Qual o segredo para trazer o prestígio novamente para uma escola de samba? O que precisa ser feito para a ‘dignidade voltar para o ninho’ e o componente acredite em títulos? Na série “Entrevistão” a equipe do site CARNAVALESCO conversou com Fernando Fernandes, presidente da Unidos de Vila Isabel. Vindo de um luxuoso desfile, o presidente comentou sobre a relação com o Distrito Federal, com Witzel, e prometeu uma Vila ainda maior em 2020.

Temos observado uma grande redução de eventos na quadra da Vila Isabel. Isso não vai na contramão da necessidade de arrecadação num momento de crise?

“Nós decidimos dar uma reduzida nos eventos, porque todos tem um custo muito alto. Evento hoje não dá lucro e sim prejuízo. Tem uma gama de cortesias para ser dada, venda é muito difícil. Depende da atração para que seja sucesso. Tem que ter interesse do público em participar. Hoje, na crise que vivemos no carnaval só podemos apostar no certo. Nossa quadra é muito bem localizada, porém é muito onerosa. É muito grande então as despesas são maiores. Segurança, portaria, banheiro, brigada de incêndio, gerador, ambulância e etc. Isso ai onera assustadoramente. Quando você pensa que vai ter lucro, o resultado é empate ou prejuízo. Porque a despesa é altíssima. Tem que cumprir com uma exigência e protocolo enorme. Se não cumprir, tá ‘roubado'”.

Alguns veículos divulgaram que a relação com o Distrito Federal não é das melhores. O que de fato aconteceu? A escola obteve o aporte financeiro?

“O que foi divulgado tem um pouco de verdade e um pouco de mentira. A relação com o governo é boa. O que não teve foi o aporte prometido. Não existe um desgaste por parte da Vila com o governador. Temos uma carta de intenção assinada de um aporte de R$ 4 milhões. Só que até agora não veio um centavo. Eles seguem vendo com agências e empresas”.

O projeto de 2020 é ainda maior que 2019?

“A Vila vai novamente fazer um carnaval grandioso e esplendoroso. Nós apostamos nesse investimentos que foi prometido. Sou administrador e a Vila é muito bem administrada. Não vou dizer que acabarei o carnaval sem dívidas, mas são dívidas administráveis. Nós tínhamos uma promessa, se o governo do DF cumprir está tudo quitado. Caso não cumpra, faremos um carnaval bonito, porém com dívidas pagáveis”.

Algumas pessoas elogiaram o desfile de 2019, mas talvez por saudosismo, acharam a escola fria. Você concorda ou discorda?

“Sou transparente em tudo o que falo. Acho que não houve isso. Se entra uma escola fria, morna ou quente é o samba que produz. O samba é a força da escola. Se tivermos um samba bom, a escola vem com uma força que pode surpreender. Um samba que empolga atinge não só a escola na avenida, mas também nas arquibancadas. Se o samba é ruim não empolga ninguém. Pra esse ano fiz uma aposta. Não fizemos disputa. Recebi os CDs e os compositores não tiveram despesa. A disputa na Vila era viciada, só ganhava um. Mudei isso. O critério foi envelope lacrado, não tinha nome de ninguém. Só eu sabia pelo número. Quando escolheu o samba eu disse quem eram os compositores. Todos ficaram felizes pois os gastos foram mínimos. Pra 2021 vou inovar novamente. Levarei três sambas pra final sem divulgar os compositores, quem divulgar será desclassificado”.

Nos ensaios de rua da Vila é perceptível que algumas pessoas da comunidade prefiram ficar nas calçadas assistindo e não desfilando. O que fazer para que esse componente volte para dentro da escola?

“Todos esforços são feitos. A comunidade não volta porque não quer. Hoje a moda é o funk. A juventude quer funk e hip-hop. Quem está na escola tem a média de 35 anos, se puxarmos as fichas da Vila Isabel vamos constatar isso. A oferta é feita, a prioridade é e sempre será nossa comunidade. Mas existe uma fuga. Isso é uma mudança que vai sempre existir. O mundo evoluiu, o samba evoluiu. Entrou muita gente e também saiu. Assim é a vida. Não é uma exclusividade da Vila, todas as comunidades passam por isso”.

Como anda a relação com o governador Wilson Witzel?

“O governador é simpático com as escolas. Veio no lançamento do nosso enredo, tem um carinho enorme pelo samba. Só que ele também não pode resolver nada sozinho. Ele tem boas intenções mas disso o mundo tá cheio. Estou igual a São Tomé, só acredito vendo. Ele é simpático, agradável e quer fazer. Mas não depende exclusivamente dele”.

Qual era a situação financeira da Vila antes da sua chegada?

“Peguei a escola numa situação sofrível. Eram dívidas de gestões passadas. Chegamos aqui com 96 processos, hoje temos 11. Equalizamos muita coisa”.

Sobre o terceiro lugar de 2019, a escola ficou orgulhosa ou frustrada?

“Digo por mim. Eu, Fernando Fernandes, como presidente da Vila fiquei orgulhoso. Fiz uma reunião com os segmentos antes do desfile e afirmei que meu não era tirar o primeiro lugar. E sim botar a Vila novamente nas campeãs. Cheguei aqui a escola não tinha uma pena de galinha. Falei que botaria a Vila acreditava e competitiva. Se pegar de 2013 pra cá, as posições eram décimo, nono, oitavo e quase rebaixamento. Acho então que melhoramos. Modifiquei a cara da Vila Isabel. A quadra tem uma escola alegre que está motivada. Só tem dois anos que estou aqui, preciso ir modificando aos poucos. O presidente precisa de um tempo maior para que os profissionais consigam trabalhar. Não dá para lapidar nada em um ano ou dois. Se tiver estrutura igual uma empresa a escola vai forte. Com equipe boa, seremos sempre competitivos. Lógico que não vamos ser campeões o tempo todo, isso não existe. O importante é estar lá no sábado das campeãs. Porque a diferença é de apenas um décimo ou dois”.

O que falta para a escola ficar em primeiro lugar?

“Falta ela acontecer na Marquês de Sapucaí. Porque lá é uma incógnita. Temos um carnaval espetacular cujo enredo é Brasília. Mas não falamos de Brasília em si, não tem nada a ver. É uma viagem ao mundo chegando lá. As pessoas precisam entender isso. O Edson teve um insight muito bom, fez um enredo bonito e acreditamos nisso”.

Como é a relação com Capitão Guimarães e família? O que foi pedido quando você assumiu a escola?

“Ele é uma pessoa muito educada, conversa muito, mas não se intromete. A relação com ele é excelente. Dá conselhos devido a sua grande experiência, ele sabe muito de carnaval. Porém, não pediu nada quando chegamos aqui”.

Vocês pensam no reinado de Aline Riscado como pontual ou será como foi com a Sabrina?

“Vamos esperar para ver o que vai acontecer na avenida para falar a respeito. Agora não é o momento”.

Como a Sabrina lidou com isso?

“Ela é super educada e entendeu perfeitamente. Tanto que virá na frente da escola esse ano. Será rainha da Vila Isabel”.

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