Única escola a ensaiar neste domingo, a Unidos do Viradouro fez uma apresentação emocionante durante o teste de luz e som da Marquês de Sapucaí. Cantando alto a todo momento, a comunidade da escola abraçou o samba composto por Felipe Filósofo e parceria. A bateria Furacão Vermelho e Branco, comandada por mestre Ciça, deu um show à parte em suas bossas e coreografias. O elegante bailado do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Julinho e Rute, também foi um dos pontos altos do treino. A atual campeã do carnaval mostrou no chão da avenida, ao longo de 1h05 de ensaio, que deverá disputar o bicampeonato. * VEJA AQUI FOTOS DO ENSAIO

Fotos de Allan Duffes/Site CARNAVALESCO

Antes da arrancada da escola, o intérprete Zé Paulo Sierra entoou trechos do samba de cada uma das agremiações que compõem o Grupo Especial no carnaval de 2022. No esquenta, o cantor relembrou o samba do bicampeonato da escola, o famoso “Ensaboa”, que foi muito cantado pelo público das arquibancadas. Antes do início, o presidente de honra da escola, Marcelo Calil, discursou para incentivar a comunidade no ensaio. A se destacar, também, apresentação da bateria ao setor 3, na qual os ritmistas tiraram as máscaras, em alusão ao verso do samba da Viradouro. Em seu grito de guerra, Zé Paulo homenageou o falecido Dominguinhos do Estácio, muito identificado com a escola de Niterói, com o seu “Olha a Viradouro chegando”.

“Eu venho na bateria. Por isso, eu vou falar meu sentimento. Foi o melhor possível, conseguimos alinhar tudo aquilo que eu venho falando desde sempre que é emoção, alegria, espontaneidade e técnica. Isso é o que nós entendemos ser necessário para fazer um bom desfile, não estou falando de ganhar título, porque o importante é fazer um bom desfile e aí o título se torna uma consequência. A avaliação de hoje é a melhor possível, até mesmo pela resposta do público e pela resposta de alguns profissionais que passaram por aqui. Estou muito feliz e a gente sabe que treino é treino e jogo é jogo, mas é bom saber que se treina bem. É manter essa pegada de hoje, mas se você me perguntar no último ensaio eu ainda vou te responder que queremos trabalhar alguma coisa. Eu diria que hoje estamos 100% prontos, porque no desfile temos que estar 120%”, disse o presidente Marcelinho Calil.

Harmonia e Samba

Confirmando o que já vinha se repetindo nos ensaios da Avenida Amaral Peixoto, em Niterói, o canto dos componentes da Viradouro é forte e contínuo. Os componentes de todas as alas, do início ao fim da escola, berravam o samba, muitas vezes dificultando a audição da voz do intérprete e do carro de som. A ala das baianas passou cantando e girando bonito, com todas elas de saia branca, lenço branco e cordões coloridos. A escola está totalmente envolvida em um “lirismo e estado de graça” por conta dessa volta do carnaval. A primeira ala coreografada, e a ala 21, já perto do fim, que tinha componentes com guarda-chuvas na mão, foram os grandes destaques no canto.

Se havia qualquer dúvida ou questionamento acerca do funcionamento do samba da Viradouro, em formato de carta, essas foram completamente sanadas na Sapucaí. O auge é a declaração de amor no fim: “Carnaval te amo, na vida és tudo pra mim”, cantada com ainda mais intensidade pelos componentes da escola. O “clima envolvente” de todo o ensaio foi mantido com excelência pelo carro de som da escola, que tem o intérprete Zé Paulo Sierra como voz principal.

“Hoje a gente sabe que é uma grande festa. A Viradouro foi campeã, então é legítimo fazer essa festa, esse teste. Mas não esquecemos da parte técnica, pois estamos fazendo um bom trabalho na Amaral. Mostramos que de fato estamos preparados para disputar título e fazer uma boa apresentação no dia 22 de abril. A gente tem trabalhado muito tempo. É um carnaval que está demorando dois anos e dois meses. É claro que entre uma proibição e outra de fazer o carnaval, viemos ensaiando e treinando. A escola ensaia muito, a expectativa foi fazer o melhor possível aqui e no desfile ainda mais. O que erramos aqui, temos 10 dias para sentar, conversar e consertar. Não temos que ir com esse peso todo. Fazendo algo parecido com o que acontece na Amaral, consigo que seja satisfatório. Se alguma outra escola fazer melhor do que a gente, não é conosco. O que vamos fazer é algo melhor do que em 2020, posso garantir”, disse Dudu Falcão, um dos diretores de carnaval.

