Por Vinicius Vasconcelos. Fotos: Toninho Ribeiro

Sete escolas passaram pelo Sambão do Povo na noite deste sábado e madrugada de domingo disputando o título de campeã do carnaval capixaba. Nove quesitos divididos em três módulos de julgadores separam as agremiações do lugar mais alto e do lugar mais baixo do pódio. A última colocada é rebaixada para o grupo de acesso que desfila na sexta-feira de carnaval de 2020.

A apuração será na próxima quarta-feira as 16h30 no próprio sambão do povo. Devem disputar as primeiras colocações Mocidade Unida da Glória, Novo Império e Piedade. A Unidos de Jucutuquara e Boa Vista buscam uma posição intermediária e a briga para não cair ficará entre Imperatriz do Forte e Pega no Samba.

Imperatriz do Forte

A primeira escola a pisar na passarela foi a Imperatriz do Forte. De volta ao grupo de elite a escola fez um desfile regular mas passou por diversos problemas que podem prejudicar seus quesitos principalmente evolução. Com o enredo “Navegando nas Correntezas da História. A Imperatriz Vem Vestida de Azul”, do carnavalesco Alex de Souza, viu-se uma verde e rosa diferente dos tradicionais anos.

Carros mais opulentos, com padrão de grupo especial, passaram pela avenida com esculturas que eram de fácil leitura seguindo a proposta do tema. Talvez a falta de maturidade com alegorias de maior porte tenha sido uma das causas dos problemas que a escola teve que enfrentar.

Duas alegorias passaram por grandes dificuldades para adentrar a área de desfile. Sendo que a uma delas demorou cerca de cinco minutos para ser enquadrada até que a escola pudesse voltar seu desfile aos conformes. Um tripé também entrou desgovernado e chegou atingir um dos camarotes no início do primeiro setor. O ponto alto do desfile ficou sob responsabilidade da voz oficial da escola. Ricardinho Oliveira demonstrou ser ainda um dos grandes intérpretes do Espírito Santo e garantiu uma bela passagem do samba-enredo durante todo o tempo que a Imperatriz permaneceu na avenida.

Unidos da Piedade

Com uma sede de título que vem aumentando a cada dia mais, as intenções do carnavalesco Paulo Balbino ficaram claras desde o primeiro momento que a escola entrou na avenida. O artista soube expressar seu trabalho com muito luxo levando o enredo “Felis Catus – Sagrados e Mal Ditos”, e transformou a passarela num palco principal para que a história dos gatos na humanidade fosse contada.

As grandes alegorias chamavam atenção do público ainda na concentração e eram apenas uma amostra do que os quesitos plásticos da escola iriam apresentar.

Além da grandiosidade nos carros, as fantasias em sua grande parte possuíam grandes costeiros dando um belo volume quando visto de cima principalmente da altura das cabines julgadoras. Devidamente trajados e maquiados como deus Sol e deusa Bastet o casal de mestre-sala e porta-bandeira Weskley e Alana Marques executou uma coreografia de ótimo gosto. Apesar de um desfile plasticamente correto a Unidos da Piedade teve algumas que podem complicar num julgamento tão acirrado.

Por dois momentos a direção de harmonia se distraiu em frente a última cabine julgadora e enquanto a ala seguia para terminar o desfile o carro alegórico não acompanhava gerando buracos de grandes proporções que os jurados precisaram canetar. Conforme ordena as obrigatoriedades do regulamento, a Piedade perderá 0,1 décimo por ter desfilado acima do tempo estabelecido de 62 minutos.

Mocidade Unida da Glória

Atual campeã do carnaval pisou na avenida com vontade de manter o título no município de Vila Velha. A proposta de Osvaldo Garcia com o enredo “Sorrir e sambar é só começar” era de mergulhar no universo do sorriso de maneira lúdica e isso foi mostrado nas alegorias e fantasias da escola.

Nos últimos anos a MUG mostrou ser uma potência quando o assunto é alegoria de grande porte e decoração luxuosa. E mais uma vez não faltou capricho no acabamento dos carros alegóricos da agremiação, do primeiro ao último. Juliander Agrizzi e Gessya Santana, casal de mestre-sala e porta-bandeira, executaram coreografias com dificuldade e não faltou sincronismo dela na arte de girar o pavilhão e dele no cortejo de sua parceira.

Completando seu sétimo ano como voz oficial, o intérprete Thiago Britto passou a confiança necessária que é aguardada de um puxador de samba-enredo. O estreante da noite, mestre Carlão, cria do leão da Glória, não se intimidou e executou com seus ritmistas diversas bossas arrancando aplausos dos presentes.

Pega no Samba

Coube ao Pega no Samba encarar o clima de êxtase deixado pela MUG ao passar. Levando o enredo “Lenira Borges: Uma Vida para a Dança” dos carnavalescos Douglas Paluzzo e Júnior Pernambucano a escola resgatou a história da bailarina Lenira Borges que colaborou de diversas formas na arte do Ballet do Espírito Santo. Coreografada pelo jovem Jorge Mayco que se destaca a cada dia mais, a comissão de frente era uma máquina do tempo com algumas passagens da vida da homenageada.

