Emplacando a preparação de seu segundo desfile pela Beija-Flor, o diretor de carnaval Dudu Azevedo já teve o mérito de ajudar a escola a apagar a imagem ruim do carnaval de 2019, quando na comemoração dos seus 70 anos, terminou em décimo primeiro lugar. Com Dudu, a escola voltou às campeãs com o quarto lugar em 2020. O desejo agora é por mais. Pelo retorno ao lugar mais alto do pódio, a Beija-Flor já igualou seu maior jejum neste século, contando em anos e lembrando que em 2021 não houve carnaval, a taça já não vem desde 2018. O mesmo intervalo de tempo que aconteceu entre 2011 e 2015.

Com passagens por União da Ilha, onde ainda ajuda, Salgueiro, Grande Rio entre outras, o diretor de carnaval recebeu a reportagem do site CARNAVALESCO falou sobre a cobrança por títulos dentro da Beija-Flor, relembrou seus maiores carnavais tanto assistindo quanto dirigindo, falou das comparações que surgem de seu trabalho com o de Laíla, sobre o julgamento do quesito harmonia e sobre as perdas de pessoas que a Deusa da Passarela vem sofrendo desde o início da pandemia em 2020.

Como sambista qual é o maior desfile que você viu? Por que?

Dudu Azevedo: “Que eu assisti, cara, eu vou voltar lá atrás, eu vi desfiles do Renato Lage, na Mocidade, na década de 90, eu era apaixonado. Aquele desfile que falava sobre as brincadeiras de criança, que vinha o rosto do menininho jogando ‘Atari’, o olho dele era as televisões, aquele desfile, para mim, é um desfile magnífico, inesquecível (Desfile de 1993). Eu, muito jovem, lembro do ‘Explode Coração’ do Salgueiro (1993), lembro da ‘Festa Profana’ da Ilha (1989), para mim são desfiles que eu guardo muito bem. O desfile da Estácio da ‘Paulicéia Desvairada’ (1992), foi também, assim, muito forte para mim”. O desfile da Beija-Flor 2007, ‘Áfricas’, e o da Vila Isabel do ‘Festa no Arraiá’ (2013), também são magníficos”.

Como diretor de carnaval qual o maior desfile que participou e por que?

Dudu Azevedo: “Como diretor de carnaval, eu guardo três desfiles na minha mente que eu participei do desfile e eu saí da Avenida muito em êxtase. Foi Salgueiro 2014, Salgueiro 2016 ‘Malandro Batuqueiro’, que para mim o final do ‘Malandro Batuqueiro’ é apoteótico, a arquibancada toda pulando e cantando. E, o 2020 da Beija-Flor para mim é muito emblemático, sabe? Uma escola que vinha do décimo primeiro lugar, meu primeiro ano na Beija-Flor, uma escola que tantas vezes eu fui para a Avenida para bater palma para o desfile da Beija-Flor, aquele rolo compressor que passavam na Avenida, e, eu saí da Avenida muito feliz com aquela comunidade, como cantou, como desfilou. Então, estes três desfiles, eu trago muito na minha memória”.

Você questionou o julgamento do quesito harmonia em 2020. O que sugere para aperfeiçoar?

Dudu Azevedo: “O quesito harmonia, eu acho que tem que ficar totalmente ligado ao canto total da escola. Porque hoje o que a gente vê na maioria das justificativas, algo relacionado ao carro de som. Então, você julga 12, 13 pessoas profissionais, cantores profissionais, músicos profissionais, em detrimento a 3 mil pessoas que o diretor de harmonia fica o ano inteiro ensaiando. E, aí, de repente a escola canta para caramba, tem pessoas cantando no tom, em consonância perfeita, tudo certinho, mas aí um ‘plim’ do cavaco lá no carro de som perde ponto em harmonia. Eu acho que isso não está sendo justo. Eu deixaria a harmonia para o canta da escola, para você ver se a escola está realmente cantando, com ênfase, no tom, em consonância perfeita, não tem desigualdade de canto, um setor cantar mais do que outro, partes do samba são mais cantadas que outras partes, para mim eu julgaria a harmonia assim”.

Gostaria do carro de som ser um subitem do quesito harmonia? Como acontece no samba com letra e melodia?

