Para muitos ele é o mais importante quesito de um desfile de escola de samba. Embora possua a mesma pontuação que os demais oito, o samba-enredo é a trilha sonora da ópera popular a céu aberto, considerada o maior espetáculo da terra. Bons desfiles plásticos já ficaram sem o título no samba-enredo e outros com o visual modesto levaram o campeonato na força deste quesito que o site CARNAVALESCO traz na série ‘De olho nos quesitos’.

O samba-enredo é julgado através de dois sub-quesitos, onde cada um vale de 4,5 a 5,0 pontos no julgamento. Na letra o jurado observa sua riqueza poética e sua adequação ao enredo apresentado. Na melodia há de considerar se a mesma possibilitou um bom canto e se ela está dentro dos parâmetros que constituem uma obra musical em samba-enredo. Engana-se quem sugere que o samba já chega na avenida julgado.

No levantamento realizado pelo CARNAVALESCO a melodia é aquele sub-quesito que só pode ser avaliado na hora do desfile, pois depende de outros fatores musicais. Em 2015, por exemplo, o jurado Eri Galvão abordou um dos tópicos mais usados por jurados no aspecto melódico: a tonalidade. Segundo sua justificativa, um samba-enredo não pode ter grande variação na tonalidade, como a obra da Unidos da Tijuca naquele carnaval.

“A melodia da 1ª estrofe nas linhas 5, 6 e 7 cai um pouco, igualmente na 7ª linha da 2ª estrofe devido à tonalidade dificultando assim o canto. Algumas alas passaram à nossa frente sem cantar as referidas linhas”, explicou.

Como citado anteriormente, a letra precisa possuir adequação com o enredo para levar a nota 5,0 neste subquesito. Nesse sentido a falha nesse aspecto é uma das justificativas mais usadas pelos jurados. Um exemplo foi o desfile da União da Ilha em 2016, conforme justifica o julgador Mauro Costa Júnior.

“Frases soltas sem conexão com o enredo. ‘Os jogos vão começar. Já somos todos irmãos. Os deuses querem ficar. E todo mundo cai no samba'”, destacou em seu texto para tirar três décimos da tricolor insulana.

Há outro momento em que o dois sub quesitos em julgamento se completam, também sendo um dos parâmetros que mais fazem as escolas perderem décimos em samba-enredo. É preciso que letra e melodia se completem. Se elas não conversarem na avenida e dessa forma houve um desencontro, a escola é punida. Como exemplo a justificativa de Clayton Oliveira para o samba do Salgueiro no Carnaval 2017.

“A melodia da primeira estrofe, a partir de ‘sou poeta delirante’ até ‘saciar o meu desejo’ e da segunda estrofe, de ‘toca batuqueiro’ até ‘é feita pra sambar’ são muito confusas. A ideia de simetria de e síncope do gênero, citadas no caderno abre-alas, gerou um ziguezague de frases melódicas que se atropelam”, avaliou.

Outro aspecto que causa desconforto na comissão julgadora em samba-enredo é o andamento acelerado de execução de algumas obras. Parâmetro também observado no quesito harmonia. Mestres de bateria e a direção de carnaval das agremiações precisam estar atentas a isto, conforme alerta Alfredo Del-Penho em sua justificativa para punir a obra do Império Serrano no Carnaval 2019.

“Nem toda música mantém sua qualidade se tiver seu andamento acelerado. O samba-enredo tem como características fundamentais a ciclicidade, ou seja, cada parte alimentar outra em repetição para ser cantada não por apenas cinco, mas 75 minutos, e a função de servir ao desfile e ao canto dos componentes. Ao acelerar o samba de Gonzaguinha, algumas partes ficaram dificílimas de cantar, fazendo com que claramente muitos componentes interrompessem o canto”, detalha Del-Penho.

Aspectos mais citados por julgadores nas justificativas de samba-enredo desde 2015:

– Falta de riqueza poética da letra
– Letra em desadequação ao enredo
– Desencontro entre letra e melodia
– Subida ou queda acentuada de tonalidade melódica
– Refrões sem empolgação
– Letra e melodia sem criatividade

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