O pensamento social do samba realizou seu primeiro encontro presencial neste sábado, no Museu da História e Cultura Afro-Brasileira, na Gamboa, o evento foi dividido em duas partes, a primeira, um debate com Vinícius Natal, historiador, antropólogo e um dos autores do enredo campeão do último carnaval pela Grande Rio, e Mauro Cordeiro, sociólogo e doutorando em antropologia, e atual pesquisador da Beija-Flor de Nilópolis. No debate, a escola de samba foi pauta numa discussão sobre a ocupação de determinados espaços a partir da discussão sobre classe, raça e gênero.

Foto: Luan Costa/Site CARNAVALESCO

Durante a discussão, assuntos como o apagamento de sujeitos negros na história do samba e a compreensão da escola de samba como um organismo vivo que está em constante transformação foram debatidos.

Com a finalidade de apresentar ao público as questões sociológicas, antropológicas e culturais que o samba carrega, o encontro foi marcado por reflexões, mostrando como o samba nasceu, suas contradições no decorrer dos anos e formas de pensar o futuro.

Após uma série de encontros virtuais, esse foi o primeiro encontro presencial realizado pela dupla, eles se mostraram felizes com a recepção do público em discutir assuntos tão pertinentes, como os rumos do carnaval carioca através da troca de conhecimento.

“Pra gente é um prazer ter a oportunidade de tá num sábado de manhã num espaço tão importante como o Muhcab, debatendo com as pessoas assuntos fundamentais a respeito da escola de samba que a gente quer. Sobretudo estimulando uma reflexão crítica sobre os sentidos, os rumos do carnaval carioca e das escolas de samba. A gente está muito feliz com a presença do público, com a participação e a gente acredita que o nosso papel é justamente esse, de instigar o debate, de provocar o debate e de reunir as pessoas pra pensar e propor novas ideias”, comentou Mauro.

“Eu acho que o nosso grande objetivo. O pensamento social do Samba é entender a história do samba enquanto esse organismo vivo, ancestral, mas que também está se pensando o tempo todo. É muito mais que pensar o sambista somente como massa de manobra, que não tem opinião própria, acho que é nossa ideia mostrar o contrário. Que nós temos opinião própria, temos nossos próprios pensamentos e vontades e projetos do que a gente quer pra escola de samba, então nosso objetivo é reunir uma galera pra gente debater sobre isso”, completou Vinícius.

Um dos assuntos abordados durante o debate foi a questão do pertencimento e de como a escola de samba é um lugar vivo, que está em constante transformação e da importância de valorizar e respeitar os mais velhos em busca de um futuro mais justo. A dupla de pesquisadores tem raízes fincadas nas escolas e reforçam a ideia de que é importante entender o passado para valorizar.

“Eu acho que tanto eu quanto o Mauro somos cria de escolas de samba antes de sermos graduados, mestres e doutores. Nós fomos criados e aprendemos a ver o mundo a partir das escolas de samba. Então, o nosso olhar é esse, o que a gente está fazendo aqui é dizer no que a gente acredita e acho que também mostrando que é uma postura muito pessoal de cada sambista, lutar pela escola de samba que ele acredita. Das mais variadas formas, mas acho que é superpossível”.

“Eu acho que é exatamente isso que o Vinícius falou. A gente está defendendo o que a gente viveu. Então, a gente cresceu nas escolas de samba, aprendendo a respeitar os mais velhos e tendo eles como referência de sambista, né? Porque antes de tudo nós somos sambistas. Então, o que a gente está defendendo é uma prática dos verdadeiros protagonistas dessas estruturas. Que são os sambistas, os mais velhos, a velha guarda, pensar justamente que nós precisamos ter essa postura de entender de onde viemos, quem construiu a história das nossas agremiações e da festa e somente louvando eles como os verdadeiros protagonistas da nossa história, a gente consegue construir uma escola de samba que seja melhor e mais próximo dos seus sentidos originais”, completou Mauro.

Sobre as mudanças vistas nos últimos anos, pode-se observar uma nova narrativa sendo contada nos enredos, até pouco tempo os enredos patrocinados tomavam conta do carnaval, hoje essa realidade mudou, as escolas estão apostando em histórias que a conectam com suas raízes, sobre isso a dupla de pesquisadores espera que não seja algo passageiro.

“O carnaval também passa um pouco por isso. A gente espera que isso não seja só uma onda passageira. A nossa ideia é que a escola de samba a partir dos enredos elas se voltem pra elas mesmas. Elas se pensem e se valorizem enquanto ativo cultural da cidade. E não só a partir do enredo, o enredo tem que ser uma mola propulsora pra escola de samba se valorizar e valorizar suas práticas e suas pessoas, seus fundadores e todos os segmentos”, disse Vinícius.

“Eu acho que é isso, enfim a expectativa de que não seja apenas uma onda em uma fase e sobretudo entender o quanto enredo é muito mais do que um quesito de julgamento, mas é uma oportunidade, na pauta das escolas de samba das comunidades durante todo o ano um ciclo de debates e de reflexões acerca de um assunto e quanto mais interessante e próximo da experiência daquela comunidade o assunto for melhor pra o próprio desfile. Pra própria competição que no final das contas é o que move boa parte da forma como se enxerga a escola de samba”, pontuou Mauro.

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