Nome do enredo: Tata-Londirá – o canto do caboclo no quilombo de Caxias.
Nomes dos carnavalescos: Gabriel Haddad e Leonardo Bora.

PERTENCIMENTO CAXIENSE: O CANTO DO CABOCLO NO QUILOMBO DE CAXIAS É O ANÚNCIO DO REENCONTRO DA GRANDE RIO COM A PRÓPRIA IDENTIDADE

Para o carnaval 2020, a tricolor de Duque de Caxias olha para si mesma, a fim de entender o porquê de não ter botado ainda a mão na taça de campeã do Carnaval. Para tanto, evoca o canto de um dos seus filhos mais ilustres: Joãozinho da Gomeia – sim, aquele mesmo já
citado no refrão do meio de 2008, cujo enredo era Duque de Caxias, o caminho do progresso, o retrato do Brasil. Agora, no entanto, o líder da falange caxiense será a alma de uma narrativa que tende a tocar em algumas feridas que custam a serem cicatrizadas no corpo do Brasil caboclo. Joãozinho da Gomeia, ora, era homossexual, negro, nordestino e candomblecista. Falar de João Alves de Torres Filhos, o Rei do Candomblé, é dizer, portanto, um basta à homofobia, ao racismo, à xenofobia e, sobretudo, à intolerância religiosa.

Debruçado ao texto-mestre produzido por Gabriel Haddad, Leonardo Bora e Vinicius Natal,
percebe-se que a vida de Tata Londirá, alcunha dada a ele pela tradição do Candomblé de
Angola, será dividida nos seguintes momentos: evocação dos caboclos, principalmente o
Pedra Preta, o qual se manifestava em João; a infância em Inhambupe, no interior da Bahia; a ida a Salvador, para ser iniciado pelo Pai Jubiabá; a “navegação” em direção ao Rio de Janeiro e, posteriormente, a fundação do terreiro da Nova Gomeia em Caxias; o João artista-influente, seja bailarino, seja artesão, seja folião; e, por fim, o Rei do Candomblé, a parte pelo todo caxiense, pedindo respeito aos cultos afro-ameríndio brasileiros.

Incorporada, além de evocar o caboclo Pedra Preta de João, a Grande Rio clama, ainda, a
outras divindades que ao lado do Rei do Candomblé estavam, como a Odé e a Oyá, orìşás do Candomblé de Ketu, do tronco yorubá; a Mutalambô e a Kaiango, minkisi – palavra de
origem kimbundu que significa o plural de nkisi, divindade – do Candomblé de Angola, do
tronco banto. Tanto os orìşás quanto os minkisi, por sinal, co-ocorrem no texto-mestre da
Escola de Caxias; de modo, no entanto, há não haver uma análise distintiva e precisa para
entender as idiossincrasias entre esses grupos étnico-culturais. A menção a Odé e a
Mutalambô, a princípio, estão simultaneamente presentes no setor que retrata a chegada de João ao Rio de Janeiro e a fundação da Nova Gomeia em Caxias, após partir de Salvador por ser “perseguido pelas suas crenças” vem à mente, dessa forma, o ofá, arco e flecha do santo, para vencer os algozes que queriam o silenciar. A menção a Oyá e a Kaiango, por sua vez, estão presentes no setor em que a Escola reclama o respeito; vem à mente, dessa forma, o afefé, os ventos das santas, que varrem a intolerância e espalham a mensagem que ecoa do quilombo caxiense; “explodem num grito de pertencimento”. Não se pode esquecer, ainda, que as confluências entre orìşá, caboclo e nkisi existem no texto-mestre porque assim o era no axé da Gomeia. No barracão de João, tanto Angola quanto Ketu eram tocados indiferentemente, assim como o culto ao panteão-caboclo. A casa era, portanto, nagô-banto.

A heterogeneidade de Gomeia, também, quando se joga luz sobre o texto-mestre da Grande Rio, está presente. O Rei do Candomblé não era só visto como subversivo e não merecedor do sacerdócio devido “às suas visões libertárias” enquanto culto, mas também por ser folião e artista. Essas faces que constituem Joãozinho desfilarão, sim, na Avenida. Ora, não há contradição nenhuma entre João babalorisá e João vedete do Teatro de Revista, desfilante do Império Serrano, em Heróis da Liberdade, de 1969, e da Imperatriz Leopoldinense, em Oropa, França e Bahia, de 1970, e bailarino afro do Municipal ao lado de Mercedes Baptista. É o mesmo João. É, ora, um João humano, de carne e osso, homem comum, que se respeitava e respeitava o seu papel social enquanto sacerdote, uma vez que pedia sempre licença aos seus santos para gozar da liberdade nas artes que tanto amava; respeitando o sistema de ewós, impedimentos, preceitos da religião. Muito mais, pedia respeito, sempre, a sua crença e a seu povo. João não tinha papas na língua. João alfinetava, sua voz era verbo, era canhão. João trazia em sua essência os fluxos de Kaiango; disruptivo. Cada um, portanto, na visão de Tata Londirá podia ser o que quiser, não havia dubiedade nisso, contanto que se respeitasse os preceitos religiosos.

Do texto-mestre, vale observar, ainda, as frequentes referências a sambas da Grande Rio, na tentativa de resgatar a identidade caxiense; momento de rememoração. Essa noção de resgate aparece com a citação direta de versos do samba de Águas claras para um Rei Negro, de 1992. Em seguida, há uma paráfrase, logo no início do primeiro período do setor que descreve a infância de Joãozinho da Gomeia, do samba No mundo da Lua, de 1993. Há, ainda, uma referência implícita, no setor em que se discute João das Torres Filho enquanto persona influente; ora, ao ter amizade com Assis Chateaubriand, o Chatô. Isso faz, de certa forma, reverberar o enredo caxiense de 1998, Ei! Ei! Ei! Chatô é nosso rei!; outra majestade da Tricolor de Caxias. Há, por último, uma citação direta ao samba de Os santos que a África não viu, de 1994, rememorando o último enredo sobre negritude da Grande Rio. A metalinguagem, nesse sentido, é necessária, uma vez que falar de Joãozinho da Gomeia é falar de si própria, fazendo reverberar por meios das suas memórias a história do povo caxiense.

Quando, enfim, a Grande Rio despontar na Avenida, a Passarela se tingirá de verde, vermelho e branco, as cores da Escola e, coincidentemente, dos caboclos. Se João é rei, cada caxiense realeza o é. Durante o desfile, tantos corpos e vozes serão um só para contar a história do Rei do Candomblé, que ressignificou seu corpo, ora homem comum, ora sacerdote, ora vedete. A Grande Rio vai incorporar! A Grande Rio vai resistir! A Grande Rio vai vencer demanda! A Grande Rio, ora, vai se encontrar consigo mesma e, quem sabe, alcançar aquilo que tanto deseja nos seus mais de trinta anos: o campeonato. Solta o grito da garganta, Grande Rio!

Autor: Mateus Almeida do Pranto – [email protected]
Letras-Literaturas (Licenciatura)/UFRJ
Coordenador de Projetos Acadêmicos/OBCAR/UFRJ
Instagram: observatoriodecarnaval_ufrj
Leitor orientador: Rennan Carmo – [email protected]
História da Arte – Escola de Belas Artes/UFRJ

Comentários