“Reproduzimos o que fizemos esse tempo todo na Amaral Peixoto. Queria muito aproveitar para agradecer a Deus por estar aqui, toda hora e glória a ele. Atravessamos um momento de muita dificuldade, não digo só a iradouro, e sim todas as outras escolas. Noite maravilhosa, espero que todos tenham sido abençoados por esse desfile. Se não estivéssemos prontos faltando 10 dias para o carnaval, seria um erro nosso. Mas aquilo que por ventura analisarmos que deu errado, sentaremos para conversar e ajustar com certeza. A marca da Viradouro é ser uma escola eclética. Uma escola que fala de amor, paixão e emociona as pessoas. Nosso sentimento é esse, nossa mensagem é essa. Retomar, renascer. Nossos artistas nos brindaram com um enredo que não é nosso, é de todos vocês que podem esperar um desfile com muito amor e paixão, pois é o que sabemos fazer”, completou Alex Fab, outro comandante da direção de carnaval.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Julinho e Rute, fez uma excelente apresentação, esbanjando talento e emoção do começo ao fim. A coreografia da dupla está muito bem sincronizada entre eles e o samba da escola. Os dois conversam no olhar para executarem seus movimentos e apresentarem o pavilhão da Viradouro. O figurino impecável era predominantemente bege, com detalhes amarelo na barra da calça dele e na barra da saia dela, como se fosse um tecido do século passado. Julinho levava uma coroa na cabeça, enquanto Rute usava uma tiara com as flores de Obaluaê, as pipocas. Os dois cantavam o samba durante toda a avenida. O bailado do casal em frente ao módulo de julgamento durou cerca de 2min23s.

“Eu vou repetir uma palavra para você que eu já repeti várias vezes, minha palavra é gratidão! Eu estou muito grata por poder estar aqui hoje. Sou grata pela saúde, saúde dos que podem estar aqui na arquibancada, cada desfilante e, que também é a sensação de poder estar aqui representando, desfilando e ensaiando para quem não pode estar aqui. A gente sempre ensaia com outro andamento, com o samba ao vivo, mas hoje pudemos fazer mais um ajuste de tempo, junto com a bateria. O bom é que a gente conseguiu ajustar no próprio ensaio e nas cabines saiu super certo”, disse a porta-bandeira.

“A sensação é de paz, de alegria, de agradecimento por a gente ter passado esses dois anos, do jeito que a gente passou, independente do carnaval foi o que aconteceu em nossas vidas, no mundo inteiro. Hoje, a gente tem a sensação de sobrevivência, o carnaval sobreviveu porque bateram muito na gente. Poder estar brindando o público depois de todas as escolas que passaram e a gente fechar um ciclo de ensaios, eu acredito que a Viradouro fez um grande desfile, não é ensaio não. Só agradecimento. Estou comemorando 15 anos dançando ao lado dessa diva que é a minha porta-bandeira”, completou o mestre-sala.

Bateria

A Furacão Vermelho e Branco, de mestre Ciça, já começou o ensaio levantando a arquibancada do setor 1, ao executar uma bossa coreografada, conhecida como “bossa dos pratos”. Os integrantes se ajoelham, silenciados, enquanto os repiques tocam. Depois, os ritmistas das caixas se levantam e mantêm o ritmo, até que tocadores de pratos surgem para complementar a convenção, que lembra o ritmo de marchinha. O público correspondeu aplaudindo e vibrando durante todas apresentações em frente aos módulos de julgamento. O andamento da escola foi mantido até fim, dando sustentação a todo o treino da Viradouro. Em seu primeiro carnaval à frente da bateria, a rainha Erika Januza utilizou uma bela roupa dourada. No momento da “bossa dos pratos”, ela levantava uma bandeira que remetia aos antigos carnavais.

“A bateria veio legal, teve problema com o som da Avenida, ainda não estava 100%. O desempenho da bateria foi ótimo, maravilhoso, a gente viu o resultado da nossa proposta para a bateria. Foi muito bom. A ‘bossa dos pratos’ é essa que apresentamos, ainda temos ajustes, mas até o dia do desfile tudo estará certo”, contou mestre Ciça, que vai desfilar com 290 ritmistas.

