Juntos há 13 carnavais, com passagens por escolas como Unidos de Vila Isabel e Unidos da Tijuca, o casal Julinho e Rute, juntos, acumulam quatro títulos, três no Grupo Especial e um na Série A. O casal campeã de 2020 com a Viradouro conversou com a reportagem do CARNAVALESCO para a série ‘Entrevistão’ e revelou que a escola com todo suporte oferecido foi fundamental para o segredo do sucesso.

Qual a importância de todo o suporte que a Viradouro dá para vocês?

Rute: “Na minha opinião, a Viradouro dá tudo que um casal precisa. Tudo! Primeiro, o respeito ao casal. Não é porque a escola tem uma condição financeira melhor ou pior, mas, desde o momento que os gestores te ouvem, os nossos presidentes nos ouvem, isso é muito importante. Uma coisa que, se a gente não tivesse vindo para Viradouro e ter a estrutura que tem, talvez, o casal Ruth e Julinho nem existisse mais. A gente estava em um desgaste, por ser só a gente. Era nós dois para tudo. Nós somos seres humanos. Eu e Júlio, a gente não briga nunca, a não ser quando estamos montando coreografia (risos) e agora nem tem mais isso porque agora a gente tem alguém conosco. Eu lembro que quando a gente estava para sair da Tijuca, eu falei para ele: ‘Júlio, para onde quer que a gente vá, não importa a direção para onde a gente vai, mas a gente precisa de um coreógrafo’. Teve uma escola que só queria o Júlio, teve uma outra que só me queria. Na Tijuca, só tivemos um espaço para ensaiar quando a fantasia veio e quando a gente colocou a fantasia, sexta ou sábado antes do carnaval, nos olhamos no espelho, e achamos que estava horrível. E aí, como consertar um dia antes do desfile? É muito complicado. Eu posso enumerar tudo que a gente tem na Viradouro, mas o mais importante é o respeito. A gente tem o coreógrafo, a gente tem um professor de contemporâneo. Ano passado tivemos aula na Deborah Colker e esse ano a escola trouxe o professor para ficar conosco. Temos personal trainer, nossa fantasia é feita em um local que a gente escolhe, um local que a gente confia. A escola é comprometida com ateliê, ou seja, tudo que um ateliê pede para poder confeccionar a fantasia.Na Vila Isabel mesmo, sábado de carnaval o Júlio teve que ir buscar a fantasia no ateliê. Isso é muito ruim até para o psicológico do casal. Somos só nós dois e a gente precisa de estrutura. Não existe nada que a gente peça, que eles veem que é importante para nós, que eles neguem. Só peço a Deus e a toda a minha fé para retribuir a eles com as nossas notas, que é o mínimo que a gente pode fazer. É o mínimo que a gente pode fazer por eles e pela nossa comunidade. Eu e o Julinho dançamos há 13 anos e há 13 carnavais. Eu há 23 anos e o Júlio 30. A primeira vez que um presidente foi ver um ensaio com a fantasia no ateliê foi na Viradouro”.

Julinho:  “A estrutura que a Viradouro oferece para nós, óbvio, que em outras escolas alguns casais têm. Como ela disse, o respeito, o carinho, sabe? Não é que as vezes pode parecer uma coisa bem vaidosa, que trate a gente como uma joia, como falam no futebol. Não, não tem. Eles tratam a gente como seres humanos, profissionais. Temos uma certa vivência no carnaval, somos comprometidos com a escola, somos comprometidos com a nossa função, como mestre-sala e como porta bandeira independente de qualquer coisa eesse olhar que eles têm para nós, é como se eles transmitissem isso, oferecendo toda estrutura que é necessária. Estão sempre perguntando se a gente precisa de algo. Próximo ao último carnaval, o nosso presidente queria marcar para conversar a gente e aí passa aquela sensação de preocupação, a gente pensa que tem algo errado e a gente fica naquela loucura, porque nunca passamos por isso. É encontro no barracão, encontro na quadra; fala, cumprimenta. Tem vezes da gente só encontrar o presidente quando está dando a bandeira e saudando eles no pavilhão. E de repente o presidente quer marcar para conversar com a gente. Insistiu por conta da dificuldade de achar um lugar e um horário comum com a gente. Sabe, era apenas um almoço de maneira informal e ele queria saber como nós estávamos, se estávamos bem, se estávamos precisando ainda de alguma coisa. Ele já tinha ciência do nosso trabalho de preparação física, tinha ciência da nossa indumentária, que já estava pronta. Ele quis, simplesmente, sentar com a gente. Imagina um presidente que tem mil coisas para resolver, não que não seja importante o nosso quesito, mas ele quis sentar com a escola inteira. Então, por que eu quis contar essa história? Para dizer que assim, é um quesito que como todos os outros que merecem atenção. Porque na hora de divulgação das notas, é com cada nota de cada quesito que ele conta para alcançar o objetivo. Sim, já fomos bem tratados em outras escolas mas dessa maneira, de forma humana, que eles fazem não. E a gente não tem como retribuir de outra forma. É o comprometimento e empenho”.

