A X-9 Paulistana prepara uma grande homenagem para um dos maiores nomes do samba nacional. O poeta, músico, compositor e cantor, Arlindo Cruz, terá sua vida contada através de um enredo não linear, focado nas principais características e maiores paixões do artista, tanto no gênero quanto na vida pessoal. A reportagem do site CARNAVALESCO conversou com o responsável pelo desenvolvimento do tema: “O Show Tem Que Continuar! Meu Lugar é Cercado de Luta e Suor, Esperança Num Mundo Melhor”. Amarildo de Melo, carnavalesco da agremiação da Zona Norte de São Paulo, não esconde o choro quando comenta a relação da escola com a família do Arlindo Cruz.

“Excepcional. Dede o começo do enredo tivemos uma reunião pra conversar, a família tem uma participação contínua na escola. O Arlindinho já fez três shows na quadra, eles estão acompanhando tudo. Sempre achei que esse enredo fosse a cara do samba, simplório, não uma Hollywood, o samba tem uma estética simples. Eu fico muito emocionado quando a Babi chega no barracão e diz que as alegorias tem a simplicidade e a grandiosidade de Arlindo Cruz, essa era a intenção”, diz com voz embargada.

O carnavalesco revela que a ideia do enredo era presente desde quando estava em outra agremiação, e por causa de fatores em comum, resolveu contar a história do poeta.

“Foi uma repetição de coincidências enlouquecedoras. Há quatro anos eu fiz um carnaval na Águia de Ouro sobre o Caymmi e ficamos em terceiro lugar. Quando sai do desfile das campeãs surgiu a ideia de fazer um enredo sobre Arlindo Cruz. Estava voltando pra casa, quando sento no banco do avião e ao meu lado senta o Arlindo Cruz. Fiquei meio emocionado, falei sobre a vontade e ele me passou o contato do escritório dele. Cinco dias depois da última apuração, fizemos uma reunião com o diretor de carnaval e ele falou sobre a vontade de fazer um enredo sobre Arlindo Cruz. Naquele momento ficou claro que era hora, foi um jogo de coincidência”.

A história do músico Arlindo Cruz é extensa, são mais de 500 músicas gravadas, diversas indicações para prêmios e muitos conquistados. Compôs grandes sambas-enredo em diferentes escolas, sendo o Império Serrano como a principal detentora de obras assinadas por ele. Amarildo revela que diante de toda história, o que mais impressionou foi a forma em que o Arlindo enxergava questões sociais e as denunciavas em suas canções.

“Quando vemos uma pessoa negra cantando samba ou pagode, passa a impressão que a pessoa tem talento, mas não tem conhecimento, não tem formação e nem informação, é um resumo do que a sociedade brasileira faz. Pesquisando Arlindo Cruz eu vi que ele é uma pessoa que com 16 anos tava na escola de aeronáutica, fez três cursos superiores, trabalhou dez anos na Caixa Econômica e fala quatro idiomas fluentemente. O Arlindo é muito inteligente, e até falo que fiquei surpreso, porque a gente olha o sambista com o olhar preconceituoso. Outra coisa que eu percebi que toda obra do Arlindo tem algo político, sem dizer partido. Ele é muito político em sua natureza, um visionário descritivo, linguagem jornalística poética”.

Presença de Arlindo Cruz depende de respostas médicas

Arlindo Cruz sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico no lado esquerdo do cérebro, ficando internado por mais de um ano. Em casa, o artista responde a estímulos motores e emocionais, e recentemente seu filho postou um vídeo em que ele tenta se alimentar sozinho. Por essa razão, muitos apreciadores e fãs do sambista não tem a certeza de que ele esteja no desfile da X-9 Paulistana. Amarildo demonstra desejo e garante que resposta só depende dos médicos.

“É uma vontade de toda família que ele esteja presente. A Babi e o Arlindinho falam que a festa foi feita pra ele, e não teria razão dessa festa acontecer sem a presença dele. Estamos fazendo todos os esforços pra que esteja, mas não sabemos de questões médicas, mas a verdade é que o desejo da família é esse. Seria o maior acontecimento do Anhembi a volta do Arlindo para o público”.

Sobre o ponto emocionante do carnaval da entidade, Amarildo de Melo revela: “A humanidade está muito ligada ao objeto. O ponto alto da X-9 é exatamente o conteúdo da história do Arlindo transformada em samba-enredo. É uma obra com a cara do povo brasileiro”.

