Jack Vasconcelos vem se destacando ano após ano desde seu retorno ao Paraíso do Tuiuti, em 2015. Enredos bem desenvolvidos e premiados que culminaram com um desfile antológico no ano passado. O carnavalesco do Tuiuti é o personagem da série ‘Entrevistão’. Jack revela que não viu a apuração de 2018, afirma que taxar seu enredo de esquerdista é ser pobre e admite inspiração no ex-presidente Lula para desenvolver a sinopse do enredo.
Qual a distância do Tuiuti para o título? 

“Isso envolve muita coisa. Não existe fórmula. Se existisse, o Laíla saberia (risos). A escola vem no caminho certo para atingir esse objetivo. Você não pode encostar na qualidade do seu chão, embora tenhamos uma comunidade forte. Tudo tem que ser extremamente trabalhado. Essa forma de pensar é que eu considero correto”.

Como você percebeu a repercussão do desfile de 2018?

“Só quando eu cheguei em casa. Vim no final da escola pela primeira vez. Depois que entrou tudo, vi uma grande comoção, as pessoas só faltavam se jogar de onde estavam. Naquele momento senti que tinha sido bom. Mas não passou pela minha cabeça a repercussão que estava tendo. Eu pensei no momento que não cairíamos. Queríamos um julgamento justo. Fui para casa e os vizinhos só falavam da repercussão nas redes sociais. Na hora não dá pra saber”.

Ao assistir a apuração você esperava ser vice-campeão?

“Eu não assisto apuração. Liguei a TV quando estava do fim para a metade. A minha preocupação ainda era não descer, juro. Fui tomando consciência das notas e teve uma hora que eu comecei a perceber que iríamos voltar nas Campeãs. Comecei a me desesperar e em uma fração de segundos torci para não voltar, e rapidamente me corrigi da bobagem que eu estava pensando. Aquele momento que a TV botou Beija-Flor campeã, apareceu o nome do Tuiuti do lado. Minha mãe estava na sala chorando. Eu não acreditei. É muito significativo. A escola veio do acesso a dois anos. Achei mesmo que era um engano, que a Globo estava errada”.

Como é o sentimento ao saber que tantas pessoas querem desfilar no Tuiuti?

“O sentimento é de orgulho. Não digo que a gente tinha dificuldade de encher a escola mas é claro que o interesse era um até 2018 e agora é completamente diferente. As pessoas passaram a nos procurar muito antes do início da venda das alas. Isso nos dá por outro lado uma responsabilidade enorme”.

O seu enredo é de esquerda?

“Eu acho que é um enredo alinhado com o pensamento do mais pobre, do cara que não tem voz, que precisa lutar para não ser excluído. Taxar de esquerda eu acho que é ser pobre. Mas eu não me ofendo com isso. Acho legal e gosto”.

Os enredos críticos voltaram?

“Eu acredito que o bom resultado do desfile da gente encorajou as pessoas a falarem daquilo que gostariam de falar. Estou falando de uma forma geral. A Série A é um enredo fortíssimo. Quase todos possuem um engajamento claro e forte. Momentos de crise dão incentivo e suporte. Sem ninguém ajudar você fala o que quiser”.

Como você explica seus enredos serem tão elogiados e premiados?

“Acho que pela primeira vez tenho conseguido fazer o que acredito. Ao voltar pro Tuiuti em 2015, o Thor me perguntou o que eu pensava de enredo. Eu nunca havia ouvido isso de um dirigente antes. Os enredos não partiam de mim. A primeira escola que me deu essa liberdade antes do Tuiuti foi o Império da Tijuca em 2004 e 2010. Eu tinha sempre que adaptar ideias que não partiam de mim. O enredo que fiz em 2015 aqui foi recusado em três escolas antes do Tuiuti. É uma escola que se interessa pelo que eu penso”.

Alguma escola consegue te tirar do Tuiuti hoje?

“Querem me tirar? Eu não sei dessa história. Trocar de casa você precisa ponderar muito os prós e contras. É preciso pensar muito. Hoje se continuar a minha relação como tenho aqui, não tenho porquê sair. Nem toda agremiação tem essa política”

O Lula está implícito na sua sinopse?

“Eu estou falando de um personagem barbudo, que veio do Nordeste, incomodou a elite e foi representante do povo. O bode iôiô foi tudo isso”.

Qual o papel do samba no seu desfile de 2019?

“O samba dá o espírito do enredo e traz complementos à informação. Ele tem o papel de trazer o sentimento do desfile. Ao conversar com os compositores expliquei que o espírito do enredo era outro. O samba é ensolarado, tem uma ironia refinada. Representa muito bem o que o enredo se propõe a falar”.

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