As escolas de samba mais tradicionais possuem personalidade e identidade, quase como os seres-humanos. Há aquelas que são mais sérias, outras mais politizadas e algumas levam a alegria como filosofia de vida. Se a União da Ilha do Governador fosse uma pessoa ela teria esta última característica. Sempre que a escola levou para a avenida temáticas alinhadas com a sua identidade histórica, o resultado foram grandes desfiles.

Na série ‘Desfiles da Década’, que o site CARNAVALESCO está apresentando sobre os grandes desfiles que vão de 2011 a 2020, é hora de reviver o enredo ‘É Brinquedo, é brincadeira, a Ilha vai levantar poeira’, que deu à tricolor insulana o 4º lugar no Carnaval 2014, o que reconduziu a Ilha ao Desfile das Campeãs depois de 20 anos. Vamos viajar na memória com esse inesquecível desfile.

Antecedentes

Sete anos se passaram entre o último desfile da Ilha das Campeãs com o enredo ‘Abrakadabra, o despertar dos mágicos’, do carnavalesco Chico Spinoza e o rebaixamento da União em 2001, o primeiro da história da escola desde que alcançou a elite do carnaval em 1975. Após perigosas colocações entre 1995 e 2000, a queda acabou chegando com o enredo ‘A União faz a força, com muita energia!’ de Wany Araújo. Nem o intérprete Wander Pires foi capaz de evitar a queda.

Quando grandes escolas caem a tendência é que, com mais estrutura e escopo de escola estruturada, passem pelo acesso sem maiores dificuldades. Mas não foi o que aconteceu com a União da Ilha. A escola amargou oito desfiles no então Grupo A, hoje denominado Série Ouro e desfilava aos sábados de carnaval. Em que pese alguns julgamentos polêmicos e injustos da escola no período, apenas em 2009 com o enredo ‘Viajar é preciso – Viagens extraordinárias através de mundos conhecidos e desconhecidos’, de Jack Vasconcelos, a escola conseguiu regressar à elite.

Essa história começou a mudar ainda no ano de 2008, quando o grupo político liderado por Ney Filardi venceu as eleições na escola. Ney pode ser apontado como o maior presidente da história da escola. Seus primeiros atos no governo insulano demonstravam o tamanho de sua ambição. Ao ascender ao Grupo Especial logo no primeiro ano de gestão trouxe ninguém menos que Rosa Magalhães, que estava de saída da Imperatriz após 18 anos ininterruptos. Com o enredo ‘Dom Quixote de La Mancha, o cavaleiro dos sonhos impossíveis’ a União quebrou um tabu de cinco anos. Evitou o rebaixamento oriunda do acesso no ano anterior. A última a conseguir o intento havia sido a Vila Isabel no Carnaval 2005.

Após o 11º lugar obtido em 2010, Rosa Magalhães foi contratada pela Vila Isabel e a Ilha foi buscar o talentoso Alex de Souza, que havia trabalhado justamente na Vila entre 2008 e 2010. No primeiro desfile sob sua coordenação artística a Ilha não foi julgada, em virtude do incêndio na Cidade do Samba. Mas a apresentação da escola rendeu vários prêmios. Nos anos seguintes, em 2012 e 2013, a escola fez apresentações regulares, deixando a impressão de que ficaria um longo período no Grupo Especial.

O Desfile

A União da Ilha apresentaria em 2014 um enredo com o seu DNA. ‘É Brinquedo, é brincadeira, a Ilha vai levantar poeira’. Quando do lançamento da temática, o presidente Ney Filardi avisou a todos que a escola iria voltar a apresentar carnaval, após as más colocações de 2012 e 2013. Para isso, a escola fez mexidas na equipe. Sérgio Lobato daria lugar a Jaime Arôxa na comissão de frente, o mestre-sala Marcinho Siqueira substituiria Ubirajara Claudino, o Bira, como parceiro de Cristiane Caldas. Em substituição ao mestre Riquinho, o promissor Thiago Diogo faria sua estreia no Grupo Especial à frente da Baterilha. Os demais membros do time foram mantidos, casos do intérprete Ito Melodia, do carnavalesco Alex de Souza e do diretor de carnaval Márcio André, que estava no posto desde 2008. No sorteio da ordem de desfiles uma boa notícia: a União da Ilha desfilaria como a segunda escola de segunda-feira de carnaval, posição historicamente nobre.

