Depois de aproximadamente 25 meses do último carnaval, público e desfilantes têm a chance de voltar ao solo sagrado da Marquês de Sapucaí com o objetivo de celebrar a vida e a alegria. Enfrentamos um novo desafio com a chegada e disseminação do coronavírus 103 anos depois do carnaval de 1919, o primeiro após a pandemia de gripe espanhola que dizimou milhares de vítimas. Graças à ciência, hoje podemos retomar as nossas vidas e ver o carnaval ocupar novamente o seu lugar de destaque na cultura popular brasileira. A reportagem do site CARNAVALESCO ouviu algumas pessoas que compartilham de um sentimento em comum: a paixão pela festa.

Rosimery dos Santos com meia década de vida e de paixão ao samba. Ela que é cozinheira de profissão e integrante do departamento feminino da Unidos da Tijuca, sua escola de coração, não esconde o brilho no olhar ao pisar no Sambódromo após um longo intervalo de tempo. “Não só para mim, mas o retorno do carnaval para quem é do samba está significando muito. Como sambista, nós vivemos disso. Eu falo até para meu patrão o quanto sou apaixonada por esse universo. Eu nasci dentro do samba, sou sambista desde a barriga da minha mãe, há 50 anos. Eu acho tudo de bom, mesmo sendo um carnaval mais para frente, um pouco distante de fevereiro. As pessoas que amam vão passar nessa avenida muito emocionadas”, conta.

A sambista destaca também que a volta de Eduardo Paes à gestão da cidade traz um sentimento de alívio. “Ele é o nosso prefeito carnavalesco, então, eu acho que vai ser mais especial ainda. Acredito também que essas mudanças que ocorreram, de ter dois carnavais, devem prosseguir ano que vem. Tudo que muda é para melhor e eu torço por isso”, finaliza.

Para o designer Pablo Sander, de 36 anos, o carnaval de 2022 representa, acima de tudo, a vida. “Estar aqui, sentir-se vivo, sentir que vencemos uma pandemia, que vencemos um desgoverno e tudo que jogava contra o ser humano. Poder vivenciar o carnaval novamente, saber quantas pessoas estavam com a gente que não estão mais hoje, é mais do que nunca uma vitória”, relata.

Alegre, Doralice Lima de 65 anos é telefonista no dia a dia. Já em seus momentos de folga, veste a camisa da sua escola do coração, a Unidos do Viradouro. Ela que desfilará na ala das perucas, não escondeu o sorriso ao regressar para a Sapucaí. “O sentimento aqui dentro é que eu tirei a máscara e agradeci à Deus. Perdemos muitos amigos, mas onde eles estão, estamos dançando e celebrando para eles e por eles”, comenta com os olhos marejados.

A dançarina e coreógrafa Lizandra Duarte é desfilante da Grande Rio e aguarda ansiosa para o dia do desfile de sua escola do coração. “Para mim é um prazer estar aqui no Sambódromo de volta ao carnaval que nos fez tanta falta. Essa alegria, essa diversidade cultural que nos faz vibrar, que é nosso maior patrimônio. Eu me sinto muito feliz de estar aqui participando e espero que tudo dê certo para todas as escolas”, destaca.

Para os profissionais que trabalham com a festa, o regresso é, acima de tudo, um alívio. Figurinista e projetista de carnaval há 25 anos, Roberto Monteiro acredita que o sentimento é de encerrar um ciclo. “Nós guardamos essa energia durante praticamente dois anos, principalmente com quem trabalha com o carnaval, com escola de samba. Mais do que foliões, temos um comprometimento profissional e acumulamos essa energia que finda um ciclo. E após isso, vem a renovação. A sensação é essa. Eu defendo a Viradouro tem dois anos e a escola onde eu comecei no carnaval, então, fecha campo semântico e cria uma alegria que se redobra”, ressalta.

Quem também compartilha da mesma percepção é Tarcísio Zanon, um dos carnavalescos da vermelho e branco de Niterói. “Ao definir o enredo, houve o entendimento de que teríamos que trazer uma mensagem de esperança para o coração das pessoas. Quando descobrimos essa história de que a 103 anos atrás o povo carioca conseguiu ressignificar a história da população carioca e brasileira por meio do carnaval é incrível. O carnaval de 1919 foi o firmamento para que nós estejamos aqui nesse momento, é mais do que significativo”, diz.

Com o coração repleto de felicidade, Zanon destaca que o samba continua cada vez mais vivo. “Em 1919 foi o primeiro ano em que o samba se tornou o maior ritmo do carnaval, então, isso só demonstra a sua força, a força da nossa gente e do carioca. Eu estou muito emocionado com tudo isso. É a retomada, a celebração da vida e o amor por essa festa linda que vamos declarar aqui. Independentemente de qualquer coisa, de qualquer rivalidade, o carnaval vive disso e é o momento em que o sambista vai retomar o seu lugar e viver tudo o que ele ama”, reitera.

Artista e comunicador do Camarote do King, Jimmy Ieger eleva o papel da arte ao dar a devida importância na vida de profissionais que têm o carnaval como uma fonte de renda. “Eu criei o slogan do Camarote do King que é ‘aqui a nossa arte não para’, ou seja, eu acho que pessoas precisam de pessoas. Nós fazemos parte do maior espetáculo da Terra, então, isso impactou muito. Eu como artista, que sempre saio para fazer entrevistas com pessoas, vou às quadras das escolas de samba e não conseguia fazer isso na pandemia porque não tinha. Sendo um pouco mais pragmático, a principal dor foi de não poder exercer arte na prática, afinal, ela não se faz apenas na teoria. Até um livro que você vai ler é assim. E isso se expande para os carnavalescos, os artesãos, para os componentes, aderecistas. O carnaval é um compilado de múltiplos artistas unidos em um só lugar com um objetivo comum”, cita.

Ieger lembra também de profissionais impactados em cadeia ao longo dos últimos anos, como maquinistas, engenheiros, jornalistas e outras tantas. “Graças a Deus eu, assim como alguns outros, tiveram a oportunidade de seguir com seus empregos e muitos não, inclusive no show business. Eu acredito que o momento mais nostálgico será o carnaval histórico para o mundo a partir da próxima semana. A pandemia trouxe toda a destruição sentimental e corporal, mas trouxe também toda a parte de reflexão e do novo. Tudo o que vai vir será o novo. Nunca foi reformada como agora. As luzes são inéditas. A alegria das pessoas em estar batalhando pelo seu melhor”, comenta.

Ao Pablo, Roberto, Tarcísio, Jimmy, Rosimery, Doralice, Lizandra e tantos outros apaixonados pelo carnaval, o desejo é de que seja inesquecível. Nesta quarta-feira, ao soar a primeira sirene da Marquês de Sapucaí, corações de sambistas pulsarão forte e em perfeita harmonia. Finalmente, o maior espetáculo da Terra vai começar.

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