Intuitiva e muito bem ensaiada garantiu aplausos para a “cabeça” do desfile. A qualidade e criatividade na coreografia também se estendeu ao primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira Tatu e Naymara. Passou pelo sambão um Pega no Samba diferente dos anos anteriores principalmente no que se refere ao quesito alegorias e adereços. Grandes no comprimento e altura, causavam impacto no momento em que eram vistas.

O impacto podeira ter sido ainda maior se elas estivessem iluminadas, porém, todas as alegorias passaram sem iluminação. Como não havia o refletor em cima dos carros a escola não pode ser penalizada por carros apagados, mas se o jurado entender que falta de iluminação interfere na leitura da alegoria o quesito pode ser prejudicado com notas baixas.

Independente de Boa Vista

A escola de Cariacica de popularizou nos últimos anos por saber unir a força de um samba-enredo juntamente com riqueza e luxo espalhados nos quesitos plásticos. Porém, não foi isso que vimos na quinta apresentação da noite. Ficou nítida a dificuldade que a escola teve para carnavalizar o enredo “Entre rodovias e fronteiras… Honras e glórias. PRF 90 anos dos Anjos do Asfalto”, elaborado por Robson Goulart.

Apesar do seu tamanho dos carros alegóricos, eles não foram o principal momento do desfile da Independente da Boa Vista. Na contramão do que vem propondo a escola nos últimos anos o samba-enredo pode ter sido uma pedra em seu sapato. Não contagiou os componentes e nem os presentes no Sambão do Povo deixando um clima frio entre a escola. Os destaques da escola de Cariacica ficaram por conta do excelente casal de mestre-sala e porta-bandeira Bruno Simpatia e Vanessa Benittez e da bateria furiosa que conseguiu criar convenções estratégicas que exaltavam trechos do samba.

Mesmo com desfile que não cativou a Boa Vista permanece na disputa pelo título graças a forma plástica e bem acabada de suas alegorias e fantasias. A leitura era de difícil entendimento mas se o que foi proposto na justificativa estava na passarela cabe ao jurado avaliar se estava bem explicado ou não.

Novo Império

A escola de Caratoíra entrou na avenida com os primeiros raios solares do dia e o fato proporcionou um belíssimo céu que estampou as três cores de sua bandeira. Todo o sambão do povo se tornou azul, branco e rosa. Com a responsabilidade de abordar um tema sério, a Novo Império soube transmitir a mensagem do enredo “De Maria às Marias: Uma revolução, um grito de liberdade! #presente” que tratava sobre os direitos já conquistados das mulheres, os que estão por vir e os crimes que precisam deixar de acontecer. Como diz o trecho do samba “mais forte o meu rosa vai brilhar” a cabeça da escola alternou entre algumas tonalidades da cor dando um belíssimo efeito visual.

A opção de colocar diversas línguas ao redor da coroa imperiana chamou bastante atenção de quem olhava para o topo do gigante abre-alas acoplado da escola. Amanda e Kleyson mostraram que estão em seu melhor momento. Com um entrosamento maior do que foi apresentado em 2018, exibiram uma belíssima coreografia somada a luxuosa fantasia idealizada pelo carnavalesco Peterson Alves. Último ano da gestão atual, ficou nítido que o presidente Alessandro Souza apostou todas as suas fichas de campeonato nesse desfile.

A Novo Império passou com alegorias grandes, porém pode perder alguns décimos devido a falta de acabamento em detalhes. As fantasias estavam completas e sua comunidade foi responsável pelo canto mais aguerrido da noite. Em 2019 a agremiação completa 30 anos sem alcançar o lugar mais alto do pódio, e graças ao que foi apresentado esse jejum pode ser quebrado.

Jucutuquara

A Jucutuquara ficou responsável por fechar a noite de desfiles do carnaval 2019 de Vitória. Com o enredo sobre “O Rosário do Bispo e seu delirante inventário do universo” a escola homenageou a vida do Bispo do Rosário desde o dia em que ele “simplesmente apareceu” até chegar o momento que subiu aos céus.

Desde que assumiu novamente a direção da escola o presidente Rogério Sarmente garantiu juntamente dos seus diretores que a intenção era voltar com o gigantismo que virou característico da última década da escola quando conquistou o tetracampeonato. As alegorias voltaram a ser grandes, porém faltou um certo cuidado em acabamento. O resgate da nação, passa pelos seus torcedores que acabaram se afastando graças a algumas administrações, foi visivelmente mostrado nos camarotes e arquibancadas.

O que foi visto na manhã desse domingo foi um chão poderoso da escola principalmente na paradona principal da bateria no refrão. O canto ecoava pela passarela, camarotes e torcida da escola que fez questão de se manter presente até o último minuto de Jucutuquara na avenida. A comissão de frente da Jucutuquara optou pelo tradicional sem tripés ou mecanismos eletrônicos. Caixotes compunham a coreografia e juntos formavam o pavilhão da coruja. Apesar de não concorrer ao título a escola não corre nenhum risco de rebaixamento e deve permanecer entre as posições intermediárias.

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