Julinho: você imaginaria estar nesse lugar hoje? No início de carreira, você já projetava o seu futuro em relação ao sucesso de mestre-sala?

Julinho. “Comecei com sonho de criança. Naquilo que a gente se propõe a sonhar como criança. Eu comecei muito novo, comecei a dançar com a Vilma eu tinha 15 para 16 anos. Eu tinha o sonho de ser um grande mestre-sala. O meu pai veio a falecer no ano que eu estreei com a Vilma e no sepultamento do meu pai, no calor da minha emoção, de estar perdendo o ídolo da minha vida eu prometi para o meu pai que um dia eu ia ser considerado um grande sambista do carnaval, um grande mestre sala no carnaval. Eu tinha 16 anos de idade. Passei por muitas coisas difíceis e que bom que eu passei por muitos momentos difíceis no carnaval, isso ajudou a construir a minha identidade, a minha conduta, coisa que o meu pai mais me cobrava. Porque isso daí é o principal, isso vale mais do que qualquer êxito que eu tenha profissionalmente ou tecnicamente no carnaval. Então assim, hoje, eu me vejo como um mestre-sala, que também é uma referência para os jovens que estão surgindo. Isso aumenta a minha responsabilidade, como eu sei também que hoje eu tenho uma porta bandeira que é, desculpem as outras, a mais ‘top’, não existe igual, não tem porta-bandeira como essa. Ela mistura tudo. Ela mistura garra, emoção, leveza. É a Ruth Alves. Se hoje eu posso dizer que eu conquistei alguma coisa de grande no carnaval eu posso dizer que é uma grande parceria”.

Rute: você é apontada como uma das portas-bandeiras mais “raçudas” da avenida. Aquela energia vem na hora? Você tem algum “controle”?

Rute: “Eu estou apreendendo há 13 anos a ter controle (risos). Minha inspiração sempre foi a Maria Helena. Eu sempre admirei a garra, a raça dela. Ela sempre foi a minha referência., minha ídola como porta-bandeira. É sonho realizado. Se você ganha na mega-sena, você vai fazer o que? Você pula, você grita, você bate no peito. Ali, a gente está tendo um privilégio de levar um pavilhão com 4 mil pessoas. Estamos representando o manto de 4 mil pessoas. Eu não conheço os fundadores da Viradouro mas um dia uns senhores sonharam de alguma forma em fundar essa escola, e talvez nem tiveram a oportunidade de vê-la na Marquês. A gente tem esse privilégio. Como fazer por menos? Como não cantar um samba que exalta essas mulheres guerreiras que a gente tem hoje? A gente tem uma bateria do Ciça, a gente tem a voz do Zé Paulo, tenho esse cara dançando comigo. Eu juro para você depois que vejo penso que tenho que ser menos pois fico parecendo uma maluca. Eu estou aprendendo a me controlar, principalmente ali no primeiro recuo, quando está tendo o esquenta. É mais difícil ainda quando a gente vê a nossa família, nossos amigos, alguém que você as vezes nem enxerga mas está gritando o seu nome. O setor 1 é o termômetro”.

Foi difícil abrir mão da elite para desfilar na Série A? O que motivou?

Julinho: “Eu sou um pouco avesso a mudanças bruscas mas as vezes elas acontecem e a gente não entende o motivo. Óbvio que bate uma preocupação, estávamos tanto tempo desfilando e sair do convívio, não desmerecendo a Série A, mas estávamos saindo de um lugar que passamos bastante tempo, no lugar onde todos querem estar. Dá um frio na barriga. Já passei pela Séria A, no nosso processo de evolução passamos por grupos ‘menores’, porém eu mantive a fé e o pensamento positivo. Deus estava colocando algo novo para gente e achamos que seria importante para nós. Depois que a gente sentou e ouvi a Viradouro, tínhamos outras escolas para ouvir, do Grupo Especial, inclusive, não quisemos mais ouvir ninguém. Era a Viradouro. Viemos de peito aberto em busca de renovação, de ânimo. Juntos somos fortes como parceiros, não ruímos, e seguimos juntos. Foi um grande crescimento. Melhor dar um passo para trás e depois dar outros para frente. Continuamos trabalhando firmes e fortes. Cada ano é um ano”.

