Por Leonardo Antan

E a viagem pelos enredos chega na sua última parada! Depois de falar das propostas mais críticas e engajadas, passeamos agora pelos temas mais abrangentes e difíceis do carnaval para 2020. Em meios aos temas políticos ganhando força, ainda há espaço para as narrativas mais tradicionais? Claro que sim! Afinal, o principal é uma boa história para contar. E quanto mais variedade melhor.

Das ruas às arquiteturas, esses enredos falam das pedras que formam casas, que formam ruas, que formam nações. Cada um a seu modo reinterpreta narrativas já vistas antes e acaba pecando ali ou aqui. Seja na falta de um bom fio condutor ou na junção de tantas ideias num tema complexo demais para ser desenvolvido na linguagem atual do carnaval. A torcida é que esses temas consigam ser recriados em boas fantasias e alegorias, dando sentido a uma narrativa mais bem resolvida.

Vila Isabel: Brasil Gigante

Depois de cantar Petrópolis, a azul e branco de Noel segue explorando o atlas brasileiro e saí da cidade da corte imperial para o maior símbolo modernista da república brasileira. Um dos poucos com promessa de patrocínio do grupo, o enredo “Gigante Pela Própria Natureza: Jaçanã e um Índio Chamado Brasil” tenta se apropriar do tom da “brasilidade” que tomou outras narrativas do grupo especial. Assim, tenta recriar a história de Brasília sem uma narrativa clássica, como fez a Beija-Flor em 2010, optando por uma fábula poética que transforma o Brasil num menino indígena que ouve a profecia onde irá ganhar uma irmã mais nova. Apesar de interessante, a proposta se perde entre contar essa fábula e virar uma exaltação ao Brasil como um todo, como propôs o samba escolhido numa espécie de “Aquarela Brasileira”. E aí, acabou não virando uma coisa nem outra, se perdendo no meio do caminho.

Beija-Flor: O povo é o dono da rua! 

A Beija-Flor tem uma sina milenar, uma mania de grandeza incomparável. Não à toa é uma das maiores escolas do carnaval das últimas décadas. Da invenção secular do futebol ao ato de se banhar, passando pela comunicação num astro iluminado, a azul e branco já retomou diversas vezes até o início da humanidade para recontar a história com diversos pontos de vista. Retomando essa tradição (e nada melhor um reencontro para a azul e branco depois de 2019) a escola aposta no enredo “Se essa rua fosse minha” sobre os caminhos, as rotas, as trajetórias e estradas. E nele, o desejo de primórdio não é escondido, o enredo começa exatamente quando o homem se coloca de pé. Daí abrem-se caminhos entre mitologias, civilizações, rotas, navegações, chega ao Brasil volta para o mundo. Ufa! Pela proposta megalomaníaca, o tema já nasce para lá de abrangente, o que abre prós e contras que a Deusa conhece bem na hora de narrar.

Tijuca: Entrou por um lado, e saiu pelo outro?

Falando em enredo que pretende percorrer a história da humanidade, desembarcamos na Tijuca. Diferente do recorte brasileiro que propôs a Viradouro em 2006 em “Arquitetando folias”, a azul e amarelo passeia desde a Antiguidade para contar a arquitetura em “Onde Moram os Sonhos”. Com os mesmos perigos da narrativa da Beija-Flor, o tema acaba propondo um olhar abrangente e totalizante sobre o tema, passando por civilizações, povos, reinos e toda sorte de clichês. Não menos óbvia, a narrativa ainda surfa na onda crítica e aborda a poluição e a destruição humana contra a natureza, terminando com uma ainda mais previsível homenagem ao Rio de Janeiro. Deixando faltar um traço mais inspirada nas curvas do enredo.

Estácio: Uma pedra no meio do caminho

Outro assunto tão abrangente e milenar dá nome ao enredo da Estácio de Sá: “Pedra”. Acostumada a dar verdadeiros olés quando o assunto é enredo patrocinada, Rosa Magalhães tentou tirar leite do enredo da vermelho e branco. Com a intensa pesquisa que é tradicional do seu trabalho, a artista tentou reinventar o tema com promessa de patrocínio proposto pela agremiação. Apesar de fragmentando e amplo, o tema propõe uma desencadeamento de idéias coerente, passando da mineração brasileira até o artesanato ribeirinho, entrelaçando literatura brasileira e mitologia indígena. Uma mistura bem característica da professora.

Ilha: Vários caminhos, alguma direção?

Com uma proposta ousada, a União da Ilha abriu mão de lançar uma sinopse que apresenta o enredo para os compositores, dando aos músicos a chance de criar uma narrativa própria a partir apenas de uma pequena conversa com a equipe criativa da escola e o título “Nas Encruzilhadas da Vida, Entre Becos, Ruas e Vielas, a Sorte Está Lançada: Salve-se Quem Puder!”. Se quanto o título surgiu, as comparações ao tema da Beija-Flor sobre ruas e caminhadas era inevitável, o samba-enredo campeão da disputa reinventou o enredo trazendo um aspecto mais social e crítico dentro da onda do momento. Tecendo várias críticas que desencadeiam sem um fio condutor mais amarrado, a tricolor insulana tem uma das narrativas mais frágeis. Resta ao talento da equipe da Comissão de Carnaval reinventar o tema mais uma vez, num desfile valente como precisa a tricolor insulana.

E assim, chegamos ao fim! Se são treze escolas de samba no Especial, que tenhamos treze narrativas diversas e provocadoras, cada uma com sua característica. Sejam tradicionais ou inovadores, quanto maior a oferta de temas interessantes e bem abordados melhor, tenham tom mais engajado ou não. Contar uma boa história é parte da vocação das agremiações como símbolo civilizatório brasileiro. E ao que desenhar para 2020 temos a certeza de excelentes enredos para colocar o Brasil no divã nacional que é a Sapucaí. Batuquemos!

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