Um verdadeiro show, “Virashow”, na verdade. E, não poderia ser diferente, no Dia da Consciência Negra, a coroação de uma rainha como Erika Januza, atriz, negra, e apaixonada por carnaval, segundo a própria artista. A escola de Niterói, ainda atual campeã do Grupo Especial do Rio de Janeiro, está acostumada a fazer sempre um grande espetáculo, mesmo quando ainda não é na Sapucaí. É quase um recado dos componentes para o mundo do carnaval de como a escola está sempre preparada para tudo. Foi para Erika Januza, a garotinha que virava noites sambando na sala de casa, assistindo pela TV os desfiles da Sapucaí, como fez questão de lembrar em seu discurso. Erika agora é rainha de bateria da “Furacão Vermelho e Branco”, comandada, nada menos, que por mestre Ciça.

Como atriz, Erika teve destaque em vários papéis em séries e novelas como em “Amor de Mãe”, obra que foi transmitida no horário nobre da Globo, e, atualmente participa do elenco de “Verdades Secretas 2”, também do grupo Globo. Na emissora, em 2017, Erika também teve um papel bastante representativo para a causa racial. Em “o outro lado do paraíso”, a atriz era Raquel, quilombola e filha da grande mãe do quilombo que era representada por Zezé Mota. Na obra, Raquel era empregada e namorou o filho da patroa. A grande mãe do quilombo pagou os estudos e Raquel voltava anos depois como juíza da cidade, tomando o lugar que era do próprio patrão e agora pai do ex-namorado

Após a feijoada que contou com shows de Jorge Aragão, Projeto Nosso Samba e DJ Natinho Negrada, coube ao Cordão da Bola Preta entoar marchinhas de carnaval enquanto a futura rainha desfilava pela quadra ao lado de Mestre Ciça em elegante automóvel do início do século passado, sendo aclamada pelo público.

Esse momento de êxtase foi só o sprint inicial para o espetáculo que viria a seguir com muito samba e um pouco da história do enredo através do gingado da ala de passistas da comunidade e do intérprete Zé Paulo Sierra. O Rio dos anos 1920 foi o plano de fundo para também relembrar alguns sambas mais antigos da agremiação, como o vitorioso de 1997. Nele, Erika, finalmente, revelou sua maravilhosa roupa vermelha para a coroação realizada pelo presidente da diretoria executiva Marcelinho Calil, e pelo presidente de honra Marcelo Calil Petrus.

Emocionada após a festa, Erika contou ao site CARNAVALESCO que recebeu essa coroação como um presente não só para ela, como também para toda a comunidade negra.

“Foi um dia inesquecível pra mim, ser coroada no dia da consciência negra foi uma escolha do presidente. Pra mim, foi, assim, mais um presente porque, foi um presente pra mim, e acho que pra comunidade negra, no sentido de representar a toda realeza negra nossa que ficou tudo tão perdido historicamente. Eu considero esse um momento de representar todas as mulheres negras que são rainhas. Então, pra mim, esse presente do presidente é pra mim e para muita gente. Estou muito grata, muito grata e feliz, torcendo para que tenhamos um carnaval seguro, se Deus quiser”, contou emocionada.

Erika recebeu a faixa e flores das duas primeiras-damas da escola. As esposas de Marcelo e Marcelinho Calil. Antes da cerimônia propriamente, em discurso, Marcelinho fez questão de destacar o comprometimento de Erika com escola, ao participar de quase todos os eventos da Viradouro, inclusive, do primeiro ensaio de rua realizado na Avenida Amaral Peixoto no último dia 14, e, principalmente de todos os ensaios para o evento de sábado, mesmo com a agenda apertada por conta de gravações e outros compromissos. Em entrevista à reportagem do site CARNAVALESCO, o presidente Marcelinho Calil repetiu o elogio, ao mesmo tempo que explicou os critérios de para ter escolhido a atriz para o cargo.