Dudu Azevedo: “Eu acho que a gente tem que envolver o carro de som de alguma forma no julgamento. Não tenho certeza dessa minha opinião, acho que teria que ser testado para dar certo. Mas, eu envolveria o carro de som no quesito sim samba-enredo. Porque eu acho que um samba bom, mal cantado, ele não chega na sua nota 10. Um samba médio, bem cantado, ele até atinge a nota 10. E o samba bom, mal cantado, ele não atinge a nota 10. Então, eu acho que o samba-enredo tinha que ter um pouco do carro de som para ser julgado. Eu colocaria o carro de som para ser julgado no julgamento de execução do samba-enredo. ‘Mas, pô Dudu, você está certo disso?’. Não sei. É um teste que deveria ser feito para ver essa mudança. É um teste pra gente ver se a gente consegue julgar o samba-enredo bom, bem cantado pelo carro de som”.

É pesado ter a comparação com o que o Laíla fez na escola?

Dudu Azevedo: “Eu sempre bati palma para os trabalhos do Laíla na Beija-Flor, sempre fui para a Avenida para ver a Beija-Flor passar. E tudo que eu queria era um dia desfilar com uma escola da mesma forma que a Beija-Flor desfilava. Agora, aqui dentro, eu cheguei em um momento em que a escola ficou em décimo primeiro (2019). Uma escola super campeã, e, de repente, não sei, tudo que ela fazia, algo poderia melhorar, algo, de repente, com a evolução do tempo, a gente poderia modificar, entendeu? Mudanças são válidas para as nossas vidas, para o nosso trabalho. Eu procurei conversar com os diretores, com a comunidade, e tirar deles o que eles achavam que era o melhor da escola. E, o que era melhor, se era um trabalho feito pelo Laíla, se era um trabalho feito em um ano sem o Laíla, eu não queria saber, eu queria saber se é o melhor para a nossa escola? Nós vamos trabalhar em cima desse melhor”.

Estar na Beija-Flor é ser cobrado pelo rolo compressor. Como administrar isso internamente e com a comunidade?

Dudu Azevedo: “A cobrança é enorme. A Beija-Flor é a maior campeã da era Sambódromo. Não consegue ficar dois anos sem títulos. Todo mundo cobra títulos. E, a gente está trabalhando para isso. Aquela comunidade é um rolo compressor, a gente brigou esse ano para ter um enredo que se comunicasse com a nossa comunidade e o enredo é totalmente ligado à história de cada um de nós ali, povo preto da Baixada, e, eu tenho certeza que o carimbo, a identidade da escola impressa no canto do Neguinho da Beija-Flor, no rodopiar da Selminha e do Claudinho, na força de uma comunidade que é um rolo compressor, na direção de todos nós feita pelo Almir (Reis), que está na escola há muito tempo, que é o nosso presidente, negro, é o conjunto de tarefas que a gente vai levar para a Avenida para levantar este caneco”.

A Beija-Flor perdeu diversas pessoas, entre elas, o Leo Mídia e o Bakaninha. Como levantar a cabeça e como construir o trabalho sem eles?

Dudu Azevedo: “Rapaz, pelo lado emocional é bem difícil. Nós tivemos algumas perdas pelo Covid, como o ex-presidente Farid (Abrão David), tivemos o Velloso (Jorge Velloso), não por Covid, mas no período, um cara super campeão com samba-enredo, muito ligado a comunidade. Mas, agora nos últimos três meses, nós perdemos três valores do chão da casa. Três valores muito jovens com futuros mais do que promissores. Por mais que o Bakaninha já fosse uma realidade na nossa quadra, ele ainda esperava dar prosseguimento ao primeiro microfone da Beija-Flor porque o Neguinho falava que ele era o substituto. Então, emocionalmente, bateu muito na gente. Em termos de trabalho, é uma mola propulsora aí para gente. A gente vai cantar, encantar, seduzir o público com toda a paixão, com toda a garra, por eles. E, que eles lá de cima, estejam iluminando a gente. Tivemos o primeiro ensaio sem o Bakaninha, e a força da escola foi muito grande. Uma palavra bem usada pelo presidente Almir foi a palavra amor. É um povo que ama muito a sua escola. É uma família que se ama muito e a gente está, mesmo dolorido, a gente está com muita garra, porque o amor é mais forte do que tudo. E, a gente vai entrar na Avenida e vamos trazer esse caneco em homenagem a esse pessoal que a gente perdeu”.

