?

Marcus: “Infelizmente, tivemos um problema técnico. Felizmente, a Viradouro utiliza dois geradores por carro e os dois foram testados. Cada um teve um problema diferente e não conseguimos solucionar na hora, mas não apagou o brilhantismo de toda escola. Tivemos um carnaval que a arquibancada cantou junto, o samba atingiu o ápice e o seu objetivo. Hoje as pessoas conseguem entender o motivo que o ensaboa foi escolhido. O carro foi o único “senão”, sabíamos que ali poderíamos perder décimos, como perdemos, foram quatro 9.9 e somente uma nota 10 e acreditamos ser por conta desse carro. Todos os carros foram revisados na concentração, subimos em cima de cada alegoria para ver os detalhes mas esse problema foi de última hora, erramos, mas não apagou nosso brilhantismo e merecemos o campeonato. Estamos felizes com o resultado, o campeonato veio coroar todo o preparo de um ano”.

Vocês ganharam e a Grande Rio ficou em segundo, mas empatada com vocês. As duas com carnavalescos jovens. É a nova virada estética do carnaval?

Zanon: “Não digo virada, eu digo que é uma oxigenação do carnaval. A renovação é natural, novos profissionais vão surgindo, novas ideias, pensamentos estéticos, cada um com sua bagagem e talento. A gente teve a oportunidade dentro do ensinamento de crise do carnaval, o Leandro abriu as portas para essa nova geração e a gente veio com força total para fazer o que a gente ama fazer. Com todo respeito aos grandes mestres, nós aprendemos com eles a fazer carnaval, mas é a reciclagem natural da festa que tem que acontecer e está sendo nesse momento”.

Marcus: “Nós dedicamos muito dessa nossa glória, o que a gente está vivendo, aos nossos mestres. Somos de uma geração que tivemos o Joãozinho sendo campeão na Viradouro, a Rosa na Imperatriz duelando com o Renato Lage na Mocidade, tudo isso na década de 90. A gente reverencia esses mestres porque se eles não tivessem despertado esses sonhos não estaríamos aqui como profissionais. Muito nos deixa lisonjeados por estarmos juntos em prol do carnaval e reverenciando eles”.

A Viradouro apresentou um dos seus melhores conjuntos de fantasias da sua história e levou um 9.9 na terceira cabine. O que houve?

Zanon: “Nós acreditamos que foi um problema na ala da Iemanjá, onde tinha uns balões infláveis que estouraram por conta da movimentação dos componentes. Vimos no vídeo que alguns estavam sem o elemento na mão. Pode ser que tenha sido isso”,

Tirar 50 em Enredo deve ser um momento de realização para vocês. Acreditam que o caminho para os enredos é ter o aspecto social forte e que consiga comunicar com o público?

Marcus: “Defendemos muito bem a proposta, queríamos fazer um carnaval emotivo, nosso enredo tem o viés social porque as escolas de samba possuem a fala o povo, seja lá qual for o tipo. Não quisemos fazer um carnaval que fosse voltado apenas para um público, apenas uma ideologia. Contar a história dessas mulheres é fascinante. Fernando Pamplona na década de 70 fazia muito bem isso, trazendo grandes heróis à tona. Todas as escolas foram despontuadas no quesito e perdemos onde deveríamos. O enredo foi defendido, com uma leitura muito clara do que estava passando, com samba, com a conceituação do enredo e nossas defesas”.

Zanon: “Eu acho que o mais importante no enredo é trazer uma mensagem motivacional. Trazer as ganhadeiras de Itapuã como enredo é trazer a história de luta por liberdade, por alforria e que se tornaram referência artística hoje na quinta geração. Todas as mulheres se sentem representadas, o público empático ao enredo. Conseguimos comunicar, emocionar e chegar até o público. Isso é o mais importante. Passamos uma mensagem saudável, motivacional com um enredo brasileiríssimo, com um viés social que se comunicou. O importante é comunicar de forma saudável”.

Vou pedir para cada um fechar os olhos e falar qual é o seu momento inesquecível desse trabalho na Viradouro e o motivo.

Zanon: “Sem dúvida, a apuração, aquele momento… foi inesquecível, ainda está sendo. Aquele grande fardo caiu, de tanta luta, de tanta vontade de acertar. Nós nos cobramos muito. Eu me cobrando, Marcos se cobrando e a gente cobrando um ao outro para que a gente alcançasse um grande desfile. Sabíamos do favoritismo por conta do vice campeonato, tinha o peso de entrar no lugar do Paulo Barros, que é um grande artista, essa cobrança nossa foi muito grande. Naquele momento ali tiramos esse peso e conseguimos nosso objetivo”.

Marcus: “Foi o ano de muitas realizações e descobertas. Escolher um momento é muito difícil. Eu sai do desfile muito confiante, claro que tem os paradigmas do carnaval que são possivelmente quebrados, como a questão do domingo, da Viradouro só ter um título no Especial, agora o segundo, de nós no primeiro estar conquistando esse campeonato junto a escola. Ficávamos pensando como os jurados iriam olhar nosso trabalho, tínhamos experiência com os jurados da Série A. Sai na segunda-feira muito confiante, acreditando muito pois todas tiveram erros. A Viradouro errou muito pouco. Eu acreditei muito e fui com confiança para apuração. Eu acreditei”.

Foi fácil renovar com a Viradouro?

Marcus: “Nossa prioridade era ficar na escola, a gente tem enorme gratidão pela oportunidade que nos foi ofertada. Conseguimos projetar um carnaval com muita tranquilidade e muita paz por parte deles. Eles nos diziam durante o ano, pedindo para nós acreditarmos. Durante o decorrer do projeto eles se mostravam satisfeitos com o que eram apresentado, tanto com fantasias e alegorias. O presidente Marcelinho moldou o caderno abre-alas junto com a gente. Nosso pensamento sempre foi continuar na escola. Dentro da Viradouro pretendemos continuar essa parceria mas fora a gente não sabe como vai ser pois depende de outros fatores. Nosso olhar está para Viradouro, estamos sendo consagrados aqui. Devemos esse carinho aos presidentes e a escola”.

Zanon: “Nós vislumbramos e queríamos muito ficar com essa grande escola e comunidade que tanto nos abraçou e acolheu. Seguir com nossos presidentes, diretoria, com essa equipe incrível. Foi um carnaval coroado e esse time é vencedor”.

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