Por Vinicius Vasconcelos

Abrindo o carnaval do Brasil, Vitória recebeu nas últimas três noites o desfile das escolas de samba. Na quinta, passaram na passarela as escolas do grupo de avaliação. Na sexta o grupo de acesso e no sábado o especial. Pelo quarto ano consecutivo a equipe do site CARNAVALESCO esteve presente no sábado e avaliou as escolas que presentearam o público com um belíssimo espetáculo visual. Mostrando que o carnaval capixaba se profissionaliza a cada dia.

Piedade

Pontualmente às 22h a escola de samba mais antiga de Vitória deu seus primeiros passos na passarela. Homenageando os “Franciscos”, a Unidos da Piedade aproveitou de seu esquenta para emocionar os presentes. O intérprete Danilo César e seus companheiros de carro de som declamaram a oração de São Francisco de Assis. Foi esse, talvez, o ápice do desfile da agremiação. Por ser a primeira a desfilar, era necessário um algo a mais para que o público embarcasse no enredo. Mas isso não aconteceu. Se viu uma escola de samba arrastada, partindo da comissão de frente, que deixou o desfile lento e massante. Os bons momentos ficaram por conta dos quesitos musicais e da parte plástica que estava bem acabada com trabalho artesanal em quase todas alegorias. Apesar de encarar um Sambão do Povo ainda frio devido sua posição de desfile a bateria Ritmo Forte ousou nas bossas e convenções. Na paradinha que antecedia o refrão principal, os ritmistas deixavam o trecho “Oh Piedade, seja porta-voz desse momento” para comunidade cantar e eram correspondidos. Um problema com a primeira porta-bandeira Layli Rosado deve tirar décimos da escola. Tendo em vista que ela passou mal e o casal precisou ser substituído pelo segundo.

Unidos de Jucutuquara

Na tentativa de reencontrar seus dias de glória, a Jucutuquara levou para avenida o enredo “Griot”, desenvolvido pelos carnavalescos Jorge Mayko e Vanderson Cesar, estreantes no grupo especial. O tema conseguiu estabelecer certa conexão com público por meio de fantasias e alegorias de fácil leitura. Desde a concentração o carro alegórico que mais se destacava era o da favela grafitada. Não se viu uma escola esbanjando luxo, como foi no ano de seu último título (2009), mas se percebeu uma escola satisfeita com o que estava apresentando e ciente de todas dificuldades que a atual gestão enfrenta para colocar carnaval da avenida. A fantasia do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Vinicius Costa e Julia Mariano foi uma das mais bonitas da noite. Com penas nas cores da agremiação e placas douradas, o bailado da dupla ficou ainda mais luxuoso. Também estreante na escola, o intérprete Celso Júnior mostrou sua potência vocal e conseguiu deixar ainda mais bonito o bom samba-enredo da agremiação. A Unidos de Jucutuquara não deve reencontrar o caminho da Vitória, mas mostrou que está muito próximo disso.

Mocidade Unida da Glória

Carros imponentes, fantasias impecáveis, samba funcional, belas apresentações do casal de mestre-sala e porta-bandeira. Nos quesitos, foi um desfile quase perfeito da MUG, porém, o estouro no tempo regulamentar deve tirar a escola da briga pela primeira colocação. Com o enredo “Oby: O imaculado santuário das lendas”, a vermelho e branco mostrou logo em seu primeiro setor bastante imponência. A comissão de frente trouxe no tripé a figura de um enorme índio que se abaixava e levantava atingindo quase a altura máxima permitida. Na coreografia, um colonizador holandês com índios adeptos a antropofagia. O primeiro casal Juliander Agrizzi e Gessya Santos não estava com uma fantasia muito luxuosa, mas compensou a falta de luxo com bailado belíssimo de se ver. Além da perda de décimos por ultrapassar o tempo máximo de desfile, a escola também deve ser prejudicada por dois de seus carros terem passado apagados pela avenida.