Muita gente espera a Beija-Flor volumosa em 2022. É por aí?

Dudu Azevedo: ”Desde que eu cheguei aqui, é o que eu falei, o melhor da escola quando a gente conversa com os diretores, com a comunidade, todo mundo quer essa exuberância da Beija-Flor, essa riqueza, esse volume da Beija-Flor. E, a gente vem imprimindo isso. Muita conversa com o Louzada (Alexandre), o nosso carnavalesco. Podem esperar uma Beija-Flor com cara de Beija-Flor. Uma Beija-Flor volumosa, exuberante e riquíssima, com criatividade. Hoje, de repente, a gente já não compra mais alguns materiais valiosos, porém, esses mesmos materiais foram substituídos para ter a mesma plástica, ter o mesmo brilho, o mesmo olhar. Para você falar assim ‘caramba, está tudo muito rico’. Mas, isso é fruto da criatividade do Alexandre Louzada. É um enredo que fala conosco, esse povo preto da Baixada. Queria falar de si. E, o mundo, hoje, precisa disso. O racismo existe. Vivemos em um país racista em que a gente pede só a palavra respeito. A gente não quer ficar falando de intolerância, fazer nenhum ‘mimimi’ com nada. Respeita a história do negro. Mas, não é respeitar o negro na sua história como é contada não. A gente está contando a verdadeira história do negro. Dando valores, a estes seres humanos que fizeram história, nós, que somos negros, que trabalhamos na maior cultura popular do país, que é o carnaval, nós temos o nosso valor. Então, a Beija-Flor valoriza o trabalho do negro, o trabalho de pessoas importantes negras que ao longo da história ficaram apagadas por trás de uma cortina de fumaça. O povo preto da Baixada vai cantar e encantar a Sapucaí, pode ter certeza”.

Você é um cara que pensa o carnaval fora dos desfiles. O que gostaria de ter durante o ano?

Dudu Azevedo: “Eu acho que carnaval tem que ser o ano todo. Eu já falei isso várias vezes, as pessoas que amam o carnaval falam dele o ano todo. Eu converso carnaval com o presidente Almir o ano inteiro. Tem outras pessoas também que eu converso carnaval. E, eu acho que cabe para gente o desfile principal lá em fevereiro, no calendário de carnaval, mas cabe a gente ter um outro desfile nesse um ano que antecede. O melhor da festa é esperar por ela. A cidade tem que respirar carnaval. Você vai para a Argentina, você desce no aeroporto e estão te vendendo tango. Você almoça ouvindo tango, você toma café vendo tango, o aeroporto está te vendendo tango, você vai ver o estádio do Boca Juniors e lá tem tango. A nossa cidade é de carnaval, a gente precisa entrar neste clima de carnaval o ano inteiro. Com eventos, com desfiles, com várias situações de manifestações culturais. Uma coisa é o desfile das escolas de samba. Isso é muito bem administrado, feito pela Liesa. Beleza! Legal! Agora, quais são as manifestações culturais do carnaval ao longo do ano? Nós precisamos entrar nesse mercado aí, porque isso é cultura. É acabar o carnaval e pegar as esculturas das seis primeiras escolas, a prefeitura de repente tem dois, três carros que a gente vai tirar as esculturas das escolas campeãs, algumas mais referências, vamos montar em cima daquele carro e vamos fazer três, quatro desfiles durante a semana na Marquês de Sapucaí. Desfiles pequenos, do setor 3 ao setor 7. Mas, para você fomentar as pessoas virem ao Rio de Janeiro e curtirem o carnaval. Isso tem que acontecer, com patrocínio privado de repente. A gente tem que pegar a Cidade do Samba e ter desfiles como foi a festa da Série Ouro. A gente tem que ter uma feijoada por mês na Cidade do Samba, aos domingos, que vai lotar. As quadras ficam lotadas quando acontece isso. Agora a gente está na pandemia, mas a pandemia, uma hora vai acabar. Ou, a gente vai conviver com alguns protocolos que dão permissão para a gente aglomerar. Mas, isso tem que ser pensado. Tem que ter exposição de fotos, exposição de artes de carnaval. Tem que pegar essa galera de barracão que faz fantasia, eles têm que trabalhar o ano inteiro. Carnaval é uma indústria que tem que funcionar o ano inteiro. Muita gente só pensa o carnaval em janeiro. Não dá para pensar uma escola só para poder desfilar e ser campeão e dar 10 pelo jurado. A manifestação cultural tem que estar o ano inteiro. Eu sonho com isso”.

