Entrevistão com Gabriel David. ‘Carnaval é um produto pronto. Os processos é que precisam mudar’

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Por Guilherme Ayupp. Fotos: Eduardo Hollanda

Um jovem de 20 anos vem conseguindo implementar na Beija-Flor de Nilópolis, a maior campeã da Era Sambódromo, novos paradigmas de modernização em uma estrutura reconhecidamente envelhecida e retrógrada. Gabriel David, filho de Anísio Abrahão David, presidente de honra da Deus da Passarela, recebeu a reportagem do CARNAVALESCO o Entrevistão. No bate-papo, ele questionou as pessoas que acharam o desfile da Beija-Flor falho no aspecto técnico, reafirmou que a forma de fazer carnaval é arcaica e definiu o enredo da escola para 2019 como algo muito além de uma auto-homenagem.

Quando foi que você decidiu que queria seguir os caminhos do Anísio na Beija-Flor?

“Eu acho que nunca bateu, eu sempre estive aqui de formas diferentes. Nunca decidi vir aqui trabalhar. O que houve é que um momento em que meu pai estava desgostoso com os rumos do carnaval, eu passei a frequentar mais vezes o barracão e a escola”.

Qual a sua opinião sobre a forma de se fazer carnaval hoje?

“Eu acho que o carnaval precisa ser repensado, não no que ele é, mas como ele é apresentado. É impossível achar algo parecido com o que é o carnaval. O que ele representa, a energia, a paixão. Ser um produto único o torna fácil de ser trabalhado e é por isso que ele segue sendo muito bom. O trabalho que é feito no carnaval não acompanha a qualidade. Os processos e o formato são antigos e não mudam há no mínimo 30 anos. A estrutura da Liesa é a mesma desde que ela foi criada. Qualquer empresa precisa acompanhar a evolução humana. O carnaval de São Paulo cresce muito e por qual motivo? Sua estrutura física. É uma Sapucaí dos sonhos, em questão logística. Todos os carros ficam ali antes do desfile, não possui aquele drama de concentração. O carnaval avançou até um certo ponto e se estagnou devido aos limites que são impostos. Quem quer fazer algo diferente fica com receio”.

O que de uma forma prática pode ser feito?

“As pessoas hoje enxergam os desfiles de uma forma única. E o carnaval precisa se adequar ao que é feito nos grandes festivais do mundo. Não possuímos uma ativação de marca, que é diferente de exposição. Qualquer empresa hoje pede uma ativação. Você cria uma interação com o público. As pessoas ficam 30 minutos às vezes sem ver nada. O que o gari Sorriso fazia mostra quantas coisas podem ser criadas. Involuntariamente, ele se tornou uma grande atração. Falta abrir a cabeça, em particular da Liesa. O que funcionou bem até hoje não é necessariamente obrigatório que vá funcionar sempre”.

A TV Globo não emperra essas ativações?

“A negociação com a Globo deveria sofrer uma mudança, simples até. Se cada escola puder apresentar uma marca durante seu desfile poderíamos gerar uma receita absurda para as escolas. Você mudaria o espetáculo, melhoraria ainda mais. A própria Globo ganharia com isso. É só mostrar para eles que também é rentável à ela, como faz o futebol”.

Você será presidente da Beija-Flor?

“Sinceramente, eu acho que não mudaria nada. Estou aqui porque quero estar. Tenho um prazer em vir e sei que manterei por um bom tempo. Nada é feito por obrigação. Talvez, como presidente, eu passe a ter obrigações que eu não queira, assinar papeis que não assino. É uma questão de nomenclatura”.

Podemos traçar um paralelo entre você, Marcelinho Calil e Luizinho Guimarães com seus pais, na forma de agir?

“Eu acho que nós entramos nas escolas com um poder que eles não tinham, tiveram de criar a confiança das pessoas. É uma faca de dois gumes: às vezes pode ser muito bom, mas por outro lado pode ser ruim. Ainda não possuímos a experiência e a bagagem deles, mas crescemos estudando em bons colégios, aprendendo com eles. O mundo hoje é muito dinâmico e você precisa estar sempre atento ao que o público anseia. Vejam o desfile da Beija-Flor de 2018. O povo queria ver aquilo”.