Conheça o desfile

1° SETOR – Casa de Ogum recebe o filho de Xangô

“A escola X-9 Paulistana é uma instituição consagrada a Ogum. O enredo não tem historiografia a seguir, é uma análise do homem, artista e poeta Arlindo Cruz diante da sociedade brasileira. A gente começa falando da fé e crença de Arlindo com origens nas matrizes africanas. A casa de Ogum recebe o filho de Xangô”.

2° SETOR – Vida Musical

“Segunda parte falaremos da sua vida musical. Muitas pessoas não sabem mas Arlindo Cruz é formada numa escola aeronáutica do interior de Minas Gerais, com 12 anos começou a tocar cavaquinho tendo como padrinho o Candeia, e na época já estudava Cartola, Pixiguinha e outros grandes nomes. Vai ser uma parte que foca no começo de sua carreira. Ainda muito jovem, o pai de Arlindo se envolve num problema policial e é preso, e ai ele compõe a primeira melodia ‘malandragem’, que é referente a história de vida do pai dele. Ele vai ao Fundo de Quintal, conhece o banjo através do Almir Guineto, mas quem popularizou e inseriu no sambas de raiz foi o Arlindo. Ele encurtou o braço do instrumento pra se adequar ao estilo da roda de samba. De imediato todo mundo se apaixona por ele no Cacique de Ramos, ele começa a participar do Fundo de Quintal, a Beth Carvalho começa a gravar sambas dele e aí que começa a ter essa grandiosidade como compositor”.

3° SETOR – Escola do Coração

“Arlindo Cruz foi portelense e hoje é Império Serrano. Até pelo Candeia ele começou sendo portelense, visitou a quadra do Império e deixou de ser Portela. Falo que uma Águia pousou em seu quintal, e aí ele passa a ser imperiano. Arlindo acredita que um sambista de verdade tem que gostar de samba-enredo e ele começa a fazer sambas-enredo. Depois vai pra uma parte que fala da escola do coração, até brinquei nessa parte sobre a escola dele porque é um carro sobre o Império Serrano que traz uma coroa com sete metros de altura, e fala sobre os vários sambas que ganhou, mas nesse carro paira sobre ele uma Águia da Portela, escola na qual ele teve o primeiro contato”.

4° SETOR – Favela

“A gente fala um pouco da antropologia, da sociologia e da política. O Arlindo tem um discurso político correto do que é o Brasil, é uma descrição do que é comunidade, do que é favela, do que é periferia, valorizando essa gente. O Arlindo Cruz é um emponderador de periferias, porque há 20 anos as pessoas que moravam na favela sentiam vergonha, e quando ia pedir emprego davam o endereço do amigo que morava no asfalto. Quando canta “Sou Favela’, ‘Meu nome é Favela’, quando ele descreve Madureira como se fosse uma Nova Iorque, ele encoraja a gente humilde a dizer ‘meu nome é favela’, que mesmo sendo de comunidade pode ser um grande artista, um jogador de futebol. Tem muitas coisas boas na comunidade, então ele cumpre um papel de ser sociólogo do povo. Nesse momento eu mostro esse lado, polícia e ladrão, falo do amor pela favela, da justiça, do desequilíbrio social. Fechando esse setor eu tenho o carro da favela, uma grande cenografia, e pessoas que representam moradores e do nada se transformam em artistas”.

5° SETOR – O Show Tem Que Continuar

“As obras do Arlindo falam de amor, seja uma pagode, samba de roda ou com característica política, tem sempre a palavra ‘amor’. Nessa parte do enredo a gente fala dessa questão, das músicas dele embalar o bem e acabando falamos que ‘O Show Tem Que Continuar’, nós iremos até Paris. Independente de quem esteja no nosso governo, na política, independente das críticas, o show tem que continuar. Essa música representa muito o Arlindo, porque ele reverteu uma situação totalmente adversa, saiu de um grande problema de saúde e nós iremos até Olímpia, junto com a X-9, porque o show do Arlindo tem que continuar. Ele é mais do que é uma pessoa, Arlindo é uma entidade”.

Ficha Técnica
5 alegorias
1 tripé
2.700 componentes
220 ritmistas
80 baianas

História do Amarildo de Mello

“Eu comecei no grupo de base do Rio de Janeiro. Passei por Acadêmicos da Ilha, Dendê, Caprichosos do Pilares, Beija-Flor, Portela, Cubango, eu tenho uma trajetória dos grupos de base até chegar no Especial. Estou em São Paulo há dez anos já, fiz carnaval pela Águia de Ouro, Peruche e agora na X-9 Paulistana. No total tenho 68 enredos desenvolvidos em 30 anos de carnaval”.

Comentários