Por Gabriella Souza

Giovanna da Silva Justo é uma porta-bandeira renomada e com uma longa trajetória no carnaval. Em seus 25 anos de carreira já conquistou quatro títulos. Estreou na Avenida em 1995, na Mangueira, comunidade em que nasceu. Foi ali onde consolidou sua grande parceria com o mestre-sala Marquinhos, que já vinha desde a escola mirim Mangueira do Amanhã. O casal desfilou junto durante 22 anos em diversas escolas do Rio. Giovanna também já passou por Unidos da Tijuca, Vila Isabel,Viradouro e Tuiuti. Em 2019 passou a representar a São Clemente junto do mestre-sala Fabrício, parceria que se mantém firme para 2020. Veja abaixo a entrevista com ela.

Após títulos e prêmios o que você ainda quer conquistar no carnaval?

Giovanna Justo: “Conquistar é uma palavra forte. A gente sempre está correndo lá na frente para conseguir nossos objetivos, eu sempre gostei do que faço que é a arte da dança de mestre-sala e porta-bandeira. Eu posso dizer que sou uma pessoa iluminada por Deus, porque tudo o que quis na minha vida eu consegui aos poucos e no caso de conquistar algo mais na minha carreira de porta-bandeira eu realmente não sei dizer, vou deixar essa perguntinha vaga, porque eu já consegui tanta coisa e eu sou agradecida por Deus por tudo que já conquistei. O que me resta agora é dançar e passar alegria para esse povo que nos assiste”.

Parece que o Fabrício foi feito para você e você para ele. Como foi essa união e o que pode falar dele como mestre-sala? 

Giovanna Justo: “O Fabrício é um lorde, essa relação minha com ele é muito boa, igualzinha a que eu tinha com o Marquinhos, além de ser um bom mestre-sala ele é um bom ser-humano que tem caráter. Ele é uma pessoa bem calma e eu agitada, em uma dupla tem que ter esse equilíbrio, nos damos muito bem. E eu sou muito agradecida por tudo e por isso também, até porque eu nunca havia trocado de mestre-sala na minha vida, o Fabrício foi o primeiro e está sendo ótimo”.

Qual foi uma fantasia sua que achou inesquecível? E qual você não gostou?

Giovanna Justo: “Eu vou falar duas. Da Mangueira de 2009 que foi uma fantasia em que eu entrei e parecia uma caixinha de jóias, adorei. E também em 2012 na Tijuca, que o Marquinhos era o Lampião e eu a Maria Bonita, gostei muito dessa fantasia. Foram as duas fantasias que eu gostei mais, fora as outras que também foram belíssimas, mas como tem que escolher. Uma que eu não gostei tanto foi a de 99 na Mangueira que era vazada, ela arrebentou logo no setor 1 e na época eu vinha à frente da bateria, lembro como se fosse hoje. Sabe quando você está no Maracanã e só escuta aqueles gritos do público? Eu escutei tudo isso, eles gritando e eu andando pelo setor e perguntando o que tinha acontecido e ninguém queria me falar nada, porque rasgou toda na parte de trás. O impressionante é que eu não senti. E antes de eu vestir a fantasia, Marquinhos fez força nela, puxou bastante, balançou para poder checar e nada aconteceu e foi acontecer logo na Avenida. Quando eu passei pelo setor 1 eu só vi o Moranguinho, que hoje é mestre-sala e na época era meu ajudante, ele estava recolhendo as partes da fantasia no chão e amarrando em mim e acabou sustentando a fantasia. Eu só escutei a vibração do público, e para mim aquilo era para a bateria porque eu realmente não a senti rasgando. E essa fantasia me marcou com tristeza. O engraçado foi que eu não perdi ponto devido a fantasia ter arrebentado, mas sim pois justificaram que a Mangueira havia saído da tradição dela, já que ela veio com uma roupa vazada da porta-bandeira. É incrível”.

Aliás, quando você tem a conversa com o carnavalesco o que você pede sobre a fantasia?

Giovanna Justo: “Eu sempre deixo por conta do carnavalesco a idealização da fantasia. O único que eu cheguei para conversar mais sobre e já cheguei falando que tinha medo dele foi o Paulo Barros, eu cheguei e falei para ele que a única coisa que tinha medo era o que ele ia propor para minha fantasia, mas ele me tranquilizou e falou que todas as minhas fantasias seriam tradicionais como é o meu estilo mesmo e cumpriu com a palavra dele”.

Você fez história no carnaval ao lado do Marquinhos. Doeu muito desfazer essa dupla?

