A Inocentes de Belford Roxo foi a primeira escola a ensaiar na noite de sábado na Marquês de Sapucaí, a escola, carinhosamente apelidada de Caçulinha da Baixada, após forte início, a escola apresentou problemas de evolução e harmonia que comprometeram o bom desempenho do ensaio. Todavia, a comissão de frente e casal de mestre-sala e porta-bandeira, Douglas Valle e Jaçanã Ribeiro, deram show de carisma, força e referência. Foram símbolos de liberdade da afro-brasilidade na avenida. * VEJA AQUI FOTOS DO ENSAIO

Fotos de Nelson Malfacini/Site CARNAVALESCO

“Eu fiz um andamento de desfile, porque eu queria ver como é que iria sair. A escola veio tranquila, ela está em uma crescente e isso é muito bom, eu tenho certeza de que no dia 21 ela vai atingir o ápice no andamento, no canto, na evolução. Tem falhas? Lógico, como todas vão ter falhas, mas o ensaio é para isso, é pra você ter uma falha e consertar a falha. Eu brigo tanto, no bom sentido, pedindo a compactação, porque nós temos três momentos em que paramos a escola na avenida: primeiro módulo; segundo módulo e terceiro módulo. Agora, no todo eu gostei muito do ensaio, porque a escola cantou, veio com pegada, as alas vieram muito comprometidas com o canto e a comissão de frente fez uma evolução bacana e o andamento é o que a gente fez aqui hoje. Quando você coloca o peso da escola, você liga a fantasia e a alegoria é ótimo que muda, mas ao meu ver foi tudo tranquilo”, explicou o diretor de carnaval, Saulo Tinoco. * VEJA AQUI VÍDEOS DO ENSAIO

Harmonia

Durante o esquenta, os cantores entoaram o samba de 2020, em homenagem a futebolista Marta, lembrado por ser extremamente popular, foi o suficiente para inflamar os componentes e as pessoas nas frisas e arquibancadas, porém, a animação vista no esquenta deu lugar a um canto apenas satisfatório, as primeiras alas até cantavam com força, estavam animados, com elementos nas mãos e balões nas cores da escola, entretanto, o canto não era constante. É verdade que não foi visto componentes lendo a letra do samba, porém, passaram na avenida cantando pouco, ou melhor, com exceção da ala rosário, a escola cantava basicamente o refrão do samba. A ala de baianas desfilou nos primeiros setores da escola, de roupas brancas, a maioria das senhoras cantavam o samba com bastante entusiasmo, e evoluíram com bastante vigor.

“Se eu pudesse dar uma nota, daria nove, acho que podemos melhorar um pouquinho para alcançar a excelência. Podem esperar que a Inocentes virá brincando na avenida”, garantiu Tem-Tem Sampaio.

“Eu dou nove e meio, pra mim tava muito bom, para um primeiro ensaio aqui na avenida foi show de bola”, comentou Luizinho Andanças.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Inocentes, Douglas Valle e Jaçanã Ribeiro, demonstrou muita sincronia e precisão durante o tempo de apresentação, ambos estavam com uma roupa repleta de signos africanos. A apresentação durou pouco mais de dois minutos e não foi observado nenhum contratempo, os dois se mostraram muito seguros com seu bailado. Eles ainda utilizaram parte do samba para realizar uma coreografia baseada na cultura africana.

“É uma felicidade muito grande poder estar de volta ao solo sagrado. Ainda mais por estar ao lado de uma porta-bandeira maravilhosa que é a Jaçanã. O carnaval é resistência, vamos ter carnaval sim, vencer todo o medo e a angústia. Será o carnaval da história, depois de dois anos, poder estar aqui devolta, com a casa cheia. A Inocentes de Belford Roxo vem fazendo um desfile maravilhoso. Nós representaremos a meia noite, o horário que acontece muitas lutas, onde apagavam as luzes e só tinham as tochas. Aguardem que é uma fantasia lindíssima”, disse o mestre-sala.

Carismáticos e com roupas impecáveis, eles estavam bem sintonizados e foi possível ver que os olhos de ambos se encontravam constantemente ao longo da sua coreografia. Também foram destaque os movimentos em referência a alguns orixás, como por exemplo: Em um determinado momento da coreografia, o casal se separa e ao se reencontrarem com olhar fixo no parceiro, promovem o encontro dos punhos cerrados fazendo clara referência para Xangô. Douglas ainda teve alguns movimentos em referência aos terreiros de religiões de matrizes africanas, inclusive, quando no trecho “é o vento de Oyá que evoca egun” o mestre-sala mexe a mão fazendo a ventarola de Oyá, assim como Jaçanã teve movimentos que sugeriam inspirações em outros orixás.

