Inspirados nas referências dos adornos da arte kemética, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Beija-Flor de Nilópolis, Claudinho e Selminha Sorriso, completam neste carnaval, 30 anos de parceria, sendo 26 dedicados a defender o pavilhão da azul e branca da baixada. Com o enredo “Empretecer o Pensamento é Ouvir a Voz da Beija-Flor”, o casal desfila no segundo setor, que busca trazer de volta toda a cultura e intelectualidade que a história escondeu, a fantasia deles, mostra que o esplendor de uma civilização não está apenas em suas conquistas territoriais, mas sim na importância de construir heranças que irão inspirar seus descendentes a construir uma sociedade mais justa para seus irmãos.

Em entrevista, Selminha explicou a estética da fantasia, predominantemente preta, com detalhes em azul, a indumentária é de um primor inigualável, a porta-bandeira, que ostenta um cabelão, desfila dessa vez “careca”, assim como Claudinho, na concentração, quem passava ficava curioso com o visual dos dois. Selminha ainda destacou a importância desse enredo que desde que foi anunciado emocionou a todos.

“A fantasia representa a força da mulher egípcia, que constrói com amor, a construção da vida só é sólida quando é construída com amor, quando existe respeito, educação, quando existe a família, eu represento essa força da mulher preta egípcia, porque construir destruindo é para os homens de mau coração, infelizmente estamos no século XXI ainda vivendo isso”, conta Selminha.

Sobre o enredo, a porta-bandeira conta que ele fez com pudesse se enxergar de outra forma, segundo ela, o enredo foi um presente e ao mesmo tempo uma missão muito grande.

“Esse enredo pra mim caiu como grande presente, simultaneamente com uma missão, presente porque eu me descobri enquanto mulher preta, eu descobri o que os livros didáticos não me contaram, eu descobri que tantas vezes fomos influenciados pelo pensamento europeu. Durante muitos anos eu tinha vergonha da minha origem, ao longo dos anos eu fui perdendo essa vergonha e fui me encontrando, mas com esse enredo eu me encontrei com tanta alegria, eu nunca mais quero ser aquela Selma de 50 anos atrás, porque com 51 eu descobri o Empretecer o Pensamento é ouvir a voz da Beija-Flor”

Ao longo de três décadas de apresentações memoráveis, Claudinho e Selminha acumularam prêmios e sempre defenderam a dança do mestre-sala e porta-bandeira como um bailado em puro estado de arte.

A pandemia de covid-19 foi um momento duro para toda sociedade, para o mundo do samba não foi diferente, o cancelamento do carnaval em 2021 foi difícil, para o casal, poder pisar na avenida dentro desse contexto é ainda mais especial.

“É mágico, ainda mais depois de um momento que ficamos parados por dois anos, tentamos nós reinventar, foi um ano que a gente não tava acostumado, foram muitas perdas de pessoas que foram vítimas, vidas foram perdidas, eu mesmo perdi a minha mãe e outros amigos, parentes, então eu acho que o dia de hoje é a celebração da vida, vamos entrar nessa Marquês de Sapucaí e dar o máximo em respeito a todos que já se foram”, pontua Claudinho.

Ao longo desses dois anos de preparativos para este desfile, Selminha incorporou as bases do enredo da escola e atuou na linha de frente da escola pela luta antirracista. A porta-bandeira lutou pelo cumprimento da Lei 11.645, que trata o ensino da arte, cultura e histórias afro-brasileiras nas escolas da rede pública.

“A reparação tem que se fazer presente no dia a dia do brasileiro, que a lei 11.645 tem que ser posta em prática, porque um povo esclarecido é um povo evoluído, é um povo que aprende a respeitar o seu semelhante, tantas atrocidades que acontecem no nosso dia a dia é por desinformação, até mesmo entre nós pretos acontece o erro, muito por conta da falta de informação, é estrutural, no passado o preto não podia estudar, então essa reparação com a lei de cotas é fundamental que nós consigamos alcançar o que lá atrás foi tirado de nós, que é o direito a oportunidades iguais”, destaca Selminha.

Selminha fala sobre esses projetos e sobre a importância da escolinha de mestre-sala e porta-bandeira, iniciativa que já está na quarta geração de crianças aprendendo sobre o samba, segundo ela, isso garante a perpetuação da arte do Samba na Beija-Flor.

“Eu tô fazendo um trabalho com as crianças do instituto Beija-Flor, um trabalho que eu não tive a oportunidade de vivenciar, a escolinha não ensina somente a dançar, mas ensina noções de valores, de cidadania, de ética. É a Beija-Flor sendo mantida viva, hoje nós estamos, amanhã eles estarão, então temos um amor muito grande por essas crianças, já estamos na quarta geração, O importante é que eles entendam a importância de se assumir, de ter orgulho da sua cor, da sua raça, entender o quanto é importante respeitar o seu semelhante, independente da sua cor entender que eles tem que reivindicar os seus direitos.

“A reparação tem que se fazer presente no dia a dia do brasileiro, que a lei 11.645 tem que ser posta em prática, porque um povo esclarecido é um povo evoluído, é um povo que aprende a respeitar o seu semelhante, tantas atrocidades que acontecem no nosso dia a dia é por desinformação, até mesmo entre nós pretos acontece o erro, muito por conta da falta de informação, é estrutural, no passado o preto não podia estudar, então essa reparação com a lei de cotas é fundamental que nós consigamos alcançar o que lá atrás foi tirado de nós, que é o direito a oportunidades iguais”, finaliza a porta-bandeira.

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