Segunda escola a desfilar na noite de segunda-feira de carnaval do Grupo Especial de 2014, a Ilha já iniciou sua apresentação impactando a avenida com uma comissão de frente que ficou gravada na memória dos sambistas, emocionando a plateia e os jurados. O coreógrafo Jaime Arôxa criou uma linha do tempo entre a infância e a maturidade, trazendo para a avenida um casal de crianças e um casal de velhinhos, que lado a lado brincavam. As crianças com seus brinquedos e os velhinhos valorizando suas memórias. Eles vinham acompanhados de seres mágicos, que faziam o papel de anfitriões da brincadeira. Esses seres praticavam na avenida brincadeiras conhecidas e universais, brincadeiras de meninas e meninos. A escola levou um elemento cenográfico que mergulhava na memória e no mundo da ilusão. Uma materialização do sonho e a memória do velhinho que resumiram com perfeição a ideia central do enredo.

O casal da União da Ilha em 2014, Marcinho e Cris Caldas, dançavam juntos pela primeira vez e construíram uma sólida parceria que dura até hoje. A fantasia da dupla era ‘Brinquedos Rituais – Rig Veda – Jogo de Dados’. A fantasia do casal trazia a representação do objeto ritualístico que virou peças para jogo e brincadeira, num traje de divindades hindus.

Após a abertura impactante e emocionante, Alex de Souza começou a mostrar seus traços e bom gosto em alegorias e fantasias com a sua assinatura. A primeira alegoria era uma fábrica de brinquedos, fabricados em terras longínquas, feitas por seres mágicos, comandados por um bom velhinho e dados apenas às crianças comportadas. A alegoria trazia as influências estrangeiras, que permeiam nossas mentes já bombardeadas por grandes corporações do entretenimento. O segundo carro era uma incrível loja de brinquedos, sonho de consumo de 10 entre 10 crianças ao redor do mundo. O terceiro carro, intitulado ‘Em Construção’, trazia um admirável mundo novo se apresentando, brincando e aprendendo, criando cenários variados, estimulando a percepção e a paciência. Em seguida a quarta alegoria, ‘Vivendo e aprendendo a jogar’ trazia uma infinidade de brincadeiras com bola, desde aquela em que se joga sozinho até as que são jogos de competição entre equipes. Claro que o futebol dominou o cenário, por ser o esporte mais popular do Brasil. ‘Brincando com a tecnologia’ foi o quinto carro do desfile insulano e ‘E eles criaram a vida’ a sexta alegoria. O primeiro trazia brinquedos tecnológicos que chegavam às telas do cinema e o segundo os brinquedos oriundos das fábulas e literatura. ‘No quintal do Brasil’ encerrou o desfile da União da Ilha com um importante recado sobre a infância ideal em nosso país.

Após um desfile que encantou a todos, a União da Ilha foi aclamada pela crítica especializada. Venceu o Estandarte de Ouro como melhor enredo e o prêmio de revelação foi para o mestre-sala Marcinho. O enredo venceu ainda as premiações do Estrela do Carnaval e [email protected] Na premiação ofertada pelo site CARNAVALESCO, a escola levou ainda como melhor conjunto de alegorias e Ito Melodia alcançou o prêmio de melhor intérprete pelo [email protected] Com tantas premiações e elogios a expectativa para a apuração era grande. Voltar nas Campeãs era uma realidade palpável.

A União da Ilha iniciou a apuração com os quesitos mais fortes da escola, que eram os de visual plástico. Confirmando o que ocorreu na avenida, a escola gabaritou Enredo e Fantasias e chegou a liderar a apuração junto com a Imperatriz. As notas de alegorias (9,9; 9,8; 9,8 e 10) jogaram a escola para o quarto lugar, onde permaneceu e não saiu até o fim da apuração. A escola conseguiu gabaritar também o quesito Evolução. Ao fim da apuração, a escola celebrou a volta às Campeãs depois de 20 anos.

Os Personagens

Thiago Diogo, mestre de bateria: ‘Fui o primeiro mestre da história da Ilha que veio de fora’

O mestre Thiago Diogo daria um passo enorme em sua carreira depois do desfile de 2013. Um dos mais promissores da sua geração, era pule de dez que receberia uma oportunidade no Grupo Especial. Ela chegou através da União da Ilha. Ao site CARNAVALESCO, Thiago relembra sua chegada e rápida passagem pela escola.

“Toda nossa preparação do dia que cheguei até o desfile foi especial. A Ilha é uma escola gigante. A comunidade tem um amor que você não encontra em outro lugar. Foi um 4º lugar com gosto de campeonato. Foi um dos desfiles mais legais que a Sapucaí já viu. O Alex foi muito feliz. Te confesso que saí da Ilha pelo desafio de trabalhar em uma bateria que há muito tempo não ganhava nota e tinha uma característica parecida com a minha. Substituir Riquinho e Odilon na Ilha é impossível. Tentei implantar o meu trabalho. Tenho muito respeito por todos os mestres. Colocar uma bateria na pista é um desafio enorme. Fui o primeiro mestre da história da Ilha que veio de fora”, recorda.

