Por Leonardo Antan

Agosto. Aos poucos, as engrenagens das escolas de samba vão girando e preparando o terreiro do que se desenha para nossa festa em 2020. Nos últimos anos, acontecimentos para lá de conturbados vêm marcando o pré-carnaval das mais diferentes maneiras, e revelando uma forte crise institucional na nossa folia. Durante os últimos meses, não foi diferente. Houve virada de mesa – que por si só não era lá nenhuma novidade -, e também ainda desvirada de mesa, um fato inédito na década. Em meio a renuncias e a discussões, como será que nossas agremiações podem se reinventar e voltar a participar do cotidiano brasileiro?

A famigerada “crise” come solta em diversas esferas, mas, ainda assim, entre as frestas, nossas escolas re-existem, como sempre foi. Contudo, verdade seja dita novamente: se na estrutura e nos acordos por debaixo de mesas desviradas a festa cambaleia e afasta um público maior a ser alcançado; na pista, o samba ressurge e ganha novos e deliciosos contornos. Nos preparativos para a chegada de uma nova década, nas viradas dessa vida,
os carnavalescos assumem mais uma vez o protagonismo da discussão e da mudança de rumos, no chão riscado por Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues desde a década de 1960.

A última metade dos anos 2010 marcou uma virada de geração no comando artístico da festa. E com o já bicampeão Leandro Viera abrindo as alas desse desfile, um conjunto de artistas surgiu como esperança para a renovação da festa e o abrandamento de previsões apocalípticas. Na crise financeira que esvaziou o pote dos patrocínios, as escolas de samba se reinventam. O cenário ainda é potencializado por um renascimento robusto de grandes composições dos sambas-enredos para fazer inveja a qualquer antologia do século passado.

Pois muito que bem. Já que é praticamente chover no molhado dizer como o novo time de carnavalescos que dominou o Grupo Especial nos últimos carnavais também trouxe uma renovação temática e estética para festa, vamos aos fatos. E, para isso, esmiuçar algumas propostas para os enredos do ano que vem!

Resgate crítico em preto e amarelo: “O Conto do Vigário”

Uma das primeiras escolas a lançar o enredo para o próximo carnaval foi a São Clemente. Quem segue no comando da preta e amarela é Jorge Silveira, indo ao seu terceiro desfile na casa. A trajetória do artista, que foi uma aposta da escola, marca mais um capítulo de um arco que vem se desenhando desde o início desse casamento em 2018. Depois de receber o legado de Rosa Magalhães e apostar em um enredo clássico e, posteriormente, de resgatar a identidade crítica da agremiação da zona sul com uma inspirada reedição do
clássico “O samba sambou” Jorge parece remarcar um projeto de renascimento completo da identidade crítica e social da São Clemente.

O enredo “O Conto do Vigário” parte do lendário conto por trás da origem do termo para pensar a história da enganação e da pilantragem nas terras tupiniquins, não deixando faltar comentários ácidos ao momento atual do país e das famigeradas fake news. Em tempos em que a crítica social ganha carnaval, faz muito bem a escola e a visão de Jorge ao recuperar o estilo marcante de umas grandes protagonistas dos enredos políticos que marcaram os anos 1980. Resta saber se os jurados esquecerão finalmente que bandeira não é critério a ser avaliado.

A esperada “Elza Deusa Soares”

Pulando para o barracão do lado na Cidade do Samba, o clima é menos de continuidade e mais de novidade nas bandas de Padre Miguel. Após gravar seu nome na história da Paraíso do Tuiuti, dando à agremiação uma personalidade junto ao grande público, Jack Vasconcellos assumiu a batuta criativa da Mocidade Independente, já com a grande missão de materializar o esperado enredo em homenagem a Elza Soares.

