Por Victor Amancio

Juntos desde o carnaval de 2016, quando foram o primeiro casal da Vila Isabel, Phelipe Lemos e Dandara Ventapane mudaram o patamar do quesito na União da Ilha do Governador. O casal da Ilha conversa com a reportagem do CARNAVALESCO para a série ‘Entrevistão’.

Hoje, vocês consideram que vocês estão no melhor momento da carreira de vocês ou vocês apontam outro momento?

Dandara: “Eu achei que nesse último desfile a gente estava num nível de maturidade como casal muito grande. Era visível uma maturidade no casal Phelipe e Dandara. Cconsidero que isso seja, além de um grande avanço, uma conquista, mas que não refletiu em notas. Por isso, a gente fica numa busca de encontrar as peças que faltam pra chegar no que realmente seria um bom momento para o casal, que é quando você consegue aliar a sintonia do casal junto com as notas. Eu acho que é isso que a gente está buscando. Agora que a maturidade chegou temos que fazer essa sintonia com o que o julgador vê como necessário para que isso esteja na nossa dança”.

Phelipe: “Concordo muito com a Dandara, até porque para gente avaliar como melhor momento de carreira, temos que ter resultado. Enquanto esse resultado não acontece, eu não posso colocar esse momento como um momento de auge de carreira. Se fôssemos avaliar os anos que já estamos dançando juntos, 2017 pode ser considerado o ano do auge, da maturidade da nossa carreira. Mas como não tivemos resultado esse ano, eu concordo muito com a Dandara. A maturidade que a gente alcançou no carnaval de 2019 foi muito grande”.

Dandara, a sua linhagem é de Vila Isabel, você é neta de Martinho da Vila. Foi difícil sair da Vila? o que você sentiu quando saiu?

Dandara: “Por um lado foi difícil, com certeza, porque é lidar com o que você está construindo como carreira e ao mesmo tempo lidar com essa questão familiar. Eu sempre desfilei por muitas escolas, nunca tive essa coisa de só desfilar na Vila Isabel. Não foi difícil não desfilar na Vila porque já desfilava em outras escolas, mas é difícil você entender o seu papel dentro de uma família tradicional da Vila Isabel e entender o seu papel no samba que é maior do que a escola em si. Por isso acho que foi bom para eu conseguir pensar sobre isso. Eu consegui entender a minha verdade e qual é a minha essência como uma pessoa do samba que é ser uma pessoa que trabalha com o samba, não só como porta-bandeira. É saber a sua origem, saber a sua raiz e saber o que você defende. Eu sei a minha origem e a minha raiz, mas defendo a arte, o bailado, o bom profissional, boas condições de trabalho. Foi difícil, mas foi muito bom, eu acho que foi um amadurecimento”.

Phelipe, você também é muito querido na escola. Foi difícil sair de lá?

Phelipe: “Não tanto quanto a Dandara. Na verdade, a gente continua sendo muito querido  lá na Vila. Dandara tem uma história de família lá… Eu minha história lá, eu comecei profissionalmente dançando na Vila Isabel, quando eu ganhei o concurso de segundo mestre-sala. Para mim foi um pouco mais fácil, porque eu já saí de lá para Imperatriz e retornei a casa. Quando recebemos a proposta da União da Ilha o sentimento fala muito alto, mas o profissional precisa caminhar. Você pode amar a sua escola de coração, mas se o seu coração não pagam as contas eu morro de fome. Eu pensei nisso e, o carinho que eu tenho pela Vila Isabel vai durar para sempre e vou ser eternamente grato a escola e as pessoas que fazem parte da minha jornada dentro da Vila. Os diretores que eu conheci, os presidentes… mas não foi uma coisa muito difícil porque eu já tinha um pouco dessa maturidade de mudança de escolas”.

E como que o projeto da Ilha sensibilizou vocês para ir para lá?

Dandara: “Eu acho que me sensibilizou muito as condições de trabalho. A gente veio para ter um pouco mais de autonomia sobre as nossas decisões até a gente chegar no produto final que é o desfile, a avenida. Isso para mim contou muito, além de manter uma parceria, porque eu era uma porta bandeira nova e já estava na segunda parceria eu apostei na minha dupla, eu acho que a parceria deu certo. Foi uma aposta vir para União da Ilha para criar uma identidade de casal”.

Phelipe: “O que me seduziu de verdade foi o fato da Ilha ser uma escola irreverente, foi o Ito, o Ciça que no ano de 2016 fizeram uma apresentação excepcional com um samba que não era tão excepcional assim, que era o samba das Olimpíadas. Eu assistindo aquilo, fiquei muito tentado. E após o desfile da Vila Isabel, o presidente demonstrou interesse em trazer a gente. Logo depois quando a gente conversou, acho que a Dandara acabou de falar de autonomia, a gente pode decidir sobre muitas coisas que eu acho que todos os casais deveriam decidir. É uma questão de coreógrafo, equipe, fantasia, quem faz, quem desenha… Eu acho que todo casal deve se interferir nisso porque na hora é o nosso nome que está ali. O nome do carnavalesco está impresso na escola inteira, enquanto o nome do casal só tá impresso naquele momento de apresentação. A Ilha deixa a gente muito à vontade com tudo isso tudo e, no primeiro momento que eles me chamaram para conversar, nos deram carta branca. O que mais tentou a gente foi a liberdade de escolha”.