O mestre lembra das muitas parcerias de sua carreira com o maestro Jorge Cardoso. Thiago enaltece a figura do presidente Ney Filardi e do diretor de carnaval da época Márcio André.

“Já era um namoro antigo. O Márcio André já conversava comigo. O Ney foi um paizão, um baita gestor. Os mestres Odilon e Riquinho já tinham se desligado. Me senti à vontade por isso. Trabalhar com o showman do Ito foi especial. A disputa de samba foi muito equilibrada. Fomos aliando nossas loucuras com a parte musical. Tenho grande parceria com o Jorge Cardoso. Essa da Ilha foi uma das mais especiais”, finaliza.

Alex de Souza, carnavalesco: ‘Esse enredo estava na gaveta da escola desde 2011’

‘É Brinquedo, é brincadeira! A Ilha vai levantar poeira’ poderia ter sido o enredo da União da Ilha no Carnaval 2011, quando a escola não foi julgada em virtude de um incêndio que atingiu seu barracão na Cidade do Samba. A temática foi apresentada à direção da escola quando Alex de Souza foi contratado, após o desfile de 2010. Quem conta o bastidor é o próprio Alex em entrevista ao site CARNAVALESCO.

“A intenção era antiga. Mas quando me reuni pela primeira vez com o presidente Nei Filardi, o vice Djalma Falcão e o diretor de carnaval Marcio André, eu propus três enredos, esse era um deles. O escolhido foi o enredo do Darwin, sendo assim, a “brincadeira” só saiu da gaveta, três anos depois”, recorda Alex.

O carnavalesco lembra que dentro da própria escola havia setores que desconfiavam da capacidade daquele desfile ser competitivo e setores da imprensa especializada também desacreditaram da União no pré-carnaval.

“Ao longo do processo, acreditei que chegaria ao Sábado das Campeãs, conforme ia tomando forma no barracão. Mas a mídia especializada não apostava nisso não. Um conhecido colunista, por exemplo, de um grande jornal impresso, publicou antes da apuração, que a Ilha levaria anos pra entrar no seleto grupo das seis primeiras colocadas. Até pessoas da própria escola não botavam fé. Então desanimei, já não esperava muita coisa. O quarto lugar anunciado, veio como se fosse um campeonato para mim e para muitos insulanos. A verdade é que muita gente só deu mérito ao desfile, depois do resultado e dos prêmios que recebeu, como o Estandarte de Ouro de melhor Enredo”, complementa Alex.

Alex de Souza considera o desfile da União da Ilha de 2014 como uma de suas maiores criações na avenida.

“Foi uma das minhas principais realizações, senão a maior. Um belo carnaval, ainda que não tenha sido a melhor colocação da minha trajetória, nem mesmo da escola, mas marcou
demais. Foi uma experiência única, em relação à criação e desenvolvimento, sobretudo de fantasias. O enredo tinha uma ternura, que tocou o coração de muita gente, afinal, todos fomos crianças um dia”.

O Samba

Compositores: Paulinho Poeta, Régis, Gabriel Fraga, Carlinhos Fuzil, Canindé e Flávio Pires
Intérprete: Ito Melodia

Levanta a poeira,
Vem nessa brincadeira que eu quero ver
Nesse baú da memória,
São tantas histórias… É só escolher
Desperta, encanta sua alma de infância
Sem forma nem cor fabrica esperança
Na vitrine vejo o meu olhar no seu olhar
Perder ou ganhar, ganhar ou perder
Se conectar, jogar e aprender
Um super-herói pode ser você

Vem no reino da ilusão, me dê a sua mão
E pegue na estante, um livro fascinante
Personagens da imaginação (é tão bom, é tão bom)

Brinque com o que a vida lhe dá
O barro vira ouro no chão
Vem reciclar a saudade, de ioiô nas mãos de iaiá
Nas travessuras ao léu, por esse imenso país
Vai colorindo o céu em um bailado feliz
Meu carnaval é o quintal do amanhã
Tá na hora, vamos simbora
Amar é dar proteção ao maior tesouro da nação!

Hoje a ilha vem brincar.. Amor!
Vem sorrindo cirandar que eu vou
Dar meia volta, volta e meia no seu coração
Ser criança não é brinquedo não!

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