“O coração está a mil por hora, ficamos dois anos sem pisar no solo sagrado que é a Sapucaí e agora estamos ensaiando todos os dias. A defesa da nossa fantasia é que no pátio do terço onde ela realizava o culto dos nossos ancestrais, que são os deuses Eguns, no caso do maracatu, a meia-noite os tambores se calavam e acabavam as luzes”, citou a porta-bandeira.

Samba

A obra da parceria de Cláudio Russo tem sido bastante elogiada nesse pré-carnaval, muito valente, o samba possui refrões fortes, o que permitiu aos componentes um canto forte, porém, esse canto forte não foi visto em outras partes do samba. Nem mesmo a força do carro de som da escola, comandado por Tem-Tem Sampaio, Luizinho Andanças e Silas Leléu, foi suficiente para reverter esse cenário.

“Achei o ensaio maravilhoso, serviu pra entrosar mais o carro de som com a bateria, foi um ensaio maravilhoso, o canto funcionou, ficou bem sincronizado com a bateria, o andamento foi bom e os três cantores encaixaram muito bem também, o ensaio de hoje é exatamente pra isso”, completou Leléu.

Bateria

A bateria “Cadência da Baixada”, comandada pelo mestre Juninho, demonstrou bastante segurança durante todo o ensaio técnico, no último carnaval, a bateria arrancou aplausos de toda a Sapucaí após apresentar uma bossa inspirada em uma música da banda Queens. Para esse ano, com o enredo voltado para cultura africana, a bateria que contará com 250 ritmista aposta no toque africano para emocionar o público. A rainha de bateria, Natália Lage, estava com uma roupa brilhosa branca com detalhes em prata. Sem as coreografias, mas com ao menos três bossas para o dia do desfile, afinação e ritmo, os ritmistas merecem elogios.

“Dou nota 9.9 porque eu sou muito exigente. Acredito que sempre pode melhorar, mas vamos trabalhar pra vir o 10. Não é a gente que faz a bossa, é ela que escolhe o samba. A gente vai ouvindo, vai fluindo, vai aparecendo de pouquinho em pouquinho e quando junta tudo dá uma bossa. Vem informações de Maracatu, vem do silêncio que é uma das paradinhas fantásticas e que gosto muito. E também vem mais uma bossa na cabeça do samba para alegrar a galera. Nossa bateria será a mais cadenciada possível”, garantiu mestre Juninho.

Evolução

Ponto fraco da escola, a evolução se mostrou inconstante durante toda a avenida, logo no início foi observado um espaço considerável no primeiro módulo de julgamento entre a musa e o elemento que representava a primeira alegoria da escola. Ao longo da avenida a escola foi buscando se compactar e acertar esses espaços, entretanto, a constante variação de lentidão e rapidez não foi capaz de evitar um buraco que chamou atenção por se fazer presente em todo o setor 3, ou seja, no primeiro módulo de julgadores, e ainda era visto no setor 6, que possui cabine dupla de jurados. Durante a apresentação da bateria, a ala da frente seguiu evoluindo no momento que a bateria fazia sua apresentação, um clarão se formou e a rainha foi colocada na frente.

Após o recuo da bateria a escola começou a correr de forma desordenada, alas se embolaram e vários buracos foram vistos, a velha guarda não conseguiu acompanhar a correria da escola e um grande buraco se formou no setor 10, o elemento representando a terceira alegoria da escola “O baque estanca no terço” ficou distante das alas na altura do mesmo setor.

Outros destaques

Carlinhos do Salgueiro arrancou aplausos ao vir em cima de um tripé logo na abertura da escola, bastante animado, o sambista mostrou o habitual samba no pé e conquistou o público por onde passou. A coreografia apresentada pela comissão de frente trouxe a presença de uma figura que remete a Oyá, sua coreografia mostra a presença da orixá perpassando pelo ballet que forma frequentes rodas na coreografia. Os olhares marcantes e a força nos movimentos são belos e são justos a ideia trazida no enredo.

A Inocentes de Belford Roxo será a segunda escola a pisar na Marquês de Sapucaí no dia 21 de abril, quinta-feira, com o enredo: “A meia-noite dos Tambores Silenciosos”, do carnavalesco Lucas Milato.

Participaram da cobertura: Ingrid Marins, José Luiz Moreira, Karina de Figueiredo, Lucas Santos, Luan Costa, Nelson Malfacini e Walter Farias

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