Por Guilherme Ayupp, Eduardo Fonseca e Diogo Sampaio. Fotos: Allan Duffes

O Maracanã do Samba, alcunha da nova quadra da Mocidade Independente de Padre Miguel, mais uma vez fez jus ao apelido. O gigante de concreto localizado no coração da Avenida Brasil viveu uma daquelas noites memoráveis para conhecer o samba-enredo da Estrela Guia para o Carnaval 2020. Favorito desde as audições iniciais e depois com as eliminatórias na quadra, o samba composto pela cantora Sandra de Sá e os poetas Igor Vianna, Dr. Márcio, Solano Santos, Renan Diniz, Jefferson Oliveira, Professor Laranjo e Telmo Augusto foi aclamado campeão, nos braços do povo. A Mocidade apresenta o enredo ‘Elza Deusa Soares’ no Carnaval 2020. A temática será desenvolvida pelo carnavalesco Jack Vasconcelos. A verde e branca será a quinta a desfilar na segunda-feira de carnaval.

Duas ausências foram sentidas na grande final, embora tenha sido uma grande noite. A homenageada, Elza Soares, não pode comparecer por estar realizando um show em São Paulo. E a cantora Sandra de Sá, compositora do samba campeão, também estava se apresentando em Minas Gerais e não conseguiu chegar para celebrar sua histórica vitória.

Fazer história na Mocidade não é uma tarefa qualquer. Além do fato de o samba ter sido campeão enfrentando na grande final poderosos caciques da composição na Estrela Guia de Padre Miguel, outro fato histórico pode ser registrado na memorável final. O samba vencedor não tem um único compositor que já tenha sido campeão na verde e branca.

Igor Viana possui linhagem independente. Ele é filho de Nei Viana, um dos mais lendários intérpretes da Mocidade. De reconhecido talento, é o atual cantor da Unidos de Bangu. Igor destacou para o site CARNAVALESCO os aspectos que na sua visão fizeram com que o samba se sagrasse vencedor.

“Eu e meus parceiros buscamos a vitória, era um sonho nosso. O meu trecho predileto da obra é ‘Se acaso você chegar, com a mensagem do bem, o mundo vai despertar, deusa da vila vintém. És a estrela…meu povo esperou tanto pra revê-la’. É um trecho de muita representatividade. A Mocidade atendeu o chamado do seu povo, com a sua grande homenageada em vida, apta a cantar na avenida a sua vida, a plenos pulmões”, declarou.

Uma autêntica avalanche em forma de samba-enredo. Um refrão arrebatador, com uma melodia que se encaixa à perfeição para a bateria da Mocidade, foi cantado a plenos pulmões por toda a quadra durante os cerca de 25 minutos que se apresentou. Segmentos, torcedores, camarotes. Todos em uníssono disseram em letras garrafais o samba que gostariam.

Elza é um ato político ambulante

Ao conversar com o site CARNAVALESCO, Jack Vasconcelos comentou a força do enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel para o Carnaval 2020.

“Elza é um ato político ambulante. Eu me senti muito a vontade com o tema. Acho que até um pouco do meu nome ter sido lembrado para esse enredo é por conta do viés político. Eu me identifico muito com discurso e com o trabalho que ela tem. E pesquisar sobre a vida da Elza, ouvir as músicas dela, querer entender e entrar na cabeça dela… Por que ela escolheu tais músicas para cantar? Eu não posso adiantar como será, mas posso garantir que não é uma biografia simples, de retrato por exemplo”.

O carnavalesco da Mocidade revelou a ótima recepção por parte dos independentes.

“Desde o momento que eu cheguei na escola entendi que o meu papel esse ano era de ser um instrumento. Eu não enxergo o enredo como meu, por exemplo. Quando eu cheguei, o tema já estava escolhido. E eu já sabia o quanto as pessoas estavam esperando por ele. Sei o quanto cada independente sente um pouco dono do enredo também, porque todo mundo fala muito dele, há muitos anos. Fui escolhido para ser a ferramenta para que tudo isso fosse possível, para que isso tudo fosse realizado. Para mim, é um ano atípico nesse sentido: Não foi um enredo que eu propus, que originalmente eu queria fazer, mas eu me sinto escolhido para ser o braço, para ser a mão, que vai edificar isso tudo. E para mim é uma honra”.

