Júnior Escafura, integrante da comissão de carnaval da azul e branca de Oswaldo Cruz e Madureira, possui um vínculo muito especial com a escola. Passando a compor o time em 2019, juntamente com Claudinho Portela e Higor Machado, Escafura também é diretor de harmonia do Império Serrano.

Com passagens em escolas como a Imperatriz Leopoldinense e a Estácio de Sá, o retorno de Escafura para a Portela foi muito bem visto. Portelense desde que era criança, ele acompanhou de perto seu pai sendo presidente da escola. O diretor recebeu a equipe do site CARNAVALESCO e falou sobre o desafio de estar de frente na direção de harmonia, sobre o julgamento do quesito e também sobre as lembranças que têm com a “Majestade do Samba”.

Qual é o maior desafio de um diretor de harmonia?

“O diretor de harmonia tem que ser aquela pessoa que mais possui tranquilidade dentro de uma escola de samba. O desafio de ser um diretor é você trazer a escola, trazer o componente para o seu lado e fazer ele entender que também é um dos diretores de harmonia da escola. Quando os integrantes compram a sua ideia, compram a briga da agremiação, ele vai desempenhar um papel muito importante, pois ajuda a harmonia”.

O que você pensa sobre o julgamento do quesito harmonia? Tem que subdividir como é em samba, ou seja, canto dos componentes e carro de som?

“Nos últimos anos o quesito harmonia tem sido motivo de bastante polêmica sobre o julgamento. Porque os jurados têm despontuado muito as escolas em função do carro de som. E a gente que trabalha diretamente com os componentes percebemos que eles ficam frustrados quando veem o resultado da nota de harmonia e a escola não recebeu um 10. Isso os deixa se sentindo culpados e é muito ruim para o diretor. Eu entendo que se os jurados estão focando muito no carro de som, temos que pensar em subdividir o quesito, ou talvez mais para frente criar o quesito “carro de som”. Quem sabe? É uma experiência que pode ser feita e estudada, pois as escolas trabalham muito. É difícil ver alguma ala passar sem cantar, porque as agremiações melhoraram bastante esse trabalho de harmonia”.

Foto: Emerson Pereira/Divulgação

Fazendo uma comparação você concorda que após os dois meses com o samba escolhido o ensaio de rua é o melhor caminho para realmente treinar toda escola?

“O ensaio de rua por si só tem uma pegada de avenida, pois você está tirando o componente do lugar habitual de ensaio (a quadra). Os integrantes já começam a achar que é desfile, e assim você motiva mais o componente , tendo mais espaço para trabalhar e mais evolução. Porque o canto, eles já estão acostumados a ensaiar, mas um trabalho de evolução na quadra não dá pra fazer muito bem, pois não se tem espaço. No ensaio de rua, acabamos tendo isso como aliado e assim trabalhar bem o componente para que ele tenha uma evolução satisfatória do jeito que a escola precisa. Fazer o andamento certo das alas, a estratégia para o desfile, e na rua conseguimos ter isso de modo melhor”.

Qual é sua maior lembrança do desfile de 1995 ?

“O desfile de 1995 é o carnaval da minha vida, inesquecível. Meu pai era presidente da Portela e a lembrança que eu tenho é de sair da Sapucaí com a escola aclamada como campeã de ponta a ponta. Saímos convictos que seríamos campeões naquele ano, porque era a imprensa, o público que lotava o Sambódromo e os componentes da Portela emocionados. É um carnaval que a gente se considera campeão só por causa do desfile, e por isso temos muito orgulho de 1995”.

O que te faz lembrar seu pai na Portela?

“Do meu pai eu lembro a alegria dele, pois ele era uma pessoa muito alegre. O grande mérito dele na minha opinião, quando assumiu a agremiação ele a uniu. Tinham muitas pessoas que estavam afastadas da Portela, como o Noca, Paulinho da Viola, João Nogueira, Nega Pelé (que se tornou rainha de bateria neste ano) e também vários outros que estavam distantes da escola. Quando ele assume, convida todos eles para voltar e quando estamos unidos somos muito fortes. Isso foi mérito do meu pai e a maior lembrança que tenho da gestão dele, pois quando a Portela está unida e caminhando com todos do mesmo lado é difícil segurar”.