Rute: “Eu passei mais pela Série A do que o Julinho. Fui para Vila e para o Porto da Pedra enquanto estavam lá, graças a Deus sempre subindo com a escola. Somente na minha estreia na São Clemente que não consegui esse feito por conta da escola em que o Julinho estava. Ficamos empatados, Tradição e São Clemente, tenho raiva dele por isso ainda (risos). Somos família, frequentamos a casa um do outro, os filhos deles eu tenho como sobrinhos. Nos fortalecemos, não queríamos nos separar e estávamos em busca de uma estrutura que nos deixasse bem. Se continuássemos do jeito que estava certamente o casal teria se separado. Tínhamos opção de continuar no Especial mas separados, mas não foi nossa vontade. No primeiro contato com a Viradouro acabou, pelo tratamento, pela forma que conversaram com a gente. Depois que fomos, ao longo do processo eu não senti diferença nenhuma. Viradouro tem uma comunidade forte. Escolhe o samba no sábado e na terça-feira a quadra está lotada. Estrutura do barracão, dos carros e até mesmo a estrutura que nós tínhamos, tem escola do Especial que não tinha. Sabíamos que se tudo desse certo no desfile voltaríamos ao Grupo Especial. Teve gente que zombou, gente da mesma classe que a nossa que pede respeito em rede social mas na hora de respeitar o outro não age da forma que prega. Mas sem dúvidas, antes mesmo de voltar ao Grupo Especial, tínhamos suporte melhor do que de muitos casais que estavam”.

Rute: qual porta-bandeira é sua referência e motivo?

Rute: “Maria Helena foi uma porta-bandeira que eu sempre vi e admirei muito. Pela garra dela. Ela me contou uma situação em que a Imperatriz passava por dificuldade e ela pegava produtos de limpeza da sua casa para lavar os banheiros da quadra; que ela descia com a fantasia dela de kombi. Entrava na avenida com aquela fantasia pesada, com aquele giro maravilhoso. Eu louvo e saúdo Maria Helena”.

Julinho: qual mestre-sala é sua referência e motivo?

Julinho: “Mestre Delegado. Eu tenho várias referências mas acho que não tem como não escolher ele. Tem inúmeros que eu admiro mas eu acho que pela história dele, não teria como ser diferente. Hoje casais tem estrutura, fazem aula de balé, tem todo um suporte e antigamente não tinha nada disso. Óbvio que a dança evoluiu, uns dizem que regrediu, mas lá trás não tinha nada. O cara passava sebo de carneiro na canela, preparação física dele era subir e descer o morro. São situações pitorescas que me encantam tanto quanto a dança e o trabalho que ele desenvolveu. Não tinha vídeo como se tem hoje, não temos muitos arquivos e eu criança me lembro de ter visto. Tem uma situação que vivi, cursava Educação Física na UERJ e teve uma festa folclórica, eu estava lá sentado assistindo e foi a Mangueira do Amanhã. Quando vejo, mestre Delegado. Ali foi a primeira vez que tive um contato com ele. O casal mirim dançando, alguém pediu para que o Delegado dançando com a porta-bandeira e ele dançou. Eu impressionado olhando. De repente me chamam para dançar e acabei indo. Ele fez questão de ficar dançando comigo e a menina. Quando ele faleceu, fui no velório e o filho dele Ésio do Pandeiro me chamou e falou que o mestre Delegado era meu fã e que gostava de mim dançando. Foi situações que me marcaram. Nunca falei isso para ninguém, mas ele me disse que o pai dele era meu fã. Ele gostava do meu trabalho”.

Como vocês avaliam a passagem pela Unidos da Tijuca, onde viveram altos e baixos?

Rute: “Foi importante. Ficamos mais tempo na Vila Isabel mas já estava acontecendo um desgaste e quando fomos convidados para irmos para Tijuca foi como um novo fôlego, saímos da Vila campeões e chegamos na Tijuca com um título. Da mesma forma que o seu Fernando escolheu a gente para defender o pavilhão da escola, ele tem o direito de achar que não estávamos mais aptos para tal função. Fica o carinho, a amizade. Foram altos e baixos, chegamos com uma Tijuca campeã e saímos com a escola quase rebaixada após o acidente no ano de 2017. O desfile foi muito difícil, um carnaval trágico. É difícil falar e lembrar, o último desfile marcou muito mais que o que primeiro com o título. Porém eu acredito que tudo seja aprendizado, não só falando do desfile mas como do processo. De tudo que Rute e Julinho passaram para chegar na avenida. Nosso processo foi muito complicado, fomos sozinhos para muita coisa. O casal hoje que trabalha sozinho só consegue bons resultados por milagre, hoje é preciso uma estrutura e nós não tivemos na Unidos da Tijuca. Graças a Deus tudo que faltou na Tijuca hoje sobra na Viradouro”.

