Primeiro dia do ano e aproveitamos a data para pensarmos no que vem pela frente. Atualmente, a gente carece de iniciativas, falta vontade política, existe perseguição religiosa, e, claro, a relação do sambista com o carnaval não é a mesma dos anos de 1980 e 1990. Estamos em um nicho e nele ainda podemos ser fortes. O mundo é outro, passamos por transformações sociais, tecnológicas e não conseguimos caminhar com os novos tempos. O site CARNAVALESCO, que completa 13 anos em 2020, apresenta seu editorial anual e lança temas que estão nas gargantas dos sambistas, mas que seguem presos no controle arcaico das escolas de samba. Antes de entrarmos nos pontos que consideramos fundamentais é necessário afirmar que as apresentações oficiais na Marquês de Sapucaí seguem e vão seguir com forte apelo de público, prova são as frisas praticamente esgotadas e a grande procura por grandes camarotes. Porém, a gente quer pensar o carnaval o ano inteiro e todas suas vertentes.

Construção política, ideológica e financeira

Já passou da hora de termos mecanismos de captação de investimento para os desfiles. Óbvio que entendemos que o poder público deve ajudar com a subvenção, com leis de incentivo e com sua máquina operacional. Essa via não pode ser a única mão das escolas de samba. O estudo das marcas, elaboração de produtos, eventos, atividades comunitárias e sociais devem fazer parte do dia a dia de cada agremiação. Agir o ano inteiro, fazendo inclusão social e trabalhando o lazer nas diversas regiões da cidade são etapas que atraem investimento privado para realização de situações que minimizam a ausência do poder público.

Sabemos que faltam iniciativas das escolas, algumas agem de forma pontual, mas ainda é pouco para o vasto poder de uma agremiação como agente transformador da realidade social. A cobrança também é fundamental na ausência do poder municipal, estadual e federal. Se faltam projetos também não existem parcerias. O município se fechou ao carnaval. Atacou a festa, fez politicagem com os grupos de base do carnaval, mas esqueceu da essência que prometeu na eleição. Cuidar das pessoas e apoiar o carnaval. Marcelo Crivella chega ao seu último ano de governo virando as costas para os desfiles. Ele que foi na sede da Liesa, fez uma reunião com diversos representantes das escolas de samba e prometeu manter todas as conquistas e até criar outras. Vai terminar seu mandato como o prefeito perseguidor das escolas de samba. Diz que não é pela sua atividade religiosa e ataca o alto faturamento da Liesa e da TV Globo, mas não move nem um centímetro de sua ação política para Série A e massacra sem verba e barracões diversas comunidades da cidade em que é o síndico e deveria ser o maior defensor.

Quando o barco parece que vai afundar surge uma turma que pensa o desfile e busca renovar sua estrutura. As chegadas de Leandro Vieira, Jorge Silveira, Leonardo Bora, Gabriel Haddad, João Vitor, Edson Pereira, Tarcisio Zanon, Marcus Ferreira, entre outros, mexeu com os enredos e resgatou o frescor do pensamento do que é um desfile de escola de samba. Além disso, a época é tão gloriosa que no mesmo período podemos conviver com os talentos de Jack Vasconcelos, Alex de Souza e os consagrados Paulo Barros, Alexandre Louzada, Laíla, Cid Carvalho, Rosa Magalhães e Renato Lage. Sem dúvida, o carnaval do Rio de Janeiro respira e muito graças aos seus artistas. São diversas vertentes de pensamento: a política e social tão importante em um espetáculo cultural, o plástico traduzido nas alegorias e fantasias, o técnico na defesa dos quesitos e o entretenimento que mexe com nossa imaginação. Cada ano será conquistado por uma vertente e todas são fundamentais para o desenvolvimento dos desfiles e a atração de mais e mais sambistas e simpatizantes para quadras, ruas e, enfim, o Sambódromo.

Técnica de desfile, opinião e eventos

Perto de completarmos 13 anos sabemos da responsabilidade que é manter um veículo de jornalismo no ar. Em tempo de polarização, opinião por todos os lados e de milhares de canais de comunicação ativos, o nosso perfil tende a ser questionado e alvo de debates o tempo inteiro. Não nos furtamos a viver todas etapas de uma cobertura jornalística do carnaval. Não funcionamos apenas como reprodutores de textos oficiais ou reprodução noticiosa de algum fato. Desde o início, o site CARNAVALESCO propôs fazer uma cobertura/competição das escolas de samba. Entendemos que os desfiles são avaliados por quesitos e que nossos artistas são julgados por notas pelos jurados. Dessa forma, nós buscamos ir muito na técnica, visitando ensaios de rua, quadra, conversando com cantores, carnavalescos, casais, coreógrafos, mestres de bateria, diretores de carnaval, enfim, com quem realmente faz o desfile. Como um veículo de comunicação e com alcance
que superou todas nossas previsões também buscamos aliar um pouco de entretenimento para nossas páginas, através de enquetes, séries de entrevistas, pautas que trabalhem mais o comportamento e que dialoguem com o público que também visita o site, mas que não é tão xiita em busca de informações técnicas das escolas. Aliás, a gente gosta de frisar que adoramos os nossos “xiitas do carnaval” por sabermos que eles são sedentos de informação e opinião o tempo inteiro, e, como a gente, vivem o mundo carnavalesco durante o ano inteiro. Assim, optamos por chamar de fãs de carnaval os leitores do site CARNAVALESCO, uma forma carinhosa de estreitarmos os laços.

