O Carnaval do Rio de Janeiro vive um momento de indefinições e de incertezas. A plenária realizada pela Liesa no último dia 24 de setembro, com a presença de representante das doze agremiações que formam o Grupo Especial, decidiu adiar os desfiles previstos para fevereiro do ano que vem, devido à pandemia da Covid-19, porém não estipulou nenhuma nova data para o evento. Aliado a isso, a crise gerada pelo atual estado de calamidade pública agravou a já frágil situação financeira das escolas de samba, que nos últimos anos, conviveram com a escassez de recursos e a falta de apoio dos órgãos públicos. O resultado, na maioria dos casos, tem sido a demissão em massa de funcionários, que muitas vezes, tem na folia sua única fonte de sustento.

Em meio a este cenário inóspito, o sambista carioca irá às urnas no próximo dia 15 de novembro para eleger os 51 vereadores que irão formar o plenário da Câmara Municipal do Rio, além do prefeito ou perfeita que irá comandar a capital fluminense pelos próximos quatro anos. Uma decisão que pode e deve afetar os rumos do maior espetáculo da Terra. E entre as centenas de postulantes a uma vaga no legislativos, alguns nomes são velhos conhecidos dos amantes do samba e do Carnaval. Têm desde intérprete a presidente de escola, passando até por um ex-secretário estadual de Cultura. O candidato Quinho do Salgueiro não respondeu aos contatos de nossa reportagem.

O site CARNAVALESCO ouviu quatro candidatos à vereador na cidade do Rio, que são ligados ao mundo do samba e ao universo das escolas. São eles: Antônio Marcos Teles, o popular Tê, presidente do Império da Tijuca; Arthur Franco, intérprete da Imperatriz Leopoldinense; Nilce Fran, coordenadora da ala de passistas da Portela; e Ruan Lira, ex-secretário estadual de Cultura e Economia Criativa do Estado do Rio.

Para a reportagem, eles falaram acerca do adiamento dos desfiles e do atual cenário de crise na folia. Confira abaixo:

CARNAVALESCO: Qual a sua opinião acerca do adiamento dos desfiles em 2021?

Antônio Marcos Teles, o Tê: “Sou de acordo com o adiamento até ter uma vacina”.

Arthur Franco: “Sou favorável ao adiamento. Acho que foi tomada a decisão correta. O carnaval tem que ser feito com segurança, principalmente dos desfilantes, de quem está na quadra e de quem está de frente nos trabalhos. As escolas estão pensando nos seus componentes. Tem que respeitar o momento, ainda não acabou a pandemia. Sem uma vacina é difícil ter desfile, seria muito risco colocar toda uma equipe, todo um trabalho na rua. Afinal não é só o desfile em si, tem os ensaios técnicos, muita aglomeração. Então, para mim, foi tomada a decisão correta, a mais coerente”.

Nilce Fran: “Parabenizo o presidente Jorge Castanheira, da Liesa, juntamente com todos os presidentes das escolas de samba pela decisão do adiamento do Carnaval 2021. A saúde tem que ser preservada e estar sempre em primeiro lugar. O cuidado com o ser humano é muito importante. Sabermos a força do carnaval, que é a maior festa em céu aberto do mundo, sabemos o quanto ele atende aos profissionais e as suas famílias, que todas essas pessoas estão sofrendo absurdamente com tudo isso, mas o adiamento é a melhor decisão. Parabéns”.

Ruan Lira: “O adiamento foi muito prudente dada as condições, não só de saúde, mas financeiras também. O Carnaval é uma cadeia produtiva em que existe um planejamento anual, então não é da noite para o dia que se faz esse grande acontecimento. É de muita sabedoria poder adiar esse maior monumento cultural da cidade e do estado, para que a gente possa se planejar melhor e com prudência. Eu sou otimista e acredito que com uma possível vacina avançando até o final deste ano, no período certo, dando um tempo para vacinar a população, até o meio do ano, a gente pode ter um Carnaval bem bacana em 2021. Até para comemorar o fim dessa pandemia e fazer uma bela homenagem aos profissionais da saúde, que foram nossos heróis, e também homenagear as pessoas que infelizmente perderam suas vidas. O Rio de Janeiro precisa disso, precisa ser resgatado, apostando no que sabe fazer de melhor e que é sua vocação natural: a cultura, o turismo e os eventos”.

CARNAVALESCO: Quais são suas ideias ou sugestões de alternativas para as escolas sobreviveram e não ficarem paradas neste momento de indefinição?

Antônio Marcos Teles, o Tê: “Infelizmente não temos alternativa, a não ser depender da ajuda do poder público. Nossa única moeda de troca é o espetáculo e na pandemia estamos sem poder oferecer isso. Podemos também ter uma ajuda emergencial do poder público ou empresas privadas para tocarmos barracão e ateliê. Sem uma injeção desse tipo não teremos chances de fazer Carnaval”.

Arthur Franco: “O sambista gosta de samba. Aquele que desfila nas escolas tem amor pela sua bandeira. Acho que as escolas podem fazer as lives e tentar patrocínio, para que tenha uma situação que dê para estar ajudando a pagar os funcionários do barracão. Outra opção seria abrir as quadras com uma redução de pessoas, com todo cuidado, com álcool gel na porta, com uso de máscaras. Todas as pessoas que frequentam a quadra tem a sua carteirinha, tem as inscrições. O próprio componente da escola pode dar essa força, de voltar ao samba, mas dividir: metade vem num domingo, outra metade vem no seguinte; ou então divide durante um mês em quatro grupos. Tudo para poder ter continuidade nos trabalhos, mas de uma forma cuidadosa. Com isso, as escola iam conseguir dar uma respirada, botar o bar em funcionamento também. Seria uma ideia das escolas realmente estarem tendo algum movimento e sobrevivendo”.

Nilce Fran: “Acredito que neste momento a melhor opção é a continuação das lives. O distanciamento se faz necessário e através das lives nós conseguimos arranjar dinheiro para ajudar esses profissionais da folia. Não tem como fazer Carnaval sem o distanciamento e as pessoas precisam de ajuda. Então, na minha opinião, a melhor opção são as lives”.

Ruan Lira: “As escolas não tem de pensar em sobrevivência. O Carnaval não é um gasto. As pessoas não estão ali com o pires na mão. Carnaval é um investimento que a gente faz na geração de emprego e renda. Carnaval é uma indústria, uma cadeia produtiva inteira, que precisa de investimentos, não só de setores privados. Neste momento dificuldade, a gente precisa de apoio público sim para o Carnaval. Tanto o poder público, quanto o poder privado, tem que se unir para que a gente continue mantendo ativa a indústria carnavalesca. Muita gente põe comida na mesa a partir disso”.

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