Por Guilherme Ayupp, Victor Amancio, Bernardo Cordeiro, Diogo Sampaio, Caroline Gonçalves, Gustavo Maia, Eduardo Fróis. Fotos: Allan Duffes e Magaiver Fernandes

Após a forte chuva que caiu durante a tradicional lavagem da Marquês de Sapucaí, o céu se abriu para que a Mangueira realizasse o teste de luz e som. Campeã do Grupo Especial em 2019, ela foi a única escola que teve a oportunidade de fazer um ensaio técnico na Avenida. O samba que retrata Jesus Cristo foi um dos grandes trunfos da escola para ganhar a Sapucaí. Destaque do ensaio vai para a bateria de mestre Wesley. O ensaio também ficou marcado por problemas na evolução da escola. Esperava-se que uma multidão lotasse as arquibancadas e frisas, mas o temporal que atingiu a cidade acabou afastando grande parte dos foliões.

“Nosso enredo é Jesus Cristo. Ele dizia que onde tivesse duas pessoas falando seu nome ele estaria presente. Hoje aqui eram 2 mil cantando o seu nome. A chuva parou na hora de nosso ensaio, correu tudo bem graças a Deus. Vamos em busca de um grande desfile para levar esse bicampeonato para o Palácio do Samba”, afirmou o presidente Elias Riche.

Comissão de frente

Mesmo ainda não sendo a coreografia oficial do desfile, a comissão de frente foi um dos destaques da noite. Comandada pelo casal de coreógrafos Priscilla Mota e Rodrigo Negri, a comissão de frente da Verde e Rosa apresentou uma coreografia com passos bem marcados, misturando estilos de dança distintos como o funk, o hip hop e o próprio samba. O ponto alto da apresentação acontecia quando os componentes pulavam juntos e realizavam uma “sarrada no ar”, arrancando gritos e aplausos do público presente. A expressividade dos bailarinos, além do casamento entre os movimentos da comissão e a letra do samba, principalmente no refrão principal, foram outros pontos de destaque.

“Para o ensaio a gente prepara uma coreografia especial para o público, não é a coreografia oficial do desfile. É importante pra gente ver a marcação do tempo e é mais importante ainda pra gente quebrar essa expectativa imensa que os próprios componentes tem de desfilar na Mangueira, já dá uma energizada, é um combustível, é uma energia boa que chega e ao mesmo tempo dá uma neutralizada neles, essa hora a ansiedade já bate, dá pra eles terem um gostinho do que vai ser e dá uma quebrada nessa ansiedade”, contou a coreógrafa.

Quando questionados sobre o segredo para manter a nota máxima em 2020, Priscilla revelou que é tudo fruto de muito trabalho. “A gente trabalha muito. Se a gente tem uma característica, as pessoas acham que é de inovação, de trazer surpresas e tal. Pra gente que trabalha meses e meses pra fazer um grande desfile, é o comprometimento e o trabalho mesmo. A gente hoje, por exemplo, depois daqui a gente tem ensaio. Então, faça chuva ou faça sol, a gente trabalha”.

Sobre as fantasias, somente puderam adiantar que é uma fantasia muito especial. “É uma fantasia extremamente inusitada, feita por várias mãos… Feita pela gente, pelo Leandro. É uma fantasia que é muito especial pra gente, acho que todo mundo participou dessa confecção”.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Com um bailado tradicional e muito bem executado, Matheus Olivério e Squel Jorgea esbanjaram técnica e coreografia em conjunto com a bateria, evidenciando a interação entre letra, melodia e percepção rítmica. Matheus vive um grande momento como mestre-sala e se destacou na apresentação do casal, ele fez passos de funk e dançou com muita garra e elegância. Squel, literalmente com os pés no chão, dançou com leveza e com o sorriso que é sua marca. No primeiro módulo de jurados, o casal apresentou uma diferença de ritmos que afetou a sincronia dos dois: enquanto Matheus se arriscou mais diante da pista molhada, ao realizar passos acelerados e arrojados; Squel preferiu se preservar, fazendo passos mais cadenciados e poucos giros.

“É um privilégio ensaiar neste palco uma semana antes do carnaval. Todos os ensaios são importantes, no ensaio de rua a gente está em contato mais direto com a Mangueira, a comunidade. Já na Sapucaí a gente sente essa energia e o termômetro de como está a escola. Ver a arquibancada lotada e a torcida já vale muito para a gente,” afirmou o mestre-sala.

Já a porta bandeira Squel evidenciou que os ensaios técnicos são uma forma de resistir e mostrar a importância das escolas e das comunidades.

“Os ensaios são importantes para mostrar a resistência, o protesto. Realizar os ensaios é uma forma de trazer alegria para a cidade, para a população porque eles merecem ter esse carinho e ter o contado direto com a escola. É bom também para matarmos a saudade e para a escola, de maneira geral, é essencial por conta da parte técnica e de todo o conjunto”, enfatizou Squel.

Por fim, o casal fez segredo sobre as fantasias. Tanto Squel e Matheus não falaram quais serão suas fantasias para a grande noite.