Escola prepara desfile com 3 mil a 3500 componentes

Em entrevista ao CARNAVALESCO, o diretor Marquinho Marino falou sobre a previsão de início dos ensaios de rua da escola de Padre Miguel.

“Vamos começar em dezembro. Serão dois domingos antes do Natal. Haverá uma parada para as festas de final de ano e partir de janeiro será todos os domingos até o carnaval. Total de 12 ensaios até o carnaval. A Mocidade levará para Avenida cinco carros sendo um acoplado. E tripés acoplados ao abre-alas. Teremos entre 3000 e 3500 de componentes no desfile”, revela.

Marino garantiu que o planejamento do desfile não será mudado com a redução em cinco minutos feita pela Liesa. O diretor também comentou como está o trabalho com o carnavalesco Jack Vasconcelos.

“Partimos do pressuposto que qualquer samba escolhido hoje tem entre 2 minutos e 2:20 e quando você parar o casal e a comissão na cabine perde-se perto de 5 minutos. Como teremos uma cabine a menos, automaticamente esses 5 minutos serão substituídos. O trabalho com o Jack Trabalho está sendo muito prazeroso. Estamos muito satisfeitos. Não só com o trabalho estético de fantasia e alegoria, como com o projeto e uma equipe muito forte na elaboração dos protótipos das fantasias”.

Perguntado sobre o impacto na escola com a saída de Rodrigo Pacheco, Marino preferiu não comentar: “Isso é um assunto interno e da presidência. Prefiro não opinar”, disse.

O vice administrativo da Mocidade, Luiz Claudio, conversou com o site CARNAVALESCO e abordou a crise no carnaval e revelou o que o independente pode esperar do desfile de 2020.

“A crise financeira é um fato que persegue todas as escolas do Rio. Seja do grupo Especial ou da Série A. Nos últimos meses estamos tentando entender na Mocidade o que vamos arrecadar para 2020 e dentro deste valor encaixar o nosso carnaval e o nosso desfile dentro dessa receita que vai entrar. Eu posso garantir que a escola vai entrar na avenida em perfeitas condições. Desde que voltamos em 2014, vocês tem acompanhado a excelência dos desfiles e a Mocidade vem numa curva muito boa. Podem esperar mais um carnaval de excelência e o tão sonhado título”.

Bateria ensaia naipes separadamente

A bateria ‘Não Existe Mais Quente’, a mais famosa do carnaval, não obteve a nota máxima no julgamento de 2019. Mesmo assim, o mestre Dudu, de linhagem independente, seguirá o mesmo conceito de trabalho deste ano, com o treinamento de naipes em separado, como conta o mestre ao site CARNAVALESCO.

“A bateria não gabaritou mas o trabalho foi feito. Conhecemos o ensaio com muita antecedência, fizemos um trabalho guiado. Isso me deu um resultado positivo, pois pude limpar bossas. O resultado foi muito satisfatório. Vamos manter o mesmo trabalho, com 264 ritmistas”.

Dudu lembra a história de Elza Soares com a bateria, afinal foi na sua voz que a ‘Não Existe Mais Quente’ ficou eternizada. O mestre faz mistério com relação à fantasia da bateria.

“Trabalhar em casa é mais fácil e fico feliz pelo momento. O enredo também remete à bateria. Mestre André trabalhou junto com a Elza. O Jack já me passou as coordenadas, é segredo ainda. Para mim é um momento muito importante. A escola escolheu o melhor hino para o desfile”.

O show é sempre cobrado em relação à bateria da Mocidade. Dudu comenta a novidade no regulamento da Liesa, onde quem não parar na altura do módulo não poderá ser punido. Entretanto, ele destaca que a escolha do andamento é o segredo para um bom desempenho na avenida.

“Eu sou favorável, embora eu não goste de comentar regulamento. Desfilei em 2013 com sete bossas. Foi o ano que mais ousei. Um bom desempenho não significa paradinhas. Eu sou favorável a um andamento bem feito, adequado ao desfile, ao samba. Eu acho que é por aí”.