Giovanna Justo: “Eu saí de uma parceria de 22 anos com o Marquinhos, estivemos juntos na Mangueira, Tijuca, Vila, Viradouro, Tuiuti. Mas a vinda para a São Clemente não foi junto com ele, porque o carnaval mudou muito e espero que seja para melhor. Eu pensava que nunca iria desfazer essa parceria, como se fosse mesmo um casamento de marido e mulher, mas só que às vezes temos que dar um passo para trás para podermos conquistar mais coisas lá na frente”.

Ele acabou ficando fora do carnaval. Você conversa com ele? Ele já disse que quer voltar a dançar com alguma porta-bandeira?

Giovanna Justo: “Claro que ele tem vontade de voltar para o carnaval, como eu que estou aqui por tantos anos. Ele é o filho do Lilico da Mangueira, grande mestre-sala de grandes carnavais. E ele vai voltar, porque ele é um excelente mestre-sala. É porque o carnaval mudou, a gente entra em uma escola e já encontra a parceria, eu cheguei na São Clemente e encontrei o Fabrício, e antes desse deslocamento meu e do Marquinhos, nós já tínhamos conversado sobre, que se alguma escola o convidasse era para ele aceitar e se alguma escola me convidasse eu aceitaria, nem eu nem ele deixaríamos passar essas oportunidades. Tanto que muitos anos atrás, eu lembro como se fosse hoje, eu queria que ele dançasse com a Danielle na Portela que estava sem mestre-sala e eu cheguei até a ligar para ela falando dele. Há pouco tempo agora eu também queria que ele dançasse com a Cristiane na Mocidade quando o Diogo saiu e ela ficou sem mestre-sala, eu liguei para ela e pedi também, ela disse “que vocês vão voltar” e tudo mais. A minha vontade é que ele volte a dançar, porque ele é um grande mestre-sala. E ele vai voltar, eu tenho certeza disso”.

Quando vocês saíram da Mangueira simbolizou uma mudança grande. O que você sentiu na época?

Giovanna Justo: “Ainda bem que está me perguntando isso hoje, que tenho só lembranças, porque foi difícil. Costumo dizer que a Mangueira foi uma grande faculdade para mim e a Unidos da Tijuca foi um trabalho, lá que eu comecei a receber um salário por mês certinho. A nossa saída não foi devido dinheiro nem nada disso, foi mesmo porque tínhamos que mudar, renovar a nossa vida e carreira como casal. A Mangueira foi a escola onde fui nascida e criada, minha família é toda de lá, minha avó morreu com 111 anos morando lá. Para ter uma noção da época, quando eu saí da Mangueira uma tia minha, que não está mais aqui, ficou 1 mês sem falar comigo, eu chegava lá para visitar a família e eu pedia ‘bença’ para ela e ela virava o rosto. Depois de um mês ela veio, me abraçou, chorou e ficou tudo bem. Acho muito engraçado isso, para ver como aquilo foi forte para todos nós,
coisas que só mangueirense faz”.

Qual foi o seu maior desfile na vida? E por que?

Giovanna Justo: “Meu melhor desfile foi em 2002 com a Mangueira campeã. Nós passamos várias dificuldades esse ano, não com a escola mas como casal, porque o Marquinhos ficou doente no período dos ensaios. Teve até um ensaio técnico em que eu ensaiei sozinha na Marquês de Sapucaí e saímos todos chorando porque ele ainda estava internado e essa cena não sai da minha cabeça. O presidente na época chegou até me perguntar se eu queria que colocassem o segundo mestre-sala e eu escolhi fazer sozinha mesmo e fiz os passos todos da coreografia como se ele estivesse ali e todo mundo olhava e achava aqui inédito porque eu dava a mão para ‘ele’, rodava, ia nos jurados e tudo sem ele ali. Ao final chorei muito, mas consegui passar esse ensaio com o apoio de todos. Chegou no dia do desfile e ele estava ali e ganhamos. Então meu choro não foi em vão”.

Qual desfile que você viu de alguma escola e queria ter participado? 

Giovanna Justo: “Quando eu estou no lugar eu estou de corpo e alma, para representar a minha escola. Mas teve um ano na Mangueira que eu já não estava mais lá e assisti o desfile em prantos, em 2011. Aquela bateria estava linda com aquela ‘paradona’, eu estava em um camarote e quase já querendo ir para a pista acompanhar eles. Gostei muito desse desfile, foi inesquecível e o povo também vibrou muito”.

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