Essa pressão de ser um Escafura e sempre estar cotado para vir como presidente é fácil de lidar ou mexe muito com você?

“Na Portela eu estou desde criança e como o meu pai foi presidente da escola é natural que eu venha sendo apontado como o futuro líder daqui. É motivo de orgulho e felicidade que tenho, pois as pessoas me enxergam como um líder da escola. Fico muito feliz de ter esse carinho, principalmente dos segmentos mais antigos, como a velha guarda e portelenses que me viram crescer. Consigo lidar muito bem com isso, pois não tenho essa pressão e sim uma responsabilidade. Se isso um dia vier a acontecer preciso estar preparado, pois venho há anos caminhando ao lado do meu pai, mesmo sendo novo aprendi muita coisa. Passei por diversos departamentos dentro da escola, fui diretor de quase todos os setores. Venho me preparando para isso, mas quando acontecer tenho que estar preparado para ser um grande presidente, honrar o nome do meu pai, da minha família e dos outros grandes líderes que a Portela teve”.

O que pensa sobre o próximo pleito portelense?

“Penso que a Portela está caminhando para o centenário e que ela precisa estar unida e forte. Todo mundo do mesmo lado, isso que tem que ser a eleição da escola. As pessoas precisam entender que temos que ter um pouco menos de vaidade, e a agremiação tem que ser a principal responsável. A bandeira da Portela, o pavilhão da escola que é sagrado, é mais importante que qualquer pessoa. A eleição tem que ter o clima de harmonia, clima feliz e todo mundo unido, pois estamos caminhando para os 100 anos e seria muito lindo ter todos no mesmo lado, para que a gente faça um carnaval inesquecível”.

O samba de 2022 foi muito criticado, mas vem rendendo muito. Gilsinho e Nilo Sérgio foram fundamentais nessa transformação?

“Aconteceu uma crítica, porque a Portela tem uma torcida muito grande, e tínhamos grandes sambas aqui. Toda a disputa da escola é um pouco polêmica, porque sempre tem grandes sambas e compositores. Dificilmente vai ter um samba que é escolhido por unanimidade. Esse ano, por exemplo, o samba que ganhou era o preferido dos segmentos da escola, do carnavalesco, pois era o que mais atendia a proposta que vamos apresentar na avenida. As pessoas vão ver o carnaval da Portela e vão entender o porque ele foi escolhido. O Nilo, Gilsinho e o trabalho de harmonia muito forte da escola foram fundamentais sim. A comunidade por si só caminha muito bem, eles compram o samba e não tem jeito. O componente vem para a briga, a Portela é assim, pois quando começam a criticar ela se transforma. Quanto mais criticam o samba-enredo, a gente não fica satisfeito em só cantar, e sim em berrar. O ensaio técnico foi a prova disso e surpresa para muita gente, mas para mim não. Pois eu conheço isso aqui e estou desde que nasci, sei muito bem qual é a raiz da escola. Mesmo com a crítica nos unimos e fomos para dentro para fazer um belo carnaval”.

Qual é o tamanho do desafio na Harmonia do Império Serrano?

“Ser diretor de harmonia do Império Serrano é um desafio muito grande, porque é uma escola muito tradicional e que hoje está na Série Ouro. Mas ela não é de lá, é uma das maiores campeãs do carnaval. Então fui pra lá com a responsabilidade e também sabendo que ela está fazendo um investimento grande para disputar o título que dá o acesso ao grupo especial. É um carnaval muito parelho na Série Ouro, as escolas têm muita dificuldade e o Império também. O presidente Sandro Avelar quando assumiu, uniu a escola e isso foi primordial para o bom trabalho que a agremiação está fazendo. Trouxe grandes nomes como Leandro, Patrick e também o Vitinho como mestre que vai ser considerado como um dos grandes mestres de bateria do carnaval carioca, aposto muito nisso. Vejo hoje um Império muito motivado e feliz. É um orgulho estar trabalhando lá e ajudar a escola a fazer um grande carnaval e sei que a responsabilidade é enorme”.

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