“Primeiro, em toda escolha a gente traça o perfil que a gente espera de uma rainha. A Viradouro tem uma maneira de ser em que a única estrela aqui é a própria escola. Então, qualquer profissional, no caso dela, não que ela seja uma profissional do carnaval, alguém que receba como o Ciça, ou como o Zé (Paulo Sierra), alguém que de fato contribua para quesito. Mas ela, de fato, é alguém muito importante neste contexto , ocupando este cargo de rainha. Então, desde o primeiro momento, a primeira conversa com a Erika, foi muito clara essa afinidade com o ideal da escola, com a maneira da escola enxergar. É uma pessoa humilde demais e eu falo isso, não é pelo evento de hoje, eu falo isso pela hora que a TV não está aqui, que os sites não estão aqui, pelo dia-a-dia aqui na quadra. Ela realmente está feliz, ela realmente se doa ao máximo”, explicou Marcelinho.

O presidente ressaltou que a escolha por Erika, uma mulher negra, pode servir, mesmo que minimamente, para a reparação de algumas injustiças históricas.

“Acho que em um dia desses, Dia da Consciência Negra, você coroar uma rainha como a Erika, eu falei ali no palco, um país como o nosso que tem tantas dívidas históricas a pagar, não que isso seja o suficiente, obviamente que não, é um grão de areia no deserto. Mas, coroar a Erika no dia da consciência negra, dessa maneira, com tanto carinho que a gente fez, nos dá muito orgulho, e, é realmente uma grande honra”.

Com a pressão de ocupar um cargo que já teve grandes rainhas que já são também grandes nomes do carnaval, como Luma de Oliveira e Juliana Paes, Erika sabe do peso que carrega, mas espera começar a escrever em páginas belíssimas a sua própria história na escola.

“É uma responsabilidade muito grande né. Me deram o cargo em um nível muito alto, mas eu espero corresponder com todas que passaram por aqui e deixar também a minha marca lindamente. Vou fazer o possível para honrar esse presente dos ‘Marcelos’ na minha vida”, promete Érika.

Logo após ser coroada, Erika fez questão de cumprimentar um a um, todos os integrantes da bateria. O entrosamento com a “Furacão Vermelho e Branco” parece bem encaminhado, e com mestre Ciça, a artista conta que já tem falado sobre possíveis surpresas para o desfile. “Já conversei há muito tempo. Eu falei com ele, Ciça, estou à sua disposição, me joga pra cima, vamos criar”.

Esse é o mesmo pensamento de mestre Ciça, que fez questão também de destacar a representatividade que a coroação de Erika traz para a escola.

“A gente está sempre pensando em alguma coisa para ela participar, interagir com a bateria. Eu acho que haverá um grande momento pra ela na Avenida esse ano. E, eu estou muito feliz e a bateria está feliz. A escola está feliz com ela, pela dedicação dela, é uma pessoa muito humilde, muito bacana. E ela quer participar, e isso é importante. Essa coroação tem tudo a ver com o dia da consciência negra e a escola, assim, à vontade, colocar uma negra representa, representa muito. Você vê a casa lotada neste grande momento da escola, pela coroação da nossa rainha, e eu tenho certeza que ela vai representar muito bem, não só a escola, a bateria, mas todos os segmentos da escola. Espero que ela corresponda, isso eu tenho certeza e hoje é o grande momento dela”, acredita o mestre.

Com a rainha escolhida e devidamente coroada, Ciça segue com os olhares voltados para o desfile de 2022. O comandante da “Furacão Vermelho e Branco” também aproveitou para comentar sobre o samba já ter encaixado tão rapidamente com a bateria.

“Quem vem aqui, ou vai no ensaio de rua, percebe isso nitidamente, que o samba está perfeito na bateria. Agora nós temos que manter isso, a gente melhorar cada vez mais, e eu posso falar para vocês que eu já tenho 90 por cento de tudo resolvido. Dez por cento é só detalhe. E o samba caiu como uma luva, com a bateria, com o que a gente vai propor. Havia uma preocupação de algumas pessoas, mas, é aquilo, a gente trabalha sério, a agente que ver o melhor. Senta com o Zé Paulo, senta com todo mundo para ver o que é melhor. E vai ser um sucesso, promete Ciça”.

Defendendo a conquista de 2020 e com mais sede para iniciar uma hegemonia no carnaval carioca, a Viradouro é a quinta a desfilar no domingo de carnaval com o enredo “Não há tristeza que possa suportar tanta alegria”.

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