Por Vinícius Vasconcelos. Fotos: Toninho Ribeiro

A segunda agremiação mais antiga do carnaval de Vitória resolveu tomar para si a responsabilidade de conscientização dos moradores locais. Segundo os dados do mapa de violência da ONU, o Espírito Santo é o segundo estado do Brasil com maior índice de feminicídio. Ciente da missão que um desfile de escola de samba tem a oferecer ao público, o carnavalesco estreante na escola Peterson Alves encarou o desafio proposto pela diretoria, e promete fazer um desfile impactante.

“A ideia do enredo partiu diretamente da diretoria da escola. Um dos diretores de carnaval, Carlos Fabian, é militante ativo e bastante engajado politicamente. Por ser o último ano dessa gestão eles desejavam um enredo diferente, algo que marcasse a história. Então o carnavalesco que fosse contratado para fazer 2019 teria o desafio de fazer esse tema. Com o tempo decidi embarcar na ideia deles. Óbvio que não é fácil, tem os ônus e bônus. Definimos o fio condutor porque falar de mulheres históricas é uma coisa, já falar dos acontecimentos do dia é outra completamente diferente. As questões são atuais. É necessário bater no governo e coisas do tipo. Falaremos das mulheres com uma pincelada mais sutil, mas existem momentos dentro do enredo que damos um choque de realidade em quem está assistindo. O carnaval nos permite isso. A festa é alegre mas precisamos e iremos cutucar”.

Peterson acrescentou que para muita gente um tema com tamanha carga dramática não poderia ter virado enredo. Porém, com colaboração maciça das mulheres da comunidade houve uma criação em conjunto. Elas definiram o que precisava ser mostrado.

“Não foi fácil carnavalizar tudo isso. Imagina pegar uma mazela que acontece diariamente com as mulheres e transformar em carnaval, precisou de muito estudo. Busquei no lirismo a forma para fazer o desfile de forma leve e sutil. As mulheres vivenciam crimes todos os dias. Eu não podia colocá-las sendo esfaqueadas e espancadas. Participei de alguns grupos que foram organizados pela escola e ouvi todas. Todas tiveram a oportunidade de me falar como queriam ser vistas. As frases que mais ouvi era de que não queriam estar apanhando, morrendo e etc. Nosso enredo tem um toque de irreverência, ar de deboche ironizando a sociedade machista. A ala “macho alfa”, por exemplo, é representada por uma fantasia de palhaços. Perdi noites para remeter as informações do que está acontecendo e trazer a responsabilidade para o desfile. Levamos também a reflexão com a ala “rainha do lar ou graxeira do palácio”, porque rainha é uma mulher soberana, mas se é rainha porque precisa fazer tudo e ser submissa? É necessário que entendam isso. Fui a delegacia das mulheres fazer pesquisa de campo, agreguei fatos. É muito diferente de todos os enredos históricos que já fiz. É a luta diária das mulheres no Brasil. O número dos casos de feminicídio no estado envergonha os capixabas. A Novo Império propôs levantar essa bandeira e usaremos o carnaval como vitrine para essa conscientização”, explicou.

Devido a confecção dos carros da Novo Império acontecerem no terreno ao lado do Sambão do Povo, quem transita pela região consegue assistir o que está sendo feito. Nas últimas semanas diversas imagens rolaram pelos grupos de WhatsApp com o símbolo da escola, a coroa, descaracterizada de maneira proposital. O carnavalesco explicou a nossa equipe que foi um pedido da diretoria que a agremiação do Morro dos Alagoanos impactasse a todos desde o primeiro momento do desfile e isso foi feito.

“Nossa coroa é o assunto dos grupos, o grande buxixo do carnaval de Vitória. É o nosso sinônimo de deboche contra a opressão. A mulher faz língua para debochar da cara dos machistas porque ela pode ser o que quiser. Tudo foi feito com autorização do presidente Alessandro. Ele me disse para chocar e inovar”.

Além dessa inovação na forma da coroa imperiana, Peterson já chegou na escola com a tentativa de mudar os carnavais já feitos pela escola. Não dividiu seu carnaval em setores e sim num grande ato.

“O desfile da Novo Império não terá setorização por não haver uma cronologia. Quis quebrar essa coisa tradicional e iremos por fatos. Vamos viajar no universo feminino, grandes nuances entre passado e presente, fechando o desfile de olho no futuro que é o empoderamento e respeito. Abriremos com a submissão, as mulheres que eram obrigadas a ser donas do lar, que precisavam saber passar, cozinhar e costurar. Uma legítima Amélia. Quando não tinham direito de estudar nem trabalhar, tais oficios que a sociedade patriarcal impôs a elas. Em seguida a mulher ganha força e começa a descobrir seus direitos, suas primeiras conquistas. Como trabalhar, votar, estudar. Depois disso elas se unem e ficam ainda mais fortes. É a sororidade. A partir daí começam a lutar contra desigualdade. Esse é meu enredo mais difícil por ser politizado, eu nunca tinha feito. Eu precisava me desafiar”, detalhou o artista.

Com passagens e títulos reproduzindo carnavais da Independente de Boa Vista e Mocidade Unida da Glória, o carnavalesco sabe como é trabalhar numa escola com alto poder aquisitivo. Mas também precisa mostrar ao público que é possível criar carnavais belos de forma mais enxuta e econômica.

“Tem uma crise geral em todas as escolas, porém a Novo Império responde com uma comunidade aguerrida. Todos estão engajados sonhando com esse título. Eu mesmo estou ansioso e espero que a gente consiga finalizar o projeto. A diretoria não está medindo esforços dentro das condições financeiras. O projeto foi criado dentro do orçamento que expuseram para mim, dentro da captação da escola. Todos sabem da força do chão dessa comunidade, é diferenciada. Sairemos em defesa pelos direitos das mulheres e acho que nos trará muita sorte, assim como as ciganas me trouxeram em 2017 na Boa Vista. O desfile tem tudo para acontecer, tudo que eu puder fazer para sairmos campeões no dia da apuração eu farei. Meu desejo é ver essa escola campeã”, finalizou.

Ficha técnica

Enredo: De Maria às Marias – Uma revolução…um grito de liberdade! #Presente
Presidente: Alessandro Souza Santos
Carnavalesco: Peterson Alves
Direção de carnaval: Alex de Paiva e Carlos Fabian de Carvalho
Direção de harmonia: Vitor Fracalossi e Elton Braz
Intérprete: Celso Júnior
Compositores do samba-enredo: Eliz Reis, Sônia Gomes, Brunella Souza, Zenaide Brito, Cleide Bonaza, Jamilly Rachid e Janeth Vasconcelos
Mestre de bateria: Mestre Glê e Mestre Seabra
Rainha de bateria: Rayane Rosa
Coreógrafo comissão de frente: Andrezinho Castro
Alas: 22
Alegorias: 4
Tripés: 1 (comissão de frente)
Componentes: 1600
Baianas: Botando a boca no trombone
Bateria: Sou o que eu quiser! Mil e uma atitudes
Primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira: O esplendor da igualdade

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