Julinho: “Nossa passagem pela Tijuca foi muito marcante. É uma escola da moda e chegamos num grande momento, campeões na Vila e logo em seguida na própria Tijuca. Chegamos na escola com bastante orgulho em estar lá e as pessoas nos receberam da mesma maneira, com orgulho de nos ter defendendo o pavilhão da escola. Algumas coisas que não tivemos, não vou colocar apenas isso como catalizador dos altos e baixos que vivemos, cada ano é um ano, mas ocorreram algumas coisas que hoje aqui na Viradouro a gente enxerga o quanto é importante para o casal. Isso fez falta para nós, em termos estrutural e de trabalho, como a Rute falou. Hoje o casal até pode fazer um bom trabalho, mas comparando casais que têm suporte, estrutura, auxílio, como qualquer outro quesito, o resultado é superior. O casal precisa ser ouvido. Da Tijuca ficou o aprendizado, o carinho que as pessoas tem conosco e não tenho nada para falar do seu Fernando, que foi super correto com a gente. Fica a relação que construímos independente do trabalho”.

O desfile de 2019 está em que lugar no coração de vocês?

Rute: Eu vou além, tão importante e significativo quanto o de 2019 é o desfile de 2018. Para chegarmos até o vice campeonato, com gostinho de vitória, com a ajuda das nossas notas, tivemos que passar por 2018. Para mim e para o Julinho o ano foi muito importante, pelas dificuldades que a gente tinha vivido anteriormente. Em 2019, só não foi uma consolidação porque faltou o campeonato, a escola não fez carnaval para se manter, fez para ganhar. Com respeito a escola campeã, eu acredito que merecíamos ganhar sim”.

Julinho: Não posso deixar de ressaltar que 2019 foi um ano surpreendente, para nós dois, para escola. Depois do êxito na Série A, o retorno ao Grupo Especial sendo a segunda escola a desfilar no domingo, com chuva. Eu acho que a confiança que tínhamos no nosso trabalho, todo suporte que a escola nos ofereceu, passaram uma confiança muito grande para gente realizar um grande desfile. O ano de 2019 fica marcado, após um ano anterior maravilhoso, as condições em que a escola chegava ao Grupo Especial, com muita força de vontade e trabalho duro, podermos ajudar a escola nesse vice-campeonato”.

Julinho imaginaria que daquela parceria com a Danielle na Tradição ambos alcançassem o status que alcançaram?

Julinho: “É uma pergunta um pouco complicada de responder. Eu não sei onde eu cheguei. Eu estou dançando faz muito tempo, e estou dançando com uma porta-bandeira que, enfim, é uma alma gêmea, é uma irmã. Eu reconheço que no momento que eu dançava com a Daniele, foi um momento de busca de maturidade, tanto minha quanto dela. Eu comecei um pouco antes com a mãe dela, e depois eu dancei um bom tempo com ela. Nós fomos construindo essa maturidade, cada um do seu jeito sob um olhar de uma porta-bandeira que dispensa comentários. E, por ironia do destino, nós nos separamos e acredito que não era o desejo da Vilma, mas aconteceu, como já aconteceu com muitos casais na história do carnaval, e, assim, acredito que Deus quis assim. Deus escreve certo por linhas tortas e quis que ela seguisse um caminho, buscando a maturidade dela como porta-bandeira para fazer o nome dela como porta-bandeira, para não ser a eterna filha da Vilma, e ela está trilhando o caminho dela. Hoje também está no Grupo Especial como uma grande profissional, e eu fui seguir um outro caminho, mas nunca deixando de ter o amparo da Vilma. De vez em quando ela vem, me dá uns toques, fala para mim o que está bom e o que não está. Então assim, não perdi isso, mas ao mesmo tempo, na minha caminhada eu encontrei a minha irmã, a minha alma gêmea, que aí estamos há 13 anos juntos, e quando você fala que eu cheguei, eu não sei onde mas eu acredito que eu cheguei em algum lugar, ao lado de uma grande porta-bandeira e acima de tudo uma irmã, uma amiga, uma parceira para vida toda”.

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