Griô abriu o desfile campeão da Beija-Flor de Nilópolis em 2015. Foto: Equipe Henrique Matos/Liesa

A Beija-Flor levou para a avenida em 2015 a Guiné Equatorial, resgatando um estilo tradicionalista e rico, a azul e branco, garantiu sua décima terceira vitória. No enredo, um Griô contava a história do país localizado na África Ocidental para uma criança nascida na pátria. Um sábio ancião, provido de memórias, e que muito tem a dizer sobre o passado. E por coincidência, ou não, a agremiação foi comandada por um homem bastante experiente, um Griô contemporâneo, Laíla, peça importantíssima da nilopolitana durante muito tempo.

Na época, ele era o diretor de carnaval e de harmonia, além de fazer parte do grupo de carnavalescos denominados como Comissão de Carnaval. A escultura presente no tripé que abria o desfile dos 3.701 componentes fazia alusão ao rosto do diretor, uma homenagem para quem tanto contribuiu para o apelido de “Rolo Compressor” que a escola carrega. A junção de seu comando exigente com a participação de peças-chave como Selminha Sorriso e Claudinho, Neguinho, Marcelo Misailidis, mestres Rodney e Plínio, e Fran Sérgio gerou uma fórmula de sucesso.

“Trabalhei com Laíla por mais ou menos 25 anos. Uma pessoa de personalidade forte e que não é fácil de se trabalhar. Mas, com respeito e entendimento, conseguimos seguir em frente. Tivemos momentos fantásticos. Uma das maiores personalidades do carnaval. Guiné Equatorial foi muito dele, um campeonato merecidíssimo apesar de tudo o que falaram na época”, disse Fran Sérgio, ex-carnavalesco da Azul e Branca.

Nem mesmo a polêmica envolvendo notícias sobre um patrocínio dado pelo ditador do país africano retratado conseguiu apagar a força da Beija-Flor em 2015, que acabou por se sobressair em um ano de bons carnavais. A disputa, que começou equilibrada, foi definida nos dois últimos quesitos, Enredo e Evolução.

Ficando com a segunda posição, o Salgueiro se afastou do grande título por apenas quatro décimos, sendo seguido por Grande Rio, Unidos da Tijuca, Portela e Imperatriz. A Viradouro foi a agremiação rebaixada para a Série A.

O enredo navegou por uma história que começa no primitivo, onde a natureza e o verde pulsam em cada elemento. Um tom tradicional foi dado pela escola logo no início do desfile, com uma comissão de frente orgânica e sem uso de grandes elementos cenográficos. Dirigidos pelo coreógrafo Marcelo Misailidis os bailarinos carregavam lanças que no ápice da apresentação se transformavam na árvore sagrada da vida. Escudos, ora segurados nos braços e ora colocados nas costas, tornavam-se rostos com expressões faciais. Sendo poética, e não tecnológica como no ano anterior, a coreografia do grupo rendeu três notas dez para o quesito.

Seguindo essa linha, a agremiação abriu mão do brilho produzido por pedrarias e mostrou toda a sua riqueza de outra maneira. Para contar a história dos ritos e costumes do povo guinéu-equatoriano, a Comissão de Carnaval se utilizou de tons cítricos como o laranja, o amarelo e o rosa, distribuídos por sete carros, um tripé e 42 alas. A escolha resultou numa belíssima profusão de cores e estampas, que se mesclavam ao verde, palha e marrom típicos de enredos que retratam raízes ancestrais. Uma abordagem diferente, entretanto, extremamente luxuosa como na maioria dos carnavais da nilopolitana.

“A temática foi vista bem antes. Nós fomos para a Guiné Equatorial em outubro de 2013, participar de um desfile em comemoração ao aniversário do país. Levamos 200 componentes. Conhecemos a fundo a cultura do povo. Andamos pelos mercados, onde se vendiam as comidas e os tecidos… Eu, inclusive, trouxe umas amostras de panos e elas foram determinantes para a escolha da paleta do desfile dois anos depois. Nós tínhamos vindo de um enredo com muito brilho, mas ao se falar da Guiné Equatorial, tivemos que tornar a concepção mais rústica”, afirmou Fran, responsável pela apresentação visual da escola juntamente com Laíla, Ubiratan Silva, Victor Santos, André Cezari, Bianca Behrends e Claudio Russo.

A bateria, comandada pela dupla de mestres Rodney e Plínio, contou com dez frigideiras em sua composição e carregou um ritmo tribal, construído em cima de bossas ditadas pelos tamborins. A melodia casou perfeitamente com o samba-enredo, que na voz única de Neguinho embalou o componente, que cantava a letra com ardor e brincava pela avenida. Tal fluidez fez a nilopolitana conquistar quatro notas dez em Evolução, um quesito sempre trabalhado arduamente por Laíla nos ensaios de quadra.

À frente da Soberana, Raissa de Oliveira reinou majestosamente com seu gingado pela décima segunda vez. Outra musa que abrilhantou a passagem da agremiação foi Cláudia Raia, madrinha da Beija-Flor. A atriz desfilou como destaque de chão, logo no início da Azul e Branca, sendo precedida por Selminha Sorriso e Claudinho, que completaram 20 anos de escola em 2015 e como presente não perderam nenhum décimo na apuração de seu bailado.

“Foi um grande carnaval. O samba era muito forte! Falar de África para a Beija-Flor é algo divino, imensurável. Sempre passamos muito bem quando tocamos em temas assim e não foi diferente com a Guiné Equatorial. Gostei da escola num todo, achei que os carros estavam lindos e o chão intocável. Sempre cito a roupa de 2015 como uma das melhores que eu já vesti. Vira e mexe aparecem fotos minhas nas redes sociais com essa indumentária e o penteado Black Power. Ninguém imaginou que eu usaria algo assim, foi inspirado em uma mulher africana que vi por lá. É muito bom quando a agremiação tem uma boa parceria com o país que está homenageando. Como conhecemos a cultura pessoalmente, foi impactante e digno de um campeonato!”, disse a porta-bandeira.

O ano de 2015 foi inesquecível para aqueles que participaram, seja na concepção dentro do barracão ou pisando na avenida com uma fantasia riquíssima em detalhes. Pode-se dizer que este desfile apresentado pelo povo de Nilópolis é puramente o perfil consagrado da agremiação. É dessa forma que a Beija-Flor foi vista por muito tempo no mundo carnavalesco: Uma combinação entre o luxo, a raça da comunidade, a direção ferrenha de Laíla e algumas polêmicas que não eram capazes de derrubar sua forte estrutura.

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