Engana-se quem pensa que a disputa de samba em uma grande escola é um mar de rosas. Os bastidores são quentes e não são raras as cenas de brigas e discussões após a escolha final. Compreende-se, afinal de contas há muita coisa em jogo: dinheiro, poder, paixão. A disputa da Portela não foge à essa regra. E os três finalistas toparam falar ao site CARNAVALESCO sobre as polêmicas que envolvem cada samba.

Talvez a maior discussão dessa disputa na Portela trate das características musicais do samba de Valtinho Botafogo e seus parceiros. Com um enredo indígena, a parceria fez uma gravação especial. Algumas pessoas disseram se tratar de uma toada e não de um samba-enredo, esteticamente falando. As redes sociais ferveram. O compositor Rogério Lobo defende a sua obra e de seus amigos.

“Não temos ideia de onde surgiu essa história, jamais fizemos e temos a total convicção de que não se trata de toada, pode ser que algumas pessoas ao assistirem nosso clipe onde a primeira passada do samba é cantado de forma com andamento mais lento lembrando cânticos indígenas tenha dado essa impressão. Entretanto, as nossas apresentações na quadra demonstram claramente que não se trata de toada e sim de samba-enredo. É só acompanhar os vídeos postados nas redes sociais, onde temos nossas apresentações do início ao fim. Acompanhe o andamento, a métrica, arranjos, harmonia e a melodia do samba, associado à bela interpretação do Zé Paulo. Além do mais, pode-se observar o compasso binário da música que nota-se claramente que se trata de samba-enredo sem nenhuma mudança ou nuances da melodia que remetam a uma toada”, garante o poeta.

Noca da Portela está de volta aos concursos da Majestade do Samba e à uma final na sua escola de coração. Mas sua última participação não foi esquecida. Após o anúncio em 2017 sua parceria protagonizou cenas de selvageria e falta de espírito esportivo ao perder a disputa. Noca fez acusações e por isso foi expulso da velha-guarda. A parceria não recebeu o prêmio como finalista. Perdoado, e de volta à escola falou sobre o episódio, que classificou como grande mal-entendido.

“Tenho 86 anos de idade e disputei concursos na Portela 20 vezes. Cheguei em 15 finais. Fui 7 vezes campeão. Eu nunca abandonei a Portela. Saio no carro da velha-guarda. Eu só vou sair quando eu morrer. Ficamos de bem depois daquele problema, o Monarco é meu amigo, meu irmão. Aquilo foi um mal-entendido. O mundo inteiro sabe quem é o Monarco e o Noca. É difícil para a comissão julgadora escolher o samba. Levar um baluarte pra a final envolve muitas coisas. Eu não preciso forçar barra, mas pesa na balança, todo mundo tem que saber disso. É respeitando que se é respeitado”, declarou.

Outra força na engrenagem da ala de compositores da Portela é Samir Trindade. Sua chegada na escola incomodou muita gente. Oriundo da Beija-Flor ganhou o samba na primeira disputa e de cara foi tricampeão. Apaixonado torcedor da Majestade, Samir é vez ou outra acusado de não ser portelense, pois fez sua vida primeiro fora da escola. O finalista também fala sobre o tema a poucas horas da grande decisão.

“No começo foi difícil, mas hoje em dia eu consigo encarar isso com muita naturalidade. Pelas circunstâncias da vida o meu início como compositor foi na Beija-Flor, onde pude construir uma bela história com cinco sambas na avenida e dois títulos para a escola. Quando decidi vir pra a Portela, é natural que algumas pessoas, sem me conhecer, me olhassem com uma certa desconfiança. Meu amor pela Portela vem do meu avô que fez parte da ala de compositores e me trazia ainda pequeno na quadra. Participei de inúmeras disputas de samba como torcedor. Mesmo durante a minha passagem pela Beija-Flor, da qual muito me orgulho e onde fiz grandes amigos, esse amor nunca diminuiu. Quando o movimento que culminou na administração Portela Verdade começou, fiz questão de participar. Não só pelas redes sociais como também estando presente em manifestações de rua. Naquele momento pude fazer amizade com personagens importantes nessa luta, como Paulo Renato Vaz e Rogério Rodrigues. Foi o Rogério, inclusive, que me levou ao encontro do nosso eterno presidente Falcon e do então diretor do Departamento Cultural Luis Carlos Magalhães para que eu pudesse ingressar na minha escola de coração. O apoio do Falcon me ajudou muito. Confesso que nunca imaginei que poderia obter êxito de forma tão rápida dentro de uma ala de compositores tão valorosa. Ano que vem completarei cinco anos na ala de compositores da Portela. Posso dizer que já me sinto em casa. Sou muito grato por tudo que a Portela me proporciona e principalmente pelas grandes amizades que aqui conquistei”, considera Samir.

A Portela é um organismo que pulsa politicamente. Vivendo a sua melhor fase na avenida desde o fim de sua era de ouro os fortes embates políticos permanecem. A agremiação passou por eleições neste ano e a escolha do samba na azul e branca é bastante particular. Diversos departamentos têm direito a voto no concurso. A articulação política está nas entranhas da Rua Clara Nunes. Consequências da dor e a delícia de ser o que é, uma gigante da cultura brasileira.

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