Para assinar a sinopse que resume a narrativa, o biógrafo da verde e branco Fábio Fabato foi convocado e soube temperar a história da artista com sua narrativa envolvente e emocionante. O resultado do casamento entre um dos grandes artistas do carnaval da atualidade e o escritor e jornalista independente não poderia ser diferente, gerando uma das mais belas sinopses da safra. Entre contar a história de vida da homenageada e atualizar seu legado às discussões contemporâneas de raça e gêneros, eles não fizeram
concessões. De maneira poética e forte, a trajetória de luta de Elza serve de pano de fundo para que Jack possa mergulhar no estilo crítico que o consagrou.

Tratando-se de enredo, não custa ressaltar o quanto o carnavalesco é um dos maiores no que diz respeito ao quesito nos últimos anos, com temas redondos e bem alinhados. Então, já podemos esperar uma grande aula de como desenvolver uma boa narrativa na Avenida.

História para recomeçar:”O Santo e o Rei: Encantarias de Sebastião”

Saindo do criador para a criatura, a Paraíso do Tuiuti não se deixou cambalear com a saída do grande nome que a catapultou ao protagonismo da festa. Seguindo a ordem do renovar é preciso, escolheu a dedo um desses artistas que tem mostrado serviço nos últimos anos. Depois de duas assinaturas na Unidos de Padre Miguel, João Vitor Araújo assume a escola
para seu segundo carnaval no grupo especial.

É bem verdade que em um contexto bem mais favorável do que a complicada passagem da Viradouro no grupo, em 2015. Com “O Santo e o Rei: Encantarias de Sebastião’ a narrativa mostra a inteligência do artista ao unir seu estilo mais clássico com a herança crítica deixada por Jack na azul e amarela. A sinopse desenvolvida pelo grande enredista João Gustavo Melo mescla as figuras de São Sebastião e o rei Dom Sebastião de Portugal, em uma linha objetiva e correta, reservando seu momento final para falar do Rio de Janeiro sob um olhar crítico. Sem grandes invencionices, uma flecha certeira para a escola que busca se reafirmar no grupo em novas condições.

Pisa forte, Grande Rio! “Tata Londirá: o Canto do Caboclo no Quilombo de Caxias”

Indo para a vizinha de porta da agremiação de São Cristóvão no complexo de barracões carioca, a Acadêmicos do Grande Rio respira novos e inspirados ares ao lançar na elite a premiada dupla Gabriel Haddad e Leonardo Bora (vulgo Boraddad), após dois grandes trabalhados assinados na Acadêmicos do Cubango. A chegada mais do que inesperada dos dois mudou radicalmente os olhares tortos, já corriqueiros, à tricolor de Caxias. O fato se confirmou com o lançamento do enredo “Tata Londirá: o Canto do Caboclo no Quilombo de Caxias”, uma homenagem ao líder religioso Joãosinho da Gomeia.

O baiano radicado na cidade natal da escola era tema aguardado por alguns componentes e ganhou um olhar apurado desses dois artistas talentosos. Mergulhando na cultura cabocla, baiana, afro-brasileira, modernista e carnavalesca, a sinopse oferece um bem-temperado e denso caldeirão de referências a ser explorado, com uma estrutura que deixa cristalinos os setores do desfile a serem desenvolvidos. O enredo marca a imersão no fundamento das religiões de matriz africana e na vida cultural e artística do país no século XX.

Assim, como nos outros enredos já comentados, a homenagem também ganha contornos críticos e sociais ao louvar uma figura negra, marginalizada e LGBT da nossa história, dando a isso seu caráter político intrínseco. É uma virada histórica para a reconstrução da identidade da Grande Rio, que tão bem cantou enredos afro-brasileiros na década de 1990, e se firma como detentora de um dos grandes enredos do ano. Axé!

Aos finalmente da primeira parte, voltamos em breve!

Não aleatoriamente, quatros enredos que investigam múltiplas faces do
Brasil e são assinados por grandes artistas do carnaval nos últimos anos foram os escolhidos para o início das nossas análises por aqui. Mostrando que, entre crises, os saberes da festa vêm se renovando na contramão dos poderes estabelecidos e alcançando novos públicos para nossas escolas. Quer saber mais? Durante as próximas semanas, voltamos para tentar desvendar os demais enredos que as escolas estão preparando para o ano que vem. Não perca!

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