Evolução

A Viradouro evoluiu de forma compacta e dinâmica durante o seu ensaio. As alas percorreram a pista com muita fluidez. Destaque para a sincronia das alas coreografadas, que dançam, evoluem e não param de cantar o samba. O único problema aconteceu durante a passagem da ala de passistas pelo setor 10, um componente se machucou e teve que ser retirado. Abriu um espaçamento excessivo entre o segundo casal, o tripé, a ala de passistas e a ala que veio à frente dos passistas. Logo depois, a direção da escola e os componentes conseguiram corrigir o deslize para retomar a evolução compacta.

Outros destaques

A Unidos do Viradouro levou para a avenida, três caminhões/tripés com telões de led. No primeiro, eram exibidas imagens do carnaval de 1919. No segundo, um homem recebia uma carta e depois também eram exibidas imagens que remetiam a um carnaval antigo. E, no mais emocionante, o terceiro, eram mostradas personalidades do mundo do samba, de várias agremiações, retiram as máscaras, em uma referência a letra do samba-enredo.

“O som não ajudou em nada a gente hoje. Eu estou feliz demais, cansado. A gente pede um pouco mais de seriedade nisso, o espetáculo para ficar bonito, tem que estar tudo funcionando direitinho. A gente confia e tem certeza que no dia 20, o som vai estar ok. Mas hoje não é dia de reclamar, é dia de agradecer. A escola cantou muito e a arquibancada também correspondeu, espero que seja assim para o dia do desfile”, comentou o intérprete Zé Paulo Sierra.

A comissão de frente da Unidos do Viradouro abriu o ensaio com muita desenvoltura e dramaticidade em sua coreografia. Seus integrantes realizavam movimentos ágeis e expressivos para contar essa história de amor pelo carnaval. Dirigido por Alex Neoral e Márcio Jahú, o grupo dividiu a apresentação em dois momentos. O primeiro foi um grande bailado de saias vermelhas. O segundo envolvia uma dança mais suave, com os bailarinos de preto e vermelho trazendo leques nas mãos. Junto com a comissão de frente vinha lindo um tripé vermelho com o brasão da escola em dourado. Em frente ao módulo de julgamento, o grupo levou por volta de 2min16s para concluir sua apresentação.

“A energia foi lá em cima, a gente tentou jogar bastante com o público, também trabalhamos bastante a comissão para estar aqui hoje, produzimos, escolhemos uma roupa bonita e para mim a nossa nota de hoje é 10, ou melhor, é 50. A escola toda está preocupa em trazer o melhor carnaval, um desfile a altura do que foi o último ano”, comentou Márcio Jahú.

“Como no desfile de 2020, nós estamos sintetizando o enredo todo, mas é sempre uma incógnita qual será a recepção do público. A gente sempre acha que falta coisa, então realmente só sabemos no dia. Eu brinco que não tivemos tempo de comemorar nosso campeonato, mas parando para pensar nós fomos campeões por dois anos, né? Então representa muita ansiedade, não só pelos dois anos de carnaval parado, mas também pelo adiamento que tivemos, aí ficamos num misto de emoções. É uma aflição, porque estamos trabalhando há dois anos, mas também é a espera de uma catarse e eu acho que esse vai ser o carnaval do século. Vai ser o carnaval de todos os carnavais”, afirmou Neoral.

Pode-se ver uma escola alegre, emocionada e muito confiante de que fará um ótimo desfile. O amor pelo carnaval está no ar e no rosto maquiado dos componentes da Viradouro. Muitas alas utilizavam adereços de mão ou máscaras. Toda de vermelho e branco, a velha guarda passou com estilo e elegância. Veio até um grupo de artistas desfilando de ‘pernas de pau’. Lore Improta, musa da escola, também esteve presente no ensaio, com uma fantasia toda branca.

A vermelho e branco de Niterói encerrou os ensaios técnicos para o carnaval 2022 com muito lirismo e empolgação, confirmando que é uma das favoritas na briga pelo título. “Não há tristeza que possa suportar tanta alegria” é o título do enredo que pode trazer à Viradouro um bicampeonato inédito. A agremiação será a quinta a desfilar no dia 22 de abril, pela primeira noite do Grupo Especial, que será em uma sexta-feira. Até lá, sua comunidade seguirá virando noites à sua espera.

Participaram da cobertura: Eduardo Fróis, Gabriel Gomes, Allan Duffes, Lucas Santos, Leonardo Damico, Isabelly Luz, Ingrid Marins, Karina Figueiredo, Philipe Rabelo, Marina Perdigão, José Luiz Moreira, Luan Costa e Walter Farias

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