Phelipe, o que você sentiu quando saiu da Imperatriz? O que que mudou na sua carreira depois da saída?

Phelipe: “Mudou muita coisa, primeiro que no momento que eu sai da Imperatriz eu saí muito chateado pelas coisas que haviam acontecido depois de um ano maravilhoso que foi 2014. O ano de 2015 poderia ser apagado da memória, eu tento apagar bastante. Eu saí triste porque é um lugar que, assim como na Vila e como aqui, as pessoas gostam muito de mim e eu gostava muito das pessoas e ainda gosto. Hoje tenho liberdade e é a mesma que eu tinha na época, mas eu fiquei com medo de ficar fora do carnaval, mas depois fiquei muito feliz de ir para Vila Isabel e de ter encontrado uma parceira como a Dandara”.

Dandara, quem você tem como referência como porta bandeira e por qual motivo? 

Dandara: “Essa pergunta é sempre uma pergunta um pouco difícil pra mim, eu acho que como referência, de uma forma geral, eu tenho a Rita Freitas porque ela que me ajudou desde o início quando passei a ser porta-bandeira. Ela é uma pessoa da minha família, uma pessoa que eu conheço toda a história e reverencio. Participou de todo o processo comigo, ano a ano na equipe, não está mais esse ano, mas no crescimento e evolução da Dandara que se construiu até hoje ela estava do lado. Com certeza, ela é a minha maior referência. E também a Lucinha Nobre pois ela me abraçou quando eu decidi virar porta-bandeira e para mim também é uma mesma linha de dança que tem muito a ver com o que eu procuro buscar na minha dança”.

Phelipe, quem você tem como referência e por qual motivo?

Phelipe: “Eu desde criança, sempre fui mestre sala, eu sempre sonhei em ser mestre sala e batalhei para estar no lugar que eu estou hoje e ainda quero mais, eu. Eu me preparo muito pra alcançar o nível de excelência de um grande casal, de dois grandes amigos de profissão, que é a Selminha e o Claudinho que estão num patamar muito acima de outros casais. Sempre tive como inspiração Chiquinho e quando criança eu o via na apuração o Chiquinho, Maria Helena, Claudinho e Selminha ganhando 10 e eu queria ser eles. Tenho como inspiração de mestre Chiquinho na dança, tem o Julinho que é pra mim é o melhor mestre-sala do carnaval e tem como inspiração de história e de nível de excelência o Claudinho”.

O que vocês acrescentariam no manual do julgador se vocês pudessem?

Dandara: “Eu não sei se eu acrescentaria algo, mas eu definiria um pouco mais o que é imprescindível e o que não se deve fazer. Eu acho que é muito aberto, muito amplo e as vezes um casal ou outro é penalizado por alguma coisa que não deveria ser feita, mas no outro ano a mesma coisa é feita e não é penalizada. Acho que eu deixaria um pouco mais claro exatamente o que é imprescindível e o que não pode ocorrer. E mais ou menos também no meu ver assim um pouco padronizada do tipo, às vezes uma bandeira enrolada pode perder um décimo para um e pode perder 0.3 décimos para outro. Algo mais técnico, mas acho que deveria ser uma coisa muita conversada. Ter muitas rodas de conversa para justamente definir quais seriam esses critérios, mas eu acho que deveria ter para definir mais claro para os casais esses critérios”.

Phelipe: “Acho que é um sonho, você tentar refazer e atualizar o manual dos julgadores, até porque todo mundo quando ganha 10 bate palma para ao manual, para o julgador, e quando ganha 9,9, daquele mesmo julgador que te deu 10, é o pior julgador do mundo. Eu acho que a gente deveria, entre a gente, entre os casais mestre-sala e porta-bandeira, ter a consciência do que é bom e do que não é, e levarmos isso até a Liesa e falar. Esse critério de uma bandeira enrolar ser menos um décimo para a escola que a bandeira pesa e menos três décimos para a uma escola que não tem tanta tradição, ou que tem tanta tradição, mas não é tão querida diante do público. Acho que a gente precisa ter humildade para sentar, conversar e reformular esse manual baseado na tradição. Eu acho que o manual existe porque é uma tradição. A dança entre o mestre-sala e a porta-bandeira é tradicional e o manual existe para que aquela tradição não se perca, mas as coisas evoluem. Ao longo do tempo, o mundo muda e o tempo muda e também acho que o manual precisa evoluir sem que perca a tradição”.

Vocês mudaram patamar de casal da União da Ilha. Vocês acham que foram mal julgados em algum ano?

