Por Leonardo Antan

Demorou, mas estamos de volta! Passada a escolha de sambas, os enredos ganham novos contornos, agora reinterpretados pelos versos das obras escolhidas por cada agremiação. Como era de se prever, a safra de boas narrativas para 2020 rendeu excelentes hinos para as escolas. Mas voltemos à base de tudo, num rápido passeio pelos enredos. 

Depois de falar dos temas que estavam envolvidos em brasilidades, o tom crítico, tão em alta nos últimos anos, ainda pode ser visto em outras narrativas. Mas para além de um discurso panfletário, esses enredos têm em comum abordar micro-histórias, que servem ao macro, mostrando através de pequenas narrativas para falar os problemas maiores que cercam a sociedade. São temas que lembram que tudo é político e, longe do isentão, mostram que o poder do discurso está nas estranhas do carnaval e sua força subversiva.

É negritude, Salgueiro! 

Honrando sua tradição de revelar personagens poucos conhecidos da história brasileira, a Academia retoma o legado deixado por Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona ao apresentar “O rei negro do picadeiro”. Depois de Zumbi dos Palmares, Xica da Silva, Chico Rei e tantos outros, louvar o primeiro palhaço negro do Brasil ganha tantos contornos políticos hoje, assim com os heróis dos anos 1960. O carnavalesco Alex de Souza pincela de maneira política a trajetória de Benjamin de Oliveira desde sua infância até sucesso em diversas formas de arte. Sobre o  ponto de vista da sinopse, o samba da Academia reinventa o enredo com uma pegada poética e alegre como pede o tema circense. Um enredo clássico e sem grandes pirotecnias e, por isso mesmo, valente.

Portela reencontra suas lendas e mistérios

Falando em clássico, cinquenta anos após “Lendas e mistérios da Amazônia”, a Portela retoma com grande força a temática indígena em “Guajupiá, Terra Sem Males”, dos carnavalescos Renato e Márcia Lage. A narrativa trata a lenda indígena da criação do mundo na ótica dos tupinambás, que o samba-enredo soube traduzir muito bem em sua primeira passagem. Partindo daí, a sinopse evoca imagens do cotidiano indígena, da valentia e coragem de um baía de Guanabara antes do Rio de Janeiro existir. Hoje, séculos depois, a luta indígena contra a dominação e a preservação da natureza continuam mais do que nunca e o enredo termina em tom politizado, lançando esse alerta. Falar dos “donos da terra” é abordar a história da colonização brasileira e suas mazelas. 

Com ótimo axé, a Viradouro tá de alma lavada!

Mais um enredo sem tom político explícito, mas que ganha contornos expressivos ao falar da força cultural brasileira é “Viradouro de alma lavada”. Homenageando as Ganhadeiras de Itapuã, a vermelha e branco fala de força ancestral feminina, africanidade, brasilidade e baianidade. A figura da baiana, uma das personagens mais importantes da cultura nacional e valorizadas pelo samba, é excelente mote para exaltar a força da mulher trabalhadeira que ajudou a fundar o país no braço. O enredo acerta ao fugir de clichês que um enredo como esse evoca e aposta em elementos que podem render um ótimo visual. Louvando os orixás e balançando seus balangandãs, a vermelho e branco tem um dos mais bonitos enredos da safra, o que é, sem dúvidas, um grande trunfo. 

Mangueira: pecado é não brincar o carnaval

Narrativa é poder, disso sabe bem o carnavalesco Leandro Vieira. Por isso, o enredo “A Verdade Vos Fará Livre” é tão forte e revolucionário em muitos sentidos. Assim, como fez em 2019, ao propor uma nova história do Brasil sob o ponto de vida dos perdedores, o artista bicampeão do carnaval propõe uma inovadora narrativa sobre a figura mais conhecida do ocidente: Jesus Cristo. Se usando desse poderoso nome, religiões construíram discursos de ódio e repressão, este mesmo nome será usado para falar de tolerância e amor; a saber, suas principais ideias propagadas originalmente. Assim, Jesus renasce preto, pobre e favelado no morro de Mangueira num domingo verde e rosa. Mais revolucionário que isso, atualmente, impossível. 

Histórias inspiradas que encontram ecos atualmente, os enredos de Portela, Salgueiro, Mangueira e Viradouro mostram com as escolas de samba passam por um ótimo momento criativo, se reconectando com o social, através da narrativa de artistas talentosos. Os enredos seguem a toada política vigente, mas as reinventando de maneira ainda mais potente. Assim, o Carnaval re-existe. 

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