Por vibrarmos com a competição, respiramos todas atividades carnavalescas, sejam elas no Especial ou na Série A. Nos últimos anos, pegamos a estrada e chegamos em São Paulo. Sentimos a paixão pujante em cada escola paulistana e decidimos levar o modelo CARNAVALESCO para o carnaval do Anhembi. Como aconteceu no início no Rio de Janeiro, a missão conta com espinhos, mas também existem flores. A cada ano que passa floresce ainda mais a presença da nossa equipe, aliado ao trabalho exemplar de marketing e comunicação feito pela Liga-SP. Para o Carnaval 2019, a gente visitou todos barracões e fez todos os ensaios técnicos. Agora, a gente subiu ainda mais o nosso sarrafo. Estamos visitando os ensaios de rua/quadra, produzindo reportagens especiais e buscando dar através da nossa cobertura o valor de crescimento e profundidade jornalística que o carnaval paulistano merece.

Lamentamos que os problemas enfrentados pela escolas de samba tenham impactado também a cobertura especializada. Nunca foi fácil cobrir carnaval. É preciso ser muito apaixonado. São horas sem dormir, falta de estrutura para trabalho nas quadras, dirigentes que confundem bom relacionamento com o trabalho do jornalista, e, principalmente, a falta de recursos para sobreviver com uma cobertura diária. Como as empresas não investem nas escolas, elas praticamente desconhecem os especializados. São promessas, promessas e mais promessas. Muitos sonhos e realidade cruel. Assim, diversos colegas foram desistiram. Muitos com grandes trabalhos e importantes para a cobertura do carnaval. Amamos demais e queremos ampla cobertura e em diversos veículos, afinal, cada um tem um perfil e no fundo quem ganha somos todos nós sambistas que temos muito conteúdo. O site CARNAVALESCO, após 12 anos de luta, quase 6 meses parado em 2018, pode celebrar ótimos números em sua audiência e uma verba mínima que nos permite ter uma equipe fixa para produção de conteúdo. Ressaltamos que isso é pouco. Se estamos na cidade do carnaval, o lugar do maior espetáculo da terra, é urgente que os veículos especializados sejam olhados como canais de resistência e de promoção e divulgação das escolas de samba. Isso não altera em nada a opinião. Existe abertura para todas formas e o produtor de conteúdo saberá identificar o momento certo da opinião e o momento ideal para carregar a bandeira de sambista.

Entramos também na questão dos eventos. Hoje, a gente conta em uma mão as escolas que fazem ensaios comerciais em suas quadras. O medo do espaço ficar vazio e gerar prejuízo afasta a criatividade. Sabemos que os tradicionais ensaios comerciais seguem um padrão e que hoje não atraem mais jovens e adultos de média idade. Falta inovação, mas sem perder a identidade. Como fazer? Cada escola tem total condição de descobrir e realizar. Inúmeros são os desafios. Cerveja cara e de qualidade duvidosa, alimentação ruim e também cara, som muitas vezes inaudível, além dos banheiros repletos de problemas. Entendemos que não existe uma solução rápida e fácil. Acreditamos que é possível mudar, mas para isso é preciso querer e executar. Temos escolas que são exceções e que conseguem trabalhar o ano inteiro.

Torcemos que o ano de 2020 seja de mudança. Não apenas eleitoral, afinal, os recursos públicos podem voltar, mas sabemos que precisamos resolver também os nossos problemas estruturais e de reconciliação com os sambistas. Aguardamos com muita ansiedade o momento que o sambista voltará a entender e recuperar seu protagonismo. Enfrentará barreiras, criará alternativas e resguardará sua identidade. Competência não nos falta. Temos diversas personalidades que precisam receber o reconhecimento como estrelas da nossa cultura. Por isso, o site CARNAVALESCO sempre terá em suas páginas louvações para Selminha Sorriso, Laíla, Leandro Vieira, mestre Ciça, Renato Lage, Rosa Magalhães, Lucinha Nobre, Squel, Julinho, Rute, Giovanna, Evelyn Bastos, Bianca Monteiro, Gilsinho, Tinga, mestre Rodney, Marcella Alves, e demais representantes e principais responsáveis pelo maior espetáculo da terra e a maior representação cultural deste país.

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