Boa Vista

Se ainda na concentração a Boa Vista já impressionava com o bom acabamento em fantasias e alegorias, na dispersão a escola se consagrou. Com o enredo “O voo da Águia anuncia: A festa é Boa pode chegar. Ao som de uma linda sinfonia a música capixaba celebrar”, que apesar do enorme título nada mais é que uma justa homenagem a música do Espírito Santo, a escola de Cariacica fez um desfile sem erros. O casal Bruno e Vanessa se encaminha para a posição de melhor dupla do carnaval capixaba. Enquanto o rapaz traz a elegância em seu bailado, a moça corresponde nos seus rodopios certeiros. Um sincronismo magistral. Emerson Xumbrega – que acumula as funções de presidente, intérprete e compositor – parece ter descoberto o segredo de compor sambas que se encaixem perfeitamente com o gosto de seu componente. A obra era cantada a plenos pulmões pela comunidade e pelas personalidades da música capixaba que estavam espalhadas pelo desfile. O trecho “nem tudo que é bom vem de fora” se destacava ainda mais. A agremiação tem se destacado nos últimos anos por fazer desfiles com “enredo debaixo do braço” e isso tem dado certo. Sem erros de obrigatoriedades a Boa Vista se encaminha para mais um título tendo em vista que suas principais concorrentes perderão décimos preciosos.

Novo Império

Provavelmente ainda não será em 2020 a quebra de jejuns de título da escola do Caratoíra. O enredo “O bê-a-bá dos Guris – Uma lição pra todos” passou de forma leve pelo Sambão do Povo apesar de possuir cunho social. Os quesitos plásticos estavam prejudicados e mesmo com fácil leitura, as fantasias não estavam muito luxuosas. Algumas apresentavam falta de acabamento, assim como as alegorias. O início do desfile foi imponente e logo na comissão de frente um enorme tripé pedia passagem para apresentar o enredo. Mais atrás desfilou o maior abre-alas da noite. Enorme em comprimento, o carro levava em seu ponto mais alto o brasão da agremiação, desenvolvido pelo carnavalesco Petterson Alves exclusivamente para o desfile desse ano. A partir do terceiro setor as alegorias foram perdendo o requinte visto na cabeça do desfile e a escola deve perder décimos. Três quesitos passaram muito bem: o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Kleyson Faria e Amanda Ribeiro, a comissão de frente do estreante Patrick Alochio e a bateria do mestre Glê. Isso poderia fazer a diferença na hora da apuração e ainda manter a escola na disputa pelo título, porém, a agremiação ultrapassou o limite máximo de tempo e deve perder décimos pro não obedecer a obrigatoriedade.

Enquanto as cinco primeiras escolas da noite apresentaram grandes desfiles que deixará a disputa acirrada pelas primeiras colocações, as duas últimas se apresentaram de forma bem aquém das demais. As comunidades da Imperatriz do Forte e São Torquato podem se preparar para o pior tendo em vista o baixo desempenho de ambas dentro da passarela.

Imperatriz do Forte

A sexta escola a entrar na avenida pelo grupo especial foi a verde e rosa do Forte São João. O enredo “Das Terras de Vila Rica à Vila Nova do Espírito Santo: Imperatriz Engalanada Apresenta a Rota Imperial de São Pedro D’Alcântara”, desenvolvido pelo carnavalesco Elídio Netto, propunha contar a história da chegada da família real portuguesa no Estado. Ciente de todos os problemas nos quesitos plásticos a comunidade da agremiação decidiu apoiar da única maneira possível durante o desfile. Cantando forte o samba-enredo, conduzido por Vinícius Moraes. A comissão de frente da escola até tentou uma conexão a mais com as arquibancadas, promovendo uma mudança de roupa na apresentação, mas não obteve sucesso.

São Torquato

Encerrando os desfiles de 2020 a recém chegada ao grupo especial, Independentes de São Torquato, cantou o enredo “O portal das ilusões”. Ao que parece, a agremiação sentiu o peso de desfilar na elite e não conseguiu acompanhar mesmo que minimamente o padrão estético das demais. Alegorias e fantasias inacabadas, problemas em evolução e inversão da posição do abre-alas podem culminar com o retorno da escola para o grupo de acesso. Ponto positivo do desfile ficou por conta do intérprete Ricardinho, figura já conhecida no carnaval capixaba por sua potente voz. O cantor conduziu muito bem o samba-enredo.

Campeã será conhecida na quarta-feira, às 15h

O julgamento do carnaval capixaba acontece da seguinte forma: 27 julgadores, divididos em três cabines, são responsáveis por julgar os quesitos bateria, samba-enredo, harmonia, evolução, enredo, alegorias e adereços, fantasias, comissão de frente e mestre-sala e porta-bandeira. Cada um deles deve atribuir notas de 9 a 10, sendo permitido o fracionamento de notas. Todas as notas obrigatoriamente devem ser justificadas.

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