Harmonia

O canto da escola se manteve forte do início ao fim do treino. Os mangueirenses cantaram o samba-enredo com muita intensidade. Alguns versos como “Eu sou a Estação Primeira de Nazaré” e “Do céu dá pra ouvir” jogam para o alto a voz da comunidade, mas ainda há margem para melhorar em outras passagens. Durante o ensaio, o som na Sapucaí falhou algumas vezes, mas foi retomado com rapidez, sem comprometer a fluência do treino. O carro de som, com a voz principal de Marquinhos Art’Samba está em pleno entrosamento com a bateria. O intérprete chamou pelo componente durante todo teste e obteve resposta com um canto forte. O intérprete dá ao samba o protagonismo que a obra merece, sem interrompê-la com cacos desnecessários.

“O entrosamento com a bateria é o melhor possível, estamos quase 100% para o grande dia mas essa semana a gente fecha isso e vai dar tudo certo, se Deus quiser. Eu acho que esse ensaio foi uma grande resposta e esse samba pode render ainda mais que o samba do ano passado. Já fizemos nosso primeiro ato e vamos em frente para o segundo, que é no próximo domingo”, comentou Marquinhos.

Evolução

Se harmonia foi um dos pontos mais positivos do ensaio, o mesmo não pode ser dito da evolução. O quesito evolução pode ser o calcanhar de Aquiles da Mangueira, apesar de ter feito um bom ensaio, a escola não evoluiu bem e ficou faltando a espontaneidade habitual. A Verde e Rosa apresentou um andamento bastante irregular, alternando momentos de lentidão com outros em que ensaiava uma corrida. O que pode ser notado foram componentes andando, apenas cantando o samba, sem expressividade. Houve também desorganização mistura entre as alas ou a abertura de pequenos claros.

“A escola passou com canto muito forte, no andamento 146 BPM (batidas por minuto). Respeitando nossas coirmãs que sabemos querem o título, mas nós queremos mais. Vamos realizar um bonito espetáculo na avenida para conquistar esse título”, disse o diretor de harmonia, Renato Kort.

Samba-Enredo

Um dos sambas mais elogiados no pré-carnaval, a obra composta por Luiz Carlos Máximo e Manu da Cuíca funcionou de forma perfeita na Sapucaí. A obra foi entoada não só pelas alas, mas também pelo público presente, durante toda a passagem da agremiação pela Avenida. O carro de som e a bateria juntos fazem a obra crescer. O refrão e os trechos “Favela, pega a visão” e “Do céu deu para ouvir” são os momentos que o componente canta mais forte. Com a opção de uma melodia em tom baixo, a escola parece ter optado por um samba mais lento do que o que já era habituado nos ensaios.

Bateria

Comandada por mestre Wesley, a bateria Tem Que Respeitar Meu Tamborim deu um show na pista. Foram diversas bossas executadas ao longo do ensaio, mas sem dúvidas a paradinha funk foi a que mais agitou o público.

“Acho que não tem nada de diferente de tudo que a gente ensaiou o ano inteiro, só que eu não imaginava a reação do público na hora do ‘Favela, pega a visão’ que a gente faz um funk. A reação do público foi muito positiva para a bateria. É uma conexão, se você olhar o desfile do início ao fim, todas as bossas que a bateria faz, ela ajuda o casal e a comissão de frente. Isso foi ensaiado. A gente veio do início do desfile até o final com o mesmo andamento. As bossas feitas em frente às cabines de jurado, tudo perfeito”, disse o mestre, que ainda acrescentou: “A gente vem para avenida com quatro bossas, e uma surpresa que eu não mostrei, que vai ser mostrado no dia do desfile oficial”. Sobre a fantasia, ele disse: “É um segredo de estado. As pessoas vão se assustar… Mas a fantasia leve e tranquila”.

A rainha da bateria da Mangueira mostrou, mais uma vez, porque é uma das mulheres mais admiradas no mundo do samba e referência para sua comunidade. Depois de deslumbrar a avenida com mordaça e correntes em sua denúncia ao assédio contra a mulher no ensaio para o carnaval de 2019, Evelyn vestiu-se agora de Maria das Dores, uma referência cantada no samba às mães que tiveram seus filhos assassinados. No manto branco de sua fantasia, a rainha trouxe os nomes de muitas das vítimas da violência nas favelas cariocas, enfatizando dessa vez o genocídio de vulneráveis e a impunidade.

“Ao falar da fé de cada um, acabamos mexendo no íntimo das pessoas e, em consequência, sofremos muitos ataques motivados pela intolerância. As pessoas precisam passar por uma reforma íntima para entender que a fé é, verdadeiramente, sinônimo de amor. Acredito que o enredo da Mangueira vá tocar o coração de muita gente. Vamos falar do Jesus humano, do Jesus de carne e osso, que sofreu, que foi injustiçado. Assim como ele, quantos injustiçados encontramos dentro das nossas favelas, nos nossos subúrbios e guetos? Quantos ainda precisam morrer inocentes pra virar estatística?”, questionou.

Evelyn também falou da dificuldade que os sambistas enfrentaram no carnaval de 2020, com os cortes de investimento da Prefeitura do Rio de Janeiro na festa e, especialmente, a suspensão dos ensaios técnicos no Sambódromo:

“É lamentável que a prefeitura não ajude a propagar a maior festa cultural do mundo. O carnaval é a cara do Brasil, é uma pena que por motivos religiosos ou de crenças o governo não valorize a nossa ancestralidade, a nossa própria história. Infelizmente o espaço do sambista não foi respeitado, e só a campeã pode fazer o teste no sambódromo. Na minha opinião, a avenida, a nossa casa, foi fechada por intolerância. O carnaval precisa retomar sua posição de protesto e falar dessas nossas dificuldades”, concluiu Evelyn.

Comentários