Como será a ajuda do Dudu na Ilha?

Dudu Azevedo: “Eu tenho uma dívida de gratidão com a União da Ilha. Com o povo insulano. Minha contratação na Ilha foi depois de um ano muito difícil para mim. Eu faço agora 11 carnavais como diretor de carnaval. E o meu pior momento foi o desfile do Chacrinha na Grande Rio (2018). Quando eu tenho a dispensa na Grande Rio, a gente fica meio que sem saber para onde ir por todo o ocorrido. E, a Ilha abriu as portas para mim. Um dia após o resultado da quarta-feira de cinzas, o presidente da Ilha faz contato com a Beija-Flor, conversa com a presidência aqui e pede para conversar comigo, para que eu possa ajudar a Ilha no grupo de baixo. E, depois deles autorizarem, de eles permitirem que eu fosse, eu falei que ajudaria sim. Porque para mim, gratidão não se prescreve. Eu sou muito grato pela oportunidade que a Ilha me deu. Fiz um novo carnaval no ano seguinte, foi um belo carnaval, a União da Ilha foi cotada para vir nas campeãs e diante desse trabalho tenho certeza que muitas escolas viram. E, como a Beija-Flor acabou me chamando para eu estar aqui na maior das maiores do carnaval, na época do sambódromo, eu falei que ajudaria. E, hoje a gente tem no barracão da Ilha o Edu, o Cahê, o próprio presidente Ney, o seu Luiz Carlos chefe do barracão, eles tocam o carnaval da escola no dia a dia, e, eu sou muito ligado a Beija-Flor no dia a dia. Passo lá dia sim, dia não, no final do dia para bater um papo com eles, para ver como está o ritmo das coisas, mas a ideia é a gente colocar a Ilha na Avenida, mas o dia a dia está sendo muito tocado por eles. A gente só bate papo de carnaval para a Ilha vir com um grande carnaval e voltar ao lugar de onde ela nunca deveria ter saído”.

Como tornar a evolução dos desfiles mais solta e com samba no pé?

Dudu Azevedo: “Eu acho que é um pouco no julgamento. Confio muito na forma como a gente está falando disso nas reuniões que tiveram agora para jurados. Teve reunião com diretor de carnaval, com carnavalesco, com os presidentes. Acredito muito em uma visão um pouco mais solta do carnaval. Porque quem engessa muito é o julgamento. Porque quando uma escola é campeã, tira nota 10, vira uma tendência você fazer o que aquela escola fez porque você também quer ser campeão. Só que eu acho que arte não tem tendência. Quando algo está sendo feito para uma tendência, eu acredito que deva ser quebrado esse julgamento para que fique livre a arte de qualquer um. Vou dar um exemplo aqui, quando uma bateria passa com um ritmo de uma forma na Avenida que ganha 10, muitas vezes mantendo suas características, isso virou uma tendência. Todo mundo caminha para aquilo ali. E, aí você acaba limitando a criatividade do seu mestre. Eu costumo falar para o meu mestre ‘pensa, faça o que quiser, só mostra no ensaio para gente, para a gente ver se está no contexto do desfile da escola, ou não é alguma coisa só para a bateria’. Porque a bossa, a paradinha, tem que estar no encanto do desfile ser bom, de ser para todo mundo. Fazer todo mundo vibrar. Quando isso acontece só para a bateria, não é tão bom. Quando começam a cobrar do mestre apenas resultado, apenas a nota 10, ele acaba virando tendência o que outro fez. As tendências precisam ser quebradas. Mas, isso acontece também com a plástica do carnaval, quando o carnavalesco faz algo. As alegorias humanas, em algum momento foram copiadas por alguns carnavalescos, porque virou uma tendência quando o Paulo Barros começou a fazer isso. Então, eu acho que as tendências têm que ter um tempo, senão, tem que ser quebradas porque o julgamento não pode deixar a tendência para sempre. Arte é livre, arte é criatividade”.

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