Por Bernardo Cordeiro, Gustavo Maia e Renato Palhano. Fotos: Magaiver Fernandes

Depois de três anos fora do desfile das campeãs, a Unidos da Tijuca volta a sonhar com um amanhã melhor, como canta em seu hino para o carnaval de 2020. No último ensaio de rua desta temporada, os componentes provaram que estão prontos para superar não só os resultados aquém da capacidade da escola desde o dramático desfile de 2017, mas também os boatos de atraso e de falta de recursos para a finalização do carnaval atual.

Num ensaio de mais de uma hora e meia, que só terminou quando o relógio já marcava um novo dia, os tijucanos cantaram o samba e evoluíram com fome de título. Apesar da evidente falta de recursos, que se notava na ausência de camisas e de acessórios para padronização das alas, o canto dos componentes fez lembrar os anos de ouro dos ensaios técnicos da Tijuca, quando a escola ficou conhecida como o rolo compressor da Sapucaí, mesmo título recebido pela Beija-Flor.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Mostrando entrosamento e leveza o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Alex Marcelino e Raphaela Caboclo, realizou uma dança entrosada e com boas expectativas para o dia do desfile. Contando com a interação total do público, o casal fez bonito na execução da dança e recebeu aplausos calorosos dos presentes. Com uma dança correta e focada, a dupla fez bonito e não deixou a desejar.

“O ensaio de rua é sempre importante, mas, nesse ano, sem os ensaios técnicos na Sapucaí, tornou-se crucial. A pouco mais de uma semana para o desfile, essa noite foi para fazer os testes finais, acertar pequenos detalhes, mas dançamos com a sensação de pisar na avenida. Foi uma oportunidade pra aprimorar a nossa sincronia tanto com o canto quanto com a bateria. É fundamental estarmos inteiramente alinhados com todos os setores da escola”, explicou a porta-bandeira.

Harmonia

Com um canto muito forte e empolgado, os componentes da Tijuca provaram que não vão desfilar para cumprir tabela. Cantaram do início ao fim o samba, a comunidade do Borel provou que comprou ideia do samba. Com o comando de Wantuir no carro de som, a escola mostrou competência no quesito. O intérprete dispensa firulas para segurar o samba. Todos mantêm o canto em plena sincronia, da arrancada aos acordes finais que, aliás, foram executados à perfeição pelos músicos do Pavão.

“O samba deste ano é sensacional, à altura do carnaval que vamos colocar na avenida, que é um escândalo. Podemos estar um pouco atrasados, mas, na hora do desfile, estaremos prontos, como todas as outras escolas. A comunidade está mordida e, com o retorno do carnavalesco Paulo Barros, vamos contribuir muito para o engrandecimento do carnaval deste ano. Esta comunidade sabe desfilar como poucas, está acostumada a fazer desfiles excelentes. Tivemos alguns percalços, mas vamos voltar pro nosso lugar. Eu acredito que com a soma de um bom samba, um bom enredo e um bom carnavalesco, pode vir mais um título pro Borel”, disse o cantor.

O componente respondeu ao carro de som cantando desde as primeiras alas. Um detalhe importante é que o samba não é cantado a plenos pulmões apenas durante os refrãos, mas permanece durante os versos intermediários. É nítido o trabalho dos diretores de harmonia para que os componentes cantem o samba ainda com mais vontade no refrão da cabeça, soltando o grito na parte “eu sou favela”.

Evolução

Se mostrando totalmente alinhadas, as alas da escola passaram pelo ensaio com dedicação e firmeza. Com coreografias sincronizadas, levantando as mãos juntas no refrão do meio, o povo do Borel se fez presente em cada ponto do ensaio. O destaque veio na ala 18, a mais empolgada do ensaio, com componentes usando máscaras de carnaval e balões com as cores azul e amarelo do pavilhão da Tijuca. A evolução da escola estava solta e mesmo a divisão em filas não enrijeceu a performance tijucana. Composições de alegorias mostraram um pouco de suas coreografias, mas sem comprometer a fluência do ensaio.

A lotação de barracas e carrinhos de comida e bebida prejudicaram um pouco a dispersão do ensaio. Ainda assim, as alas não embolaram na pista e os diretores de harmonia, à primeira vista, não tiveram muito trabalho.

“A comunidade está quase preparada, falta um detalhe ou outro, mas 90% está fechado, os outros 10% a gente vai dar na avenida e completar os 100%. A gente está fechado, o chão da escola está maravilhoso, estão cantando, evoluindo, agora é completar com o trabalho do Paulo Barros e fazer um belo desfile”, diz o diretor de carnaval Fernando Costa.

Bateria

Como não poderia ser diferente, a bateria Pura Cadência, do mestre Casagrande, se mostrou afinadíssima nas bossas e no andamento. Com paradinhas alinhadas ao samba, a bateria da Tijuca fez bonito, empolgou o público e mostrou credencias para os quarenta pontos. com uma equipe já entrosada, os naipes de caixa alta e os surdos de terceira, deram um diferencial no molho da cozinha.

As bossas preparadas para o desfile foram apresentadas sem tropeços. Destaque para a batida funk que antecede o primeiro refrão. O arranjo, aliás, casa bem com Lexa, a rainha estreante. Apesar da pouca idade e experiência, a cantora impõe-se com certa segurança à frente da Pura Cadência.

“A bateria está pronta. Menos é mais na minha concepção. Não mudamos muita coisa no andamento, colocando entre 146 e 148. Porque a gente não trabalha só para a bateria, trabalhamos para a escola e é isso que objetivamos. Vamos apresentar 3 nossas e garantir o bom desemprenho da escola”, disse mestre Casagrande.

Samba

O samba da Tijuca, antes criticado pelo andamento não convencional para um samba-enredo, mostrou que já está na boca dos componentes e que convenceu a todos, Mesmo com uma passada inteira pequena para os padrões, o refrão do meio sobe totalmente e mantém o samba no ritmo certo, sem arrastar. Se mostrou pronto para o desfile e totalmente afinado com o que a harmonia da escoa espera.

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