O enredo da Beija-Flor em 2019 é uma auto-homenagem?

“Nosso enredo de 2019 é 100% educacional. Não é uma releitura simples de nossos carnavais. Vamos mostrar os motivos sociais e éticos por trás de cada enredo que foi apresentado, de uma forma diferente, outro ponto de vista. De uma forma carnavalizada. Não terá aspecto político, como 2018. O prazer que gere conteúdo nas pessoas. A obrigação da escola de samba é essa”.

Como você gostaria de ser reconhecido na história do carnaval?

“Eu quero ser reconhecido não por ser filho do Anísio. Se eu entrar para a história é por algo que eu tenha feito e não por um sobrenome. É um orgulho muito grande ser filho dele, mas eu gostaria de fazer algo por mim. Muita coisa pode ser feita. Faço coisas que acredito. Eu vou seguir até onde achar que faz sentido”.

E o camarote? Pretende repetir em 2019?

“O camarote foi um projeto incrível, uma experiência que me fez crescer muito como profissional e trabalhando em um ambiente que eu gosto. Entendo as críticas aos super camarotes, fazem total sentido. Mas não quer dizer que eu concorde. De alguma forma os camarotes estão conflitando com a essência da festa. Mas saindo um pouco do mundo lúdico e indo para o real. Famílias não conseguem mais comprar um camarote. Criou-se um novo mercado. Você pode parcelar a compra do camarote, vai quem quer ir, sem stress de transporte, de decoração, com comida, bebida e música a noite inteira. Pensando no cliente, olha quantos benefícios a gente pode oferecer. Os super camarotes geram um conforto incrível às pessoas. Tem muita gente jovem vindo para o Rio, para curtir os camarotes, gente do Brasil todo. O ponto é entendermos que precisamos gerar uma experiência a quem não estaria lá. E isso tudo gera dinheiro para o carnaval”.

Como aproximar o jovem das escolas de samba?

“Acredito que primeiro temos de rever a forma de venda de ingressos. Você tem que facilitar e não dificultar para o seu cliente. Eu criei uma empresa para gerir o camarote. Eu tive que fazer uma reserva à Liesa, via fax. Sabe que empresa possui um fax? Nenhuma. Eu comprei um fax só para isso. Tem que mudar urgentemente a forma com que o cidadão compre o ingresso. Outro aspecto é gerar experiência para as pessoas, você rentabiliza o espetáculo e melhora os desfiles. Não agregam valor ao carnaval. Ele se sustenta sozinho”.

Muita gente acha que a Beija-Flor só ganhou pela emoção, você concorda?

“Eu não concordo que a Beija-Flor só foi emocionante e pecou na técnica. Achei incrível tecnicamente nossa apresentação. Estivemos próximos da perfeição. Nesse aspecto emocional, fizemos o que lutamos para fazer. A ideia era fazer com que as pessoas se dispersassem. Independente do título, o dever foi cumprido. As pessoas tem que sair de um desfile melhor do que entraram. É difícil transformar isso numa fórmula”.

A teatralização nos desfiles da Beija-Flor vai seguir?

“É legal você me fazer essa pergunta, porque engloba o produto como um todo. A teatralização foi uma forma que encontramos para agregar valor ao espetáculo. Deixa de ser um bloco de pessoas que não se comunica entre si. Deu certo. Aproximamos o espectador do desfile. Facilita o entendimento e o torna mais emocionante. É mais arriscado, sem dúvida, pois você depende de muito mais gente. Mas por outro lado quando dá certo se torna algo histórico”.

A Beija-Flor nunca ganhou domingo…

“Adoro quebrar paradigmas. Vamos ser campeões pela primeira vez desfilando domingo. Quer motivação maior que essa?”.

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