Alex de Souza, carnavalesco do Salgueiro, conversou com a nossa equipe na série “Entrevistão”. O artista salgueirense fala do enredo de 2020 e da relação com o torcedor da escola. Confira abaixo o bate-papo completo.

Após o surpreendente desfile de 2019 o que o salgueirense pode esperar de 2020?

“Primeiro que a escola nunca fez uma enredo de circo, nunca teve um tema desse e isso já é um diferencial. É algo ‘pra cima’, mais astral, de colorido, de movimento, de efeito, de corpo. Terão artistas circenses participando do desfile e creio que essa emoção em relação a história dele, essa questão politizada dessa representatividade negra são os ingredientes que fazem parte aí de um desfile diferenciado. Esse ano que passou, tivemos Xangô, que é uma coisa muito ligada a escola e tudo. Mas esse tem uma diversidade, um tratamento, até porque teremos toda uma coisa do circo antigo e ele sendo repaginado, teremos toda uma sofisticação. E eu espero que dê certo”.

As fantasias apresentadas foram muito elogiadas .O que o salgueirense pode esperar do conjunto de alegorias?

“Pode esperar a mesma linha do que eu já se viu de fantasias. É uma inspiração vintage, de circo antigo, mas naturalmente com toques de modernidade para dar um equilíbrio necessário. A escola vem bem colorida e eu espero que, até com o trabalho que a gente vai ter com artistas de circo que dê um algo a mais para escola. E fora isso é o que a escola tem mesmo de chão, de harmonia, canto, bateria e essas coisas que já é uma escola muito aguardada por causa disso, independente de enredo, é o desfile em si”.

Como você tem visto essa onda de enredos críticos?

“Eu acho interessante e percebo ser uma onda. De tempos em tempos temos temáticas que caracterizam os desfiles. Nos anos 60 os enredos eram críticos em cima da ditadura militar. Sofreram até censura na época. Nos anos 70 eram determinados temas pró governo militar, reverenciado os feitos do golpe. Nos anos 80. pós anistia, anterior à Nova República, vivemos um período interessante de críticas com humor. A São Clemente e a Caprichosos faziam com toda propriedade, faziam coisas engraçadas. O próprio Fernando Pinto em ‘Como era verde meu Xingu’ pedia a demarcação das terras indígenas. O Salgueiro com ‘E porquê não?’. Tinha um polvo que segurava o Sarney e o Ronald Reagan (presidente americano). O carnaval só faz sentido se tiver denúncia e crítica. Somos cronistas da sociedade. A Rosa foi quem trouxe essa nova fase com aquele enredo da São Clemente. O Leandro Vieira já é um cara mais incisivo. Vivemos hoje uma polarização muito forte na sociedade. Cada um define um lado, pegam uma ideologia e fazem daquilo um time de futebol. Tem de haver um equilíbrio. A escola de samba deve sim retratar o momento atual. Precisamos de mais força e liberdade para na brincadeira carnavalesca mostrar os podres”.

Como você lida com o fato de ainda não ter conseguido ser campeão?

“É muito bom quando te dão liberdade e condição para realizar um projeto. Se tiver esse reconhecimento da escola, público e imprensa, você sem dúvida fica satisfeito. Compensa tanta luta. Agora, um título é um título. O que fica na história é o vencedor. Apesar de exemplos no carnaval de desfiles que não ganharam e são mais lembrados que alguns que ganharam. Mas que é bem-vindo é”.

Você tem um desfile seu que tenha mais carinho?

“Eu gosto de todos os meus filhos, mas reconheço que determinados carnavais eu poderia ter tido um desempenho melhor ou as circunstâncias poderiam me levar para um caminho melhor. Eu gosto de publicar nas redes sociais imagens de meus antigos trabalhos. Às vezes encontro imagens que nunca tinha visto e publico. Eu me sinto orgulhoso e feliz em ter realizado determinados projetos”.

Como você se relaciona com a torcida do Salgueiro, que é muito apaixonada?

“Eu procuro manter uma certa distância, pois meu trabalho é muito intenso e focado. Metade do ano eu faço um trabalho solitário de pesquisa e na outra metade venho ao barracão coordenar as equipes. Vou pouco à quadra, e todas as escolas sempre respeitaram esse meu lado introvertido. Já fui folião, de desfilar e curtir. Mas a responsabilidade do trabalho é muito diferente. As pessoas da escola que tenho contato direto são líderes de segmentos. Com as redes sociais sempre tem torcedores que mandam recados, perguntam, desejam sorte”.

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