‘Elza Soares é um ícone do país’, afirma Wander Pires

A voz marcante de Wander Pires pode novamente se misturar com a de Elza Soares na faixa do CD do Grupo Especial. Ela que já gravou um alusivo no álbum de 2019, desta vez como enredo da Mocidade pode pintar novamente no disco. Wander espera com ansiedade a repetição do momento.

“A Elza é um ícone do país, não só da Mocidade. É mais uma grandiosa honra. Um momento muito feliz meu na Mocidade. É possível que ela participe da faixa. Ano passado ela já fez. Esse ano eu estou aguardando esse momento. Na avenida sei que é mais complicado, mas o importante é ela estar conosco no desfile”

O intérprete se encaminha para o seu quarto desfile consecutivo pela Mocidade, o que já é a segunda sequência mais longa desde seu surgimento, quando cantou na escola entre 1994 e 1999. Wander afirma que o momento de cantar o samba campeão é sempre de muita expectativa.

“É uma grande expectativa, a gente como sempre sente algo diferente, depois de um longo processo, a comunidade fica esperando a gente cantar o samba campeão. Eu mesmo fico sem saber, esperando o que vai acontecer. Não falta poesia no nosso samba. A Mocidade tem histórico de sambas melodiosos, e esse não é diferente”.

Casal passa por saia justa e bateria dá show de excelência

A final da Mocidade foi uma ode de respeito ao público e organização de um evento. Embora por força maior a grande homenageada não pudesse comparecer por agenda profissional, quem esteve no Maracanã do Samba viu uma aula de como se apresenta um show. A começar pela bateria Não Existe Mais Quente, com uma autêntica exibição de gala na quadra, levando as pessoas ao autêntico delírio. O naipe de chocalhos ostentava letras em neon em sua vestimenta. Nada mais com a cara da Mocidade. Em seguida, o intérprete Wander Pires desfilou sua reconhecida categoria relembrando os memoráveis sambas da agremiação.

Um saia justa ocorreu na apresentação do casal Diogo Jesus e Bruna Santos. Na hora que a imagem do mestre-sala apareceu no telão da quadra, foi possível ouvir vaias. A diretoria da escola tentou abafar pedindo aplausos, mas foi em vão. O dançarino foi contratado para o lugar do antigo mestre-sala, Marcinho, que junto com Cris Caldas foram demitidos da Mocidade, causando grande rejeição na comunidade, apesar de ambos serem muito talentosos.

A dupla conversou com a equipe do site CARNAVALESCO. Diogo ressaltou que agora vive uma nova fase. “Sou maduro. Minha saída da Mocidade não foi muito conforme a gente espera, pela porta da frente. Mas acredito que a Mocidade superou, o Diogo Jesus superou, e agora basta a comunidade superar e abraçar a gente”.

Bruna ainda parece estar sonhando em ter alcançado o posto de primeira porta-bandeira da Mocidade. “É gratificante demais. É incrível eu estar podendo defender o primeiro pavilhão da minha escola, de onde eu comecei. Essa apresentação hoje foi uma emoção enorme. Sentir o calor da comunidade me abraçando”.

Como foram as apresentações dos outros finalistas:

Zé Glória: Último samba a subir ao palco, não se intimidou com a avalanche deixada pela obra de Sandra de Sá e seus parceiros. Conduzido mais uma vez de maneira brilhante por Tinga, foi o samba que mais se aproximou de ameaçar a vitória de Sandra de Sá.

Jefinho Rodrigues: Uma apresentação que ficou aquém para uma parceria que buscava defender o título. Deixou a nítida sensação de entrega dos pontos, uma vez que o favoritismo de um samba era latente. Destaque para a dupla Diego Nicolau e Evandro Malandro na condução do samba.

Paulo César Feital: Parceria que conseguiu mudar os rumos da Mocidade no quesito desde 2017, desta vez errou a mão. A obra é era excessivamente grande, tornando a apresentação cansativa e arrastada. Foi o samba mais irregular da final.

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