Phelipe: “É como eu falei, a questão de ser mal julgado ou não, é uma questão do público, do jurado, é muito subjetivo o julgamento como a Dandara falou. O jurado pode gostar da tua dança no ano. No outro ano, você faz a mesma coisa, ele não vai gostar. Não é essa a questão de ser mal julgado, eu acho que o mal julgamento vem quando a justificativa não corresponde com aquilo que realmente aconteceu. Se você perguntar para a gente se achamos que somos mal julgados a resposta é sim. Mal julgados, porém, por conta da justificativa, porque se a justificativa viesse dizendo exatamente o que foi feito, o que não foi feito, o que foi erro, eu acho que aí não seria mal julgado. Eu acho que falta clareza na justificativa. O jurado tem que julgar realmente o que ele está vendo, não o que ele achou que viu”.

Dandara: “Eu acho que de uma forma geral, é isso. Tem um pouco do que o Phelipe falou no que eu penso. Por exemplo, a gente falou sobre a maturidade desse ano. Eu acho que a gente entrou numa maturidade muito boa de dança, mas por exemplo, a gente veio com uma fantasia mais de personagem, mais caracterizada e isso já é um pouco mais difícil. Então dependendo da escola onde você vem, trazendo uma coisa um pouco mais fora do tradicional, é mais difícil, então eu acho que a gente encontrou essa dificuldade nesse ano. No meu ver, a coreografia, a dança, estavam em um nível muito bom, mas isso não se refletiu para o que chamou a atenção do julgador, ele preferiu se prender a outras coisas que não atrapalharam, porque, na minha opinião, o problema da fantasia ao ser julgada pelo casal é quando ela atrapalha e não o gosto, se é bom ou ruim, se a pessoa gostou ou não, mas sim se atrapalhou ou não, se conseguiu evoluir com aquela fantasia”.

E sobre fantasia, qual foi a melhor que vocês usaram?

Dandara: “A melhor que eu usei foi em 2019, porque ela estava completamente ajustada como eu precisava para dançar e evoluir e eu consegui acertar todos os detalhes que eu venho construindo e percebendo para essa nova Dandara que é uma nova porta-bandeira. Ela também ainda está descobrindo tudo que ela precisa para estar bem na Avenida. Então, acredito que em 2019 eu alcancei esse lugar, me senti segura, não me senti pesada, me senti bonita e isso tudo dentro da fantasia de 2019”.

Phelipe: “Com certeza em 2014. A fantasia mais bonita e mais confortável que melhor permitiu os meus movimentos. Ela era a mais simples e se tornou a mais marcante, não só para mim para muitas pessoas do carnaval. Então eu acho que 2014 foi a minha melhor fantasia até hoje. A de 2019 também foi ótima, como a Dandara falou, ficamos com um grau de experiência maior a gente vai identificando”.

Sobre a fantasia do próximo ano, vocês já conversaram com a Laíla, com o Fran, com o Cahê?

Dandara: “Eu acho que vem uma coisa diferente de todas que eu já vesti e acho isso muito bom. Os carnavalescos, a comissão, tem pensado bastante nessa questão e eu acho que vem uma fantasia muito Dandara e Phelipe. Eu acho que foi uma fantasia pensada para essas pessoas. Eu diria, nas pessoas mesmo, sabe? Então elas refletem um pouco no que a gente é. Acho que é isso que tem que esperar para o desfile”.

Phelipe: “É isso mesmo. Respondendo a sua pergunta anterior, qual foi a sua melhor fantasia que você vestiu até agora, a fantasia de 2020 pode ser considerada a melhor que a gente vai vestir”.

E agora a gente tem três paradas previstas no regulamento. Vocês são favoráveis a isso ou não?

Dandara: “Eu acho que tudo é uma fase de testes. De cara eu não crucifico assim, eu penso que três paradas, e como elas estão distribuídas, eu gostei. Eu acho que elas estão bem distribuídas nas paradas e com o tempo. Pensando na gente, como um todo, o tempo, a distância de uma para a outra. Tem uma possibilidade para ser melhor para o desempenho dos casais de uma forma geral”.

Phelipe: “Eu sou totalmente favorável. Quando tivemos a cabine dupla em 2017 foi aonde nós conseguimos as maiores notas até hoje, dançando juntos, eu sou super favorável a essas três paradas porque proporciona a gente a brincar o carnaval, e não ficar preso a quatro paradas, nós vamos fazer o que tiver que fazer no momento de jurado, tem ali, duas notas por cada cabine. Agora, seria legal se eles mantivessem um critério decente para julgar. Não pode ter um cara que na mesma cabine me dá 9,7 e o outro me dá 10. Eu acho que deveria ter um critério para esse julgamento, mas eu sou super a favor dessas cabines, até porque o povo fica mais livre para dançar, para brincar o carnaval. Você tem três pontinhos só, um percurso grande que vai proporcionar o carnaval a voltar a ser folia, não uma marcha”.

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