A Acadêmicos da Santa Cruz encerrou a terceira noite de ensaios técnicos da Série Ouro com boa apresentação da bateria de mestre Riquinho, que manteve o ritmo e deu um bom andamento para o samba que faz uma bela homenagem ao ator Milton Gonçalves. Além da Tabajara, o casal Muskito e Roberta Freitas mostrou entrosamento, técnica e muita suavidade, dando brilho ao início do desfile da Verde e Branca da Zona Oeste, que ainda teve a comissão de frente de Marcelo Chocolate e Marcello Moragas, com simplicidade, valorizando o tema que a homenageia Milton Gonçalves, mas também celebrando a cultura e a valorização da intelectualidade preta. * VEJA AQUI FOTOS DO ENSAIO

Fotos de Nelson Malfacini/Site CARNAVALESCO

Na coreografia, dois bailarinos negros, um homem e uma mulher, ele de terno branco, ela com uma espécie de malha verde, ambos com coroa na cabeça, demonstrando a realeza, dançavam e eram aclamados por outros componentes mais simples com a camisa da escola e calça branca, e e um momento de ápice da dança, os dois eram erguidos por esse outros bailarinos. * VEJA AQUI VÍDEOS DO ENSAIO

A Santa Cruz começou no esquenta cantando sambas antigos, mas não demorou muito para entoar o “Axé Milton Gonçalves! No Catupé de Santa Cruz”, samba do carnaval de 2022, um dos melhores da safra. Com uma faixa que tinha por escrito: “Preto é rei e pede paz”, a escola abriu o caminho para um ensaio tranquilo e sem correria, com um pouco mais de 50 minutos de duração.

“A primeira impressão é positiva. Hoje pra gente foi uma realização, um sonho, uma homenagem a todos que se foram, então, o sentimento que eu saio hoje é de muito orgulho e muita honra, mas isso daqui é só um pedacinho do que a Santa Cruz vai trazer no dia 21 de abril. A Santa Cruz vai fazer um belo trabalho, uma grande homenagem ao Milton Gonçalves, esse grande ídolo do Brasil, esse rei maravilhoso. O samba está maravilhoso, a comunidade está passando cantando, no dia ainda vamos ver alegoria maravilhosas”, disse o diretor de carnaval, Ricardo Simpatia.

Harmonia e Samba-Enredo

O trabalho do carro de som comandado pelo intérprete Roninho foi de alto nível, mas faltou um pouco mais de participação da comunidade que muitas vezes entrava no canto já próximo dos refrãos. Desde as primeiras alas era possível notar muita gente que até cantava algumas partes como, por exemplo, no verso do refrão do meio, “sonho meu”, trecho de melodia fácil e bonita, que era entoado até de forma forte, mas que logo depois a energia caía nos seguintes versos. Depois, a intensidade voltava a subir mais próximo do refrão principal a partir do “Preto rei” e chegava ao ápice no “Obá Obá”.

O destaque de canto ficou para a ala “atletas” que vinha logo depois dos passistas, que demonstrou um canto mais uniforme que o restante das alas. As baianas estavam vestidas com um abadá branco com detalhes em prata e o turbante verde e branco. Uma roupa leve que fez com que elas conseguissem evoluir bastante na avenida, e, claro, que não deixaram de cantar o samba nem enquanto estavam rodando.

“Dentro do que a gente ensaio está dentro da expectativa, a qualidade do carro de som não tava boa, mas tudo bem, a gente vem aqui pra brincar o carnaval, tanto tempo sem ter essa festa maravilhosa, pra gente tá bom demais poder extravasar, botar pra fora toda alegria. A expectativa é a melhor possível, acho que as pessoas estão abraçando, estão entendendo o que o nosso samba, o que é o nosso enredo, estar representando o Milton Gonçalves na Marquês de Sapucaí pra gente é uma honra muito grande e vamos tirar uma onda muito grande. Já cantei da Ruth de Souza, foi a coisa mais linda de se ver, hoje estou tendo o prazer e o privilégio de estar representando também a frente do microfone da nossa querida Santa Cruz esse samba maravilhoso”, afirmou o intérprete.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

O casal de mestre-sala e porta-bandeira Muskito e Roberta Freitas veio todo de dourado. O vestido de Roberta tinha inclusive um belíssimo colar de pedras douradas. A fantasia chamava atenção pelo brilho, mas o bailado da dupla brilhou ainda mais, apostando em uma coreografia de mais graciosidade. Com muita suavidade e com os dois se buscando o tempo todo, e com uma sensualidade também suave, respeitosa que engrandecia a ótima coreografia. A apresentação durou quase dois minutos e se encerrou já no refrão principal, no trecho “Preto é rei” com um passo realizado pelos dois, como dançando para o orixá.

“Eu estou muito emocionado! Depois de dois anos sem desfilar, sem carnaval, graças a Deus conseguimos voltar aos poucos cumprindo as recomendações dos órgãos de saúde. Estamos todos emocionados, felizes por esses momentos e o dia de hoje. Vamos lá! Que venha o desfile agora”, contou o mestre-sala.

“Vamos representar a realeza que abre os caminhos para que Milton Gonçalves passe. Exú que é o grande rei dos caminhos e faz a abertura do carnaval na Santa Cruz. No ensaio técnico nos silenciamos durante um minuto pela minha mãe e as outras vítimas da Covid e rezamos. Estamos aqui para celebrar a vida, o nosso desfile é de gratidão em prol da saúde, vacinação, para que a vida volte ao normal. Não consigo definir a alegria que será a volta do carnaval”, completou a porta-bandeira.

Bateria

A Tabajara da Zona Oeste de mestre Riquinho manteve bem o ritmo e deu uma levada bem interessante para o bom samba da parceria de Samir Trindade. Riquinho apostou em algumas bossas como no trecho do refrão “Negro rei, em que as caixas sustentavam uma batida de teor mais africano. Na parte do “Oba” os ritmistas faziam uma reverência para o público e para a cabine de julgadores. Na segunda do samba, no trecho “É sangue de Palmares, nas veias emoção, nos palcos meus altares, Orixá da nação”, a bateria desenvolvia uma bossa com os chocalhos, tamborim e cuíca que ressoavam seguindo a métrica dos versos. A rainha Larissa Nicolau puxou a Tabajara da Zona Oeste com desenvoltura em uma roupa em pedras preciosas douradas com detalhes também na cor da escola e uma tiara na cabeça.

“Aqui na frente a gente não vê muita coisa, devido ao carro de som, ao que acontece na avenida. O andamento para mim me agradou muito, agora o que aconteceu de fato, eu preciso conversar com meus diretores. Porém, eu acredito que foi tudo perfeito. Vou conversar com o meu carro de som e bateria, obviamente, mas o pensamento é manter esse mesmo andamento que foi executado na Sapucaí hoje. São ao todo 240 ritmistas no dia do desfile”, revelou mestre Riquinho.

Evolução

A escola fez um ensaio de cerca de 52 minutos, com muita tranquilidade, sem correr e sem ser lenta demais. Era possível perceber a concentração da equipe de harmonia que a toda hora incentivava os componentes para não deixar buracos. Algumas alas vieram coreografadas, como foi o caso da primeira, que vinha logo atrás do casal ainda na cabeça do desfile, antes do abre-alas, com os componentes trazendo lanças nas mãos e realizando movimentos coordenados nas fileiras e dentro do grupo. É importante destacar o show que a torcida da verde e branca fez na arquibancada.

A ala de passistas, coordenada por Juninho Carioca, teve destaque. Os integrantes estavam vestidos em uma roupa com detalhes de onça e com uma pintura artística africana em seus rostos. Com muito samba no pé, a ala fez coreografias que tem traços de danças africanas.

Já não é mais muito comum ver nas escolas a quase extinta “ala das crianças”. Diferente, a Santa Cruz não abriu mão e levou para o ensaio a sua ala mirim, que inclusive estava alegre e cantando o samba.

O que ainda se pode melhorar é um pouco mais de uma evolução mais solta, muitos componentes pareciam um pouco presos em um deslocamento mais reto com pouca dança e animação.

Outros destaques

O secretário municipal de Saúde Daniel Soranz desfilou com a blusa da escola e foi chamado pelo presidente Moisés Antônio Filho, o Zezo, para ficar ao seu lado no discurso inicial antes do início do desfile. O presidente da Liga RJ Wallace Palhares e o vice Fábio Montibelo também estiveram ao lado do mandatário, além de uma filha de Milton Gonçalves. O presidente citou a importância do homenageado para a cultura brasileira, além de lembrar da ajuda do secretário municipal na região da agremiação, no bairro de Santa Cruz, e finalizar elogiando a unidade e os esforços da liga que hoje organiza a Série Ouro.

No geral, pode se dizer que a Santa Cruz não cometeu grandes erros, teve destaque para o casal, bateria e comissão de frente, quesitos importantes, além de ter evoluído sem grandes problemas. Mas, para pensar em disputar lá em cima na Série Ouro, o ponto de ajuste está no canto da comunidade, que para um enredo que homenageia uma figura como Milton Gonçalves de representatividade tão forte, deve ser mais constante e com mais emoção, mostrando que vem da alma. A Santa Cruz vai ser a quarta agremiação a se apresentar na segunda noite de desfiles em abril com o enredo “Axé Milton Gonçalves! No Catupé da Santa Cruz”.

Participaram da cobertura: Ingrid Marins, José Luiz Moreira, Karina de Figueiredo, Lucas Santos, Luan Costa, Nelson Malfacini e Walter Farias

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