Nos enredos criados por Joãosinho Trinta nas décadas de 80 e 90 havia alguns elementos constantes, que entravam em cena de acordo com o desenvolvimento do roteiro. A formação do povo brasileiro, a partir da miscigenação entre o branco, o negro e o índio, era sempre lembrada, como, também, a expectativa pela chegada do terceiro milênio.

No Carnaval de 1996, João resolveu se dedicar exclusivamente a esta temática, criando para a Viradouro o enredo “Aquarela do Brasil no Ano 2000”. Foi uma tragédia e, por muito pouco, a Escola de Niterói, que ficara em 13º lugar, não caiu para o Grupo de Acesso.

Deu tudo errado naquele ano, até mesmo a união entre índios e negros – tão celebrada em outros carnavais, dedicados a mostrar a luta de resistência dos oprimidos na formação de quilombos. João estava encantado com as novidades do Festival de Parintins. Trouxera de lá vários índios que se apresentavam na famosa Festa do Boi.

O índio que abria o setor destinado a homenagear os verdadeiros donos da terra, entrou na Avenida cuspindo fogo. Literalmente. Pulando de um lado para o outro, erguendo o arco e a flecha, o pajé enchia a boca de querosene e cuspia todo o líquido na direção de uma tocha. Saía uma labareda gigantesca, parecendo um dragão.

Ao passar pela bateria, ainda posicionada na área de armação Passarela, o índio resolveu saudar os ritmistas e cuspiu nova labareda. A língua de fogo ricocheteou na pista e foi na direção de Mestre Jorjão, que estava de costas, regendo a percussão. Atingido em cheio pela labareda, que chamuscou-lhe o traseiro, Jorjão foi parar dentro da bateria. Não fossem os diretores auxiliares, o mestre teria partido para cima do índio – o que contrariaria a união entre negros e nativos defendida no enredo.

Jorjão soltou os bichos:

– Seu filho